24/03/2006 01:12:00
Os nomes do poeta
Por José Inácio Vieira de Melo
Tantos são os nomes de um poeta, porque em um poeta estão todos os poetas, “como Pessoa, para dentro/ diferente de si e/ diferente – MÚLTIPLO & CONTRADITÓRIO/ fora de tudo”. Sandro Ornellas é um “Marinheiro sonhador” que “escreve trespassado destes nomes”: Castro Alves, Rimbaud, Álvaro de Campos, Hart Crane, jovens apaixonados, bêbados, piratas, e tantos outros nomes que “nascem no céu da boca” e que ganham o mundo e dão significados às coisas. Cabe ao poeta escrever “Cartas”, “Página de autobiografia explícita” e dizer de si: “assumo meu desejo bruto/ sentimento irresolúvel e impuro/ fruto do mais direto prelúdio/ a um espírito sem contramuros”.
Sandro Ornellas nasceu em Brasília-DF, em 1971. Mudou-se para Salvador aos 12 anos. Leciona literatura portuguesa na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursou graduação, mestrado e hoje se dedica ao doutorado. Colabora com artigos críticos desde 1998 para a Revista Online de Cultura e Literatura Verbo21 (www.verbo21.com.br) e publicou o livro de poemas Simulações, em 1998, com o qual ganhou o Prêmio COPENE/Fundação Casa de Jorge Amado para autores inéditos.
José Inácio Vieira de Melo – Quando e como foi o seu despertar para a literatura e quais são as suas principais referências literárias?
Sandro Ornellas – Costumo dizer que meu período formativo se deu entre a segunda metade dos anos 80 e o início dos anos 90; adolescente atraído pelo universo do rock e das referências pop, através dele enveredei para o campo da literatura, sem nunca abandonar de todo o espaço primeiro. Foi através de cantores e bandas como The Doors, Legião Urbana e Lou Reed, como apenas três exemplos, que passei, pouco a pouco, a procurar poetas e pensadores para ler e ver o que havia de tão contestador neles. Passei a imitá-los. Mas isso que você chama de “despertar” não acontece da noite para o dia e de modo tão simples. Houve também um “primeiro” livro que um desavisado professor de história indicou para seus não menos desavisados alunos: “Admirável mundo novo”, do Aldous Huxley. Lembro que ao ler esse livro, pensei: “Existe algo de inquietante nisso que chama de livro”. Fui, então, atrás de Kafka, Rimbaud, Cruz e Sousa, Verlaine, Artaud, Blake, Álvares de Azevedo, Nietzsche, Eliot, e – às vezes compreendendo, às vezes apenas estremecido – fiquei absolutamente fascinando com o mundo desses autores, e os livros viraram minha maldição definitiva.
Como referências – muito ou pouco próximas do que faço, não importa – sei que estão Rimbaud, Mário Faustino, Allen Ginsberg, Drummond, Eliot, Fernando Pessoa-Álvaro de Campos e Nietzsche, sendo essas algumas das referências primeiras e definitivas dentro do meu imaginário e cânone literário.
JIVM – Qual o papel do intelectual na sociedade?
SO – Fundamentalmente pensar e tornar público o que pensa. E isso inclui – além de escritores em geral – jornalistas, publicitários, autores de novela, pessoal de cinema e vídeo, artistas plásticos, cantores, atores, etc. Por “tornar público”, penso não apenas escrever e publicar, mas falar em entrevistas, palestras, aulas regulares, intervenções urbanas, peças, performances, discos, shows, cartazes, fanzines, out-doors, revistas eletrônicas, blogs, jornais, etc. Desde que o assunto tornado público seja “relevante”, e “relevante” é muito difícil e complexo de se definir, e o “intelectual” em questão deve ter um raio de alcance poderoso para tornar seu assunto “relevante”. Mas, sobretudo, penso que um intelectual hoje em dia deve escrever (ou falar, etc.) sempre em nome próprio – reconheço que falar em nome do outro é sempre um ato de impostura.
JIVM – Qual a sua avaliação sobre o emprego de novas tecnologias nos processos artísticos?
SO – Existem empregos que considero relevantes (eis a palavra aí novamente) e outros absolutamente irrelevantes. Noto, por exemplo, que se usa muito a internet para informar e divulgar trabalhos nos moldes tradicionais, mas pouco se usa a possibilidade formal do hipertexto na criação de uma narrativa ou de um poema. Não vou dar exemplos concretos, apenas especulo. Mas sei que existem pessoas que experimentam o uso de softwares específicos como auxiliares na produção artística. Assim como o lápis, o papel e a máquina de escrever são (eram?) instrumentos auxiliares de criação, vejo esses outros instrumentos também como possíveis meios auxiliares na fabricação de um texto ou de um objeto virtual de cunho artístico. Sinto-me atraído por essas novas possibilidades como alguém que gosta de arte e de experimentos em geral. Só acho meio chato quando algo começa a me cheirar faccioso, totalizante e totalitário, do tipo pró ou contra. Sou pluralista, e defendo o pluralismo até o fim, mesmo retornando depois aos meus vícios próprios para alimentar as dependências químicas do meu corpo.
JIVM – Como você observa esse momento da nova produção poética da Bahia? Existem pontos confluentes que caracterizem uma tendência estética ou geracional?
SO – Acho que a produção poética (e literária em geral) na Bahia é ainda muito dependente do mundinho da política literária, da amizade, do compadrio e da facção (literatura que Afrânio Peixoto chama de “sorriso da sociedade”). Acho mesmo que falta profissionalismo a esse mundinho literário, falta seriedade no estudo de poesia e de outras artes – até mesmo para se ser “rebelde” é preciso se saber o motivo da “rebeldia”, e não ser um epígono pós-adolescente. Aceita-se as tradições (canônicas ou de ruptura) de modo em geral muito imediato e rasteiro. Falta sentido de inventividade e criatividade e sobra vontade de reconhecimento e de integrar o celebrity system da literatura baiana. Talvez por isso eu não veja muita diversidade nos poetas surgidos na nova geração baiana. Uns mais bem centrados e atentos ao que acontece pelo mundo e pelo Brasil e outros mais atentos ao próprio umbigo e à própria “sensibilidade”; vejo todos (e me incluo) um pouco parecidos e sem grandes nomes que despontem. O que quero dizer é que, do ponto de vista estético, não há novidades na nova produção poética da Bahia. Vários escrevem bem, dominam, uns mais outro menos, o bê-a-bá poético, mas ninguém arrisca errar, ninguém arrisca se exceder, ninguém arrisca se expor.
JIVM – O que acha das vanguardas literárias? E, neste aspecto, como se posiciona a nova poesia baiana?
SO – As vanguardas morreram como vontade salvacionista. Delas sobra o desejo de arriscar de que falei acima, o desejo de experimentar e explorar caminhos imprevistos e que surpreendam, de criar uma dicção própria, de achar o próprio estilo, de fugir dos epigonismos e dos reconhecimentos fáceis: “escreve no estilo de fulano”, “rende homenagem a beltrano”, “opta por um estilo nos moldes de sicrano”. Pelo menos as vanguardas – na sua vã, bela e defunta inocência messiânica – buscavam estudar o passado para destroná-lo. Hoje nem estudar o passado se estuda, quanto mais querer destroná-lo.
JIVM – Qual a relevância de uma coletânea como “Concerto lírico a quinze vozes”? E como você observa a sua participação neste livro?
SO – Uma relevância é formativa, pois a antologia cria a idéia de uma geração, o que do ponto de vista historiográfico e periodológico é importante para os estudiosos da literatura baiana. Outra é informativa, pois o livro divulga e reúne – por amostragem – poetas atuais, em franca atividade, mas em geral desconhecidos, muitas vezes entre si próprios.
Quanto à minha participação, prefiro não fazer nenhum comentário direto por não me considerar apto a esse exercício de despersonalização e distanciamento.
JIVM – Você foi um dos vencedores do prêmio Braskem para autores inéditos, da Fundação Casa de Jorge Amado, em 1998, com o livro “Simulações”. Fale da premiação, do livro e do seu processo de criação.
SO – Quanto à premiação, fiquei muito contente, principalmente por respeitar o júri, composto por Claudius Portugal, Antonia Herrera e Antonio Risério. Meu livro optou pela (auto-)ironia como discurso-chefe. Primeiro, por eu considerar grande parte dos textos do livro muito pouco “poéticos”, mas comentários, suplementos, diálogos, paródias, ironias com um tipo de poesia e poética salvacionista, grandiloqüente e auto-eternizadora (o que acho detestável!). Então resolvi escrever textos que ironizassem a idéia de poesia-como-salvação-da-humanidade. Vários títulos tentam deixar isso explícito. Considero-o um livro de juventude – por esse ímpeto (pretensamente) dessacralizador; mas não que eu tenha “crescido” e “amadurecido” de lá para cá. Mudei – ou retomei – certos desejos estilísticos depois desse livro (o que minha participação na sua antologia tenta mostrar), uma poética mais livre, mais vinculada à vida como experimento, ao corpo e à sua instabilidade e suas sensações, à experiência urbana e a certas espacializações dos versos na página em branco.
JIVM – Algum novo livro em vista? Quais os novos projetos?
SO – Tenho uns 50 poemas escritos, revisados e organizados, mas que estão de molho até que eu termine de escrever o doutorado no qual me meti. Quanto a projetos, cuidar do meu corpo para continuar escrevendo, dando aulas e organizar uma antologia do belíssimo poeta português Al Berto, sobre o qual escrevo a tese.
Poemas de SANDRO ORNELLAS
RIMBAUD ESTAVA CERTO
não se é sério aos 17 anos
e se mora defronte do mar
com suas sereias seviciantes;
não se é sério nem eterno
no carnaval, junto
a lolitas e odaliscas;
não se é sério nunca
quando se descobre
que meninas adoram
poemas românticos;
no entanto me apaixonei
aos 25 anos
por uma femme fatale
e sigo sonhando com casa
crianças e emprego estável
NOMES
estes nomes nascem no céu da boca
movimentando as máquinas da vida
desdobrando o corpo da alegoria
tecendo histórias, inventários, listas
estes nomes são meus nomes – sinais
daquele que se escora nas ruínas
da sua fantasia mais interior
estes nomes se escrevem estiletes
cortam todas as certezas dos olhos
e afirmam com sutil delicadeza
o solo (im)possível do seu labor:
certa materialidade de sonhos
criados em grandes peitos aéreos
e seu lirismo elétrico da pele
escrevo trespassado destes nomes
com linhas de força, traços violentos
simultaneamente retrato e texto
morador de superfícies que sou
reaberto para o hipervisível
para o hiperconcreto, para as vidas
que dançam na fina palma da mão
CONTRADI(C)ÇÕES BRASILIENSES
Para Marisa Camargo
ando sempre à sombra, escapando à violência branca
das chapas pretas cortando o olhar
soco roubado no vento
invasão de prédios e espaços públicos
me perco na escrita dos
monumentos que
enquadram afetos
simultânea ilha de silêncio & concreto
MEU AMOR SE ASSOMBRA COM OS ESTILHAÇOS DA ALVORADA
desejo e não desejo teu vocabulário de simetrias
pois tu – cidade – não és
real por fora
mas apenas em mapas de utopia
sintaxe material das minhas contradi(c)ções mais necessárias
José Inácio Vieira de Melo é alagoano, radicado na Bahia. É poeta e jornalista. Publicou os livros Códigos do Silêncio (2000), Decifração de Abismos (2002) e A Terceira Romaria (2005). Publicou também o livrete Luzeiro (2003) e organizou Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004). É co-editor da revista Iararana e colunista da revista Cronópios. Coordena o projeto Poesia na Boca da Noite. E-mail: jivm.inacio@ig.com.br |