16/5/2006 15:57:00 Rebelião em São Paulo: PCC versus governo paulista
Por Carlos Eduardo Magalhães
Tudo que aconteceu na cidade de São Paulo, os ataques do Primeiro Comado da Capital (PCC), a violência e as mortes já era esperado. Sabia-se que isso ou algo parecido iria acontecer. Há uma grande simbiose entre o banditismo e a polícia por aqui, no Rio ou em qualquer lugar do Brasil ou da maioria dos países. São duas faces da mesma moeda, uma vive em função do outro, especialmente com o grande negócio do narcotráfico. É mais uma luta entre facções políticas, sejam partidárias ou não, pra ver quem vai controlar esse milionário negócio.
O tráfico de drogas existe porque há gente que consome a mercadoria. Regra básica e simples de qualquer mercado. Havendo produto, há demanda e se a demanda cresce, o produto encarece, tornando o negócio mais lucrativo e atraente para qualquer investidor. Achar que repressão policial, verdadeira ou não, acaba com isto é acreditar em fadas. É gostar de ser enganado. Isso não existe. Os maiores consumidores de cocaína, heroína, exctasy e similares são exatamente quem tem mais dinheiro, poder, desde os milionários até a classe média que gosta de luzes, câmara, ação!
Para os mais pobres tem crack, heroína, cocaína misturada, impura, com preços mais em conta. Tem pra todos os bolsos, basta ter dinheiro. E é exatamente essa classe média hipócrita que fica gritando por mais segurança, contra pedintes das ruas, bandidos pés-de-chinelo etc. quem mais consome drogas de todos os tipos, dando dinheiro e poder para os narcotraficantes.
É igual a história dos Bingos ou Cassinos. São neles onde se lavam o dinheiro vindo do narcotráfico. Isso acontece no mundo todo e foi a grande sacada da Máfia americana, quando o Al Capone foi preso por não pagar imposto de renda. Las Vegas foi criada em pleno deserto exatamente pra dar origem ao dinheiro que vinha da bandidagem e, com o tempo, do narcotráfico. Os Cassinos, Bingos etc. servem exatamente pra isso porque não há como controlar o que entra e sai de dinheiro. Mistura-se diversão, entretenimento e jogo para atrair consumidores e aí rola de tudo. É muita grana de origens as mais diversas.
A mão de obra do narcotráfico cresceu muito e cresce cada vez mais enquanto não houver empregos decentes, políticas sociais de saúde, educação, moradia etc. tudo aquilo que muitos falam, especialmente alguns políticos, ONGs etc. e quase ninguém faz nada a respeito. Só alguns poucos que ainda acreditam que a única saída para este problema é por aí e não só pela repressão armada. Não funciona repressão armada, é apenas pra mostrar serviço. Se não, os EUA seriam um paraíso e é lá onde existe a maior população carcerária do mundo, onde o crime é organizadíssimo e tem o maior mercado de consumo de drogas do planeta. A tal política tolerância zero em Nova York contra o crime não acabou com a criminalidade na cidade. Só a transferiu para New Jersey, do outro lado do rio Hudson, nada mais. Foi tudo um grande marketing político que deu certo, com ajuda da mídia da cidade, pra que o turismo e os negócios voltassem a cidade.
Tudo que aconteceu foi na realidade uma disputa de poder na sociedade paulista, no Estado de São Paulo. O PCC quer que o governo de São Paulo e a polícia respeitem suas fronteiras e seu negócio, até porque, muito provavelmente, devem pagar muita grana para isto. Como alguém, por descuido ou ganância, descumpriu o trato, seja lá porque motivo, o caldo entornou. A rebelião explodiu...
Com certeza, as negociações entre o governo paulista e o PCC não foram interrompidas. Tiveram provavelmente alguns momentos de confronto, tipo ver-o-que-você-vai-fazer, uma espécie da quebra-de-braço, para ver quem é mais forte e decidido. Politicamente falando - ano de eleições etc. –, para os negócios e para os consumidores das drogas (que também devem estar pressionando pra normalizar o mercado) essa situação não interessa. Afinal, o PSDB/PFL está há mais de 11 anos no governo paulista e a segurança pública só deteriorou de lá pra cá. E governo federal só agora é do PT, há três anos. Foram oito anos também do PSDB/PFL e parece que nada foi feito para combater e modificar esta situação.
Uma informação. O montante de dinheiro que o narcotráfico gira no mundo todo é equivalente ao PIB do Canadá. Talvez até um pouco mais. Será que esse montante de dinheiro não interessa a qualquer banqueiro do mundo? Será que eles não fariam qualquer coisa para ter esse dinheiro em suas contas? Em qualquer lugar do país ou fora dele, seja em São Paulo, no Rio etc. a situação é a mesma. Onde tem dinheiro, tem mercado e por aí vai. Os investidores, os capitalistas do narcotráfico estão, na sua maioria, em São Paulo. São políticos, industriais, banqueiros, fazendeiros etc. que apenas aplicam seus capitais para render mais dinheiro. Gente da sociedade, figuras de proa, que vira-e-mexe saem nos jornais etc. Isso já foi denunciado pela revista Caros Amigos há alguns anos e nada aconteceu. Só piorou...
Quem sofre com tudo isso? Com certeza são os mais pobres, os cidadãos que moram nas favelas porque é lá onde acontece a distribuição da mercadoria. O crime organizado é exatamente isto. Uma tentativa de organizar as diversas fases do processo de investimento, produção, comercialização, propaganda & marketing (claro, por que não?), distribuição da mercadoria e retorno do capital investido.
Em São Paulo é onde a organização está mais avançada e é por isso que parece que está havendo uma guerra. Por mais que esta guerra pareça ser sem limites, é mais um momento da disputa por espaço, de mostrar força para negociar com mais cacife e conseguir bons resultados. Cada lado precisa demonstrar força e capacidade de ação, de reagir com violência e determinação. E foi exatamente isto o que aconteceu na cidade. Pode acontecer de novo, as condições para isto continuam existindo.
Para os políticos, em época de eleição, quanto mais cedo esta situação se arranjar, mesmo tendo que engolir sapos e fingir que está tudo bem, melhor. Tudo jogo de cena, apesar das mortes que aconteceram. São as tais baixas necessárias em todos os conflitos, infelizmente. Faz parte do cenário... e da negociação.
Carlos Eduardo Pestana Magalhães é jornalista e sociólogo. Publicou Invasão no Iraque – Manipulação, censura e mentiras da imprensa dos EUA, Editora Canudos, 2005. E-mail: cepmagalhaes@gmail.com
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