Por Crib Tanaka

Faça você mesmo também combina com literatura. A ordem punk acompanha os novos escritores, que buscam alternativas para mostrarem seus trabalhos. Blogs e sites são vitrine para textos produzidos por nomes que nem sempre são achados nas prateleiras, mas, nem por isso, deixam de produzir.
Escrever é prática regular para todos. Muitos começaram a escrever quando pequenos, com os “velhos” caneta e papel, influenciados por livros, histórias em quadrinhos e filmes. O teclado e a tela surgiram como uma nova opção e a internet possibilitou que suas letras ganhassem espaço de maneira rápida e prática, muitas vezes de graça – no caso dos blogs – ou baratas, como em sites. O feedback fica por conta de ferramentas próprias da rede que possibilitam, como o sistema de comentários, links para outros textos ou e-mail pessoal.
O objetivo é mostrar o que é produzido, oferecer os textos à tapa, sempre com a meta da publicação, ainda que incerta ou em futuro distante. Daí, a internet encaixar-se tão bem com a proposta. Através dela, muitos criam seu público, o que os encoraja a correr atrás, montar projetos coletivos e muitas vezes, bancar o próprio livro.
Para atender à demanda, surgem novas editoras, cuja produção tem chamado a atenção das grandes, que agora atentam para as novas letras.
Editoras independentes
Paulo F., de São Paulo, inaugurou a editora independente MURO (http://www.edmuro.kit.net/), com o objetivo de lançar seu próprio livro e novos autores que descobriu na rede. Estudante de produção editorial, ele pesquisou um formato que juntasse bom gosto a preço acessível e lança agora a primeira investida: o livro de contos Sob o infinitivo, que leva sua assinatura. “A principal intenção da MURO é lançar no mercado os que não tiveram oportunidades. Tanto que nenhum escritor será atrelado à editora. Se alguma editora quiser publicar seu livro, a MURO simplesmente pára de publicar e ele fica livre para seguir sua carreira.”, afirma ele.
Sob o comando de quatro escritores - Delfin (Campinas), Marcelo Benvenutti (PoA), Wladimir Cazé (PE) e Patrick Brock (PoA) – nasceu, em 2004, a Edições K (www.edicoesk.blogspot.com). Não se espante ao se deparar com algum deles com mochilão, repleto de publicações da editora. Volta e meia eles pegam o ônibus e param em feiras literárias e eventos, divulgando os novos autores. Delfin nos explica o passo-a-passo do projeto: “o original chega e se aprovado, convidamos o autor. Se ele topa: preparamos o original, o autor aprova, imprimimos, numeramos, divulgamos (selecionando inclusive kits de imprensa) e vendemos”. E como é feita a distribuição para as livrarias? “Toda a distribuição é direta. Por isso nossos livros têm custo final mais baixo que os tradicionais. Nós negociamos diretamente, seja com o leitor, seja com um ponto de venda. Para acompanhar a vendagem, entregamos exemplares numerados pras livrarias”, diz ele.
Também em busca de formas para publicar seus próprios livros, o escritor e programador visual Joca Terron (MT) lançou, em 1999, a Ciência do Acidente. Pela editora, lançou três títulos seus e mais de 30 de outros autores, sempre tendo como principal critério de seleção seu próprio gosto. “Quem quer publicar deve publicar, simples. Mas antes é bom mostrar pros outros em revistas e blogs”, diz ele, que tem, dentre os próximos projetos, criar uma outra editora.
Ano passado, nasceram mais editoras voltadas para estes nomes, como a Baleia (www.editorabaleia.com.br) e Barracuda (www.barracuda.com.br).
Novos talentos em grandes editoras
A 7letras lançou a coleção Rocinante, que abriu espaço para autores como Mara Coradello (ES) (www.cadernobranco.blogger.com.br) e Leandro Salgueirinho (Niterói – RJ) e O Nome da Rosa lançou Andrea Del Fuego.
Editoras com mais estrada também passaram a apostar no novo mercado, como a Casa da Palavra, que lançou ano passado o Prosas Cariocas, organizado pelos cariocas Marcelo Moutinho (www.pentimento.zip.net) e Flavio Izhaki (www.bohemias.blogspot.com). Prosas traz 17 novos autores: “alguns eu conhecia de andanças literárias, outros achamos em sites e blogs que costumamos freqüentar ”, fala Moutinho. No livro, além dos novíssimos Vinicius Jatobá e Mariel Reis, estão os escritores JP Cuenca - que lançou o aclamado romance Corpo Presente (Editora Planeta;2004) – e Adriana Lisboa, vencedora do Prêmio Saramago, em 2003 e autora de quatro livros lançados pela Rocco.
Concursos e possibilidades
Sobre o prêmio, Adriana afirma: “Não há dúvidas de que vencer prêmios literários dá visibilidade ao escritor”. Os concursos também oferecem subsídios que possibilitam e impulsionam a publicação. É o caso de Antonio Dutra (RJ) e Christiane Tassis (BH), contemplados com a bolsa oferecida pela oficina “Veredas da Literatura - Teoria e técnica do Romance”, ministrada por Milton Hatoum, na última Flip (Festa Literária Internacional de Parati). Ambos ganharam 12 mil reais, divididos em 1.500 mensais, para trabalhar em romance que deve estar finalizado até o final de junho.
Online
Quem ainda não tem originais nas gavetas, nem nas mesas das editoras, acha seu(s) canto(s) na Internet, enquanto costura projetos. É o caso de muitos, como Rafael Rodrigues (avidaeafins.weblogger.com.br), de Feira de Santana, que colabora informalmente para o Pessoas do Século Passado (www.pessoasdoseculopassado.com.br) e organiza, além de um site coletivo, uma coletânea de contos com os autores que conheceu online. “Um grupo de pessoas – do Rio de Janeiro, São Paulo e aqui da Bahia - reunirá seus contos, montará um original e enviaremos a algumas editoras”, diz ele, otimista.
Ana Lira (www.aostraeovento.blogspot.com), Recife, colaborava com o extinto Capitu, escreve para o Rabisco (www.rabisco.com.br) e agora pretende lançar textos no papel: “estou envolvida com o lançamento do fanzine do grupo de narrativas que eu participo, o Vacatussa”, diz ela, que vê na rede o principal vínculo com novos autores.
Inserts coletivos
São os feedbacks que muitas vezes geram trocas de correspondências constantes, que geram grupos, que geram sites: assim nasceram o Paralelos (www.paralelos.org) e Patife (www.patife.art.br), que abrigam colaborações de diferentes cantos do Brasil. Não raro é esbarrar com nomes em comum por estes cantos.
No Patife, os autores convidados para cada especial variam, assim como cada editor – “estipulamos rodízio na edição dos especiais para dinamizar o trabalho. Os textos fora do especial são atualizados periodicamente”, explica Jorge Rocha, que organiza o site ao lado de Ana Elisa Ribeiro e George Cardoso (BH); Cassiano Vianna e Löis Lancaster (RJ); Vitor Freire e Eliana Pougy (SP).
“Recebemos muitas colaborações. Do meio do ano passado até o final, foram cerca de 700 textos enviados. Acho que o Paralelos deu sorte de ter surgido num momento de abertura da imprensa para a nova produção literária do país. As pessoas passaram a recorrer ao site para procurar novos nomes”, diz Jaime Filho, que fez parte da idealização do projeto, cujo livro de contos foi publicado pelo selo Agir, da Ediouro, em 2004.
E o que falta para os novos autores serem mais conhecidos?
O recifense Marcelino Freire (www.eraodito.blogspot.com), escritor e editor de coletâneas como “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê Editorial; 2004), sentencia: “O que falta é muita gente deixar de ser preguiçosa e ler os novos. Muita literatura boa tem espalhada por aí. Uma vida literária como a de hoje há tempo que não se via. O povo é que precisa abrir o olho. Se depender de mim, já preparei o colírio.”
Joca Terron acredita que a iniciativa deve partir dos autores: “É legal haver espaço e interesse de editoras, mas quem deve impulsionar o que quer que seja são os escritores”. No que completa Delfin: “Falta eles trabalharem para isso. Chances não caem do céu. O que cai do céu é chuva. Eles têm é que estar debaixo dela, pra se molhar”.
Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail:cribtanaka@uol.com.br