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07/07/2006 22:41:00
Sociedade abusada



Por Daniela Landin

 

Qual é o lado certo da vida errada? Na complexidade da sociedade brasileira, explicações com base no paradigma certo-errado não dão conta da realidade. Um verso da música “Soldado do Morro”, de MV Bill, rapper que se notabilizou depois do lançamento do livro Cabeça de Porco, escrito com o antropólogo Luís Eduardo Soares, diz “a sociedade me criou, agora manda me matar”. Dessa forma, o verso sugere um novo tipo de compreensão em torno da situação do tráfico dos morros a partir de outros termos: causas e conseqüências. E é a partir desses dois nortes que Abusado – O Dono do Morro Dona Marta, de Caco Barcellos, trilha sua narrativa.

“O lado certo da vida errada”, frase que se torna chavão em Abusado, faz com que o autor deságüe num maniqueísmo quase espontâneo, mesmo indo à contramão dos discursos correntes, sobretudo aqueles endossados pela mídia. Barcellos aponta para a outra visão do crime, a dos criminosos, defendendo essa parcela social que nunca é ouvida, apenas satanizada. A história, que se vale da trajetória do traficante carioca Márcio Amaro de Oliveira, mais conhecido como Marcinho VP, relata as gerações anteriores ao traficante da facção criminosa Comando Vermelho. E vai além. O livro chega a traçar um perfil do narcotráfico e da violência urbana nas favelas do Rio de Janeiro, tendo como microcosmo o morro Dona Marta, no bairro de Botafogo, zona sul da cidade.

Com traços estilísticos que flertam com o romance, este livro-reportagem é um libelo do jornalismo literário. Caracterizado pela riqueza de detalhes descritivos e repleto de imagens cinematográficas, é fruto de uma minuciosa apuração jornalística que durou cinco anos. Os diálogos reproduzem a maneira de falar própria dos habitantes da favela, com gírias e construções gramaticalmente equivocadas. Para ressaltar ainda mais o realismo do relato, o autor descreve momentos cruéis e chocantes de violência, perseguições e injustiças. A narrativa de Abusado, extremamente imagética, utiliza-se de uma linguagem precisa e icônica, conduzindo-nos nessa incursão pelo morro Dona Marta.

Mas o autor não pega simplesmente nas mãos do leitor e o leva até o morro. Barcellos faz mais: desvenda a rotina e os mecanismos da vida do chamado submundo excluído, escancara a humanidade de figuras que são vistas como apenas marginais pelas classes que preferem ignorar os ângulos desagradáveis da sociedade. E, de tão humanas, as personagens do livro provocam empatia, carinho, reflexão. Isso ocorre, sobretudo, com o protagonista do livro, Juliano VP, personagem que remete ao traficante assassinado Marcinho, cujo corpo foi encontrado na lixeira do presídio Bangu 3, no Rio de Janeiro, em 28 de julho de 2003.

Caco Barcellos nasceu em Porto Alegre e foi criado em Partenon, um bairro pobre da cidade. Na segunda metade dos anos 1970, participou dos veículos alternativos Movimento e Coojornal, além de ter sido um dos criadores da revista Versus, também independente. Abusado é o seu terceiro livro. Antes dele, escreveu A Revolução das Crianças, sobre a vitória dos guerrilheiros sandinistas na guerra civil da Nicarágua e Rota 66, em que denuncia uma unidade assassina da Polícia Militar. Por este trabalho de sete anos, ganhou o Prêmio Jabuti de 1993 na categoria Reportagem, entre outros seis prêmios. Já Abusado, conquistou o Prêmio Jabuti de 2004 em Reportagem e Biografia.

Juliano – ou Marcinho – já era uma figura carismática e singular por si só. Ele era admirado e respeitado por companheiros do morro e até por intelectuais, como o cineasta João Moreira Salles. Com um perfil que divergia dos traficantes, tinha interesse por literatura, filosofia, sociologia e até um projeto de guerrilha social. Abusado é um título que encerra uma ambigüidade com o contexto social de Juliano. Afinal, abusado é característica do anti-herói ousado e corajoso, mas também aspecto de todo aquele que é excluído socialmente e, assim, violentado. Ou seja, Juliano foi um lutador ou uma vítima? Juliano abusou ou sofreu abuso? Dessa sociedade que não só abusa, mas que também cria e manda matar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Daniela Landin é paulistana do bairro da Penha, estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e integra a equipe do veículo impresso e independente Catarse e do quadro radiofônico Diálogos Catárticos (Gazeta AM). E-mail: d_landin@yahoo.com.br

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