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30/7/2006 15:11:00
Azar do Grupo Corpo



Por Amador Ribeiro Neto









O disco solo mais recente de Caetano Veloso é Noites do Norte, lançado em 2000. Depois dele, em companhia de Jorge Mautner, Caetano lançou Eu não peço desculpa, em 2002. Agora é a vez de outro disco em parceria: Onqotô, que acaba de ser lançado, e traz José Miguel Wisnik como parceiro.


O disco foi feito, sob encomenda, para o Grupo Corpo, de dança, de Belo Horizonte. Embora seja uma trilha para ballet, não há unidade no trabalho. As canções e músicas valem cada uma por si. Evidentemente que isto causa a devida sensação de incompletude. Cada faixa vale uma moeda. E há moedas de bom valor e outras de valor esfrangalhado.


Onqotô, que é a transliteração caipira para a expressão "onde que eu estou", deixa a desejar. Não traz a marca brilhante da assinatura Caetano. Traz a pecha da voz sofrível de José Miguel Wisnik - um fio frágil de voz que faz mal aos ouvidos. (E olha que não faço aqui a apologia do vozeirão - longe de mim - nem das vozes adocicadas e redondas). O que acontece é que José Miguel Wisnik quer cantar como Caetano Veloso.


Certo, Caetano é nosso melhor cantor atualmente. Ninguém na nossa música, nem mesmo Milton Nascimento, tão decantado, canta tão bem como ele. Claro que Caetano aprendeu a cantar com João Gilberto, seu mestre e doutor de todos nós amantes de música popular. Mas Caetano não imita João. Ele vale-se do princípio antrofágico-tropicalista de digerir o que não é seu e entregar um (n)ovo produto.


No disco fica claro que Wisnik macaqueia Caetano e, pior, que Greice Carvalho macaqueia Wisnik. Resultado: um tombo atrás do outro. Felizmente há faixas em que Caetano canta sozinho e outras que são instrumentais. Nem tudo está perdido.


Se canta muito mal, Wisnik, em contrapartida, compõe bem. Destaque para a caetânica musicalização do soneto de Gregório de Matos, "Mortal loucura". Digo caetânica porque o tom é o mesmo que Caetano emprestou a "Triste Bahia", outro soneto de Gregório. Mas o diferencial que Wisnik não percebeu é que Caetano, ao musicar Gregório, enfeixou na música um caldeirão de ritmos e citações musicais da música folclórica e popular da Bahia. Enfim, deu/devolveu à Bahia o que era dela: Gregório, o samba de roda, o berimbau, etc. Em todo caso, Wisnik se sai bem aqui. Compondo.


A gravação de "Mortal loucura" começa com Wisnik "cantando" e, conseqüentemente, destroçando a sensibilidade do ouvinte. Mas, felizmente, Caetano entra a seguir e canta - e aí constata-se a brutal diferença entre ambos. Por fim, a reverberação de vozes iconizando a duplicação das palavras do soneto, de tão alongada, cansa. Parece que a intenção é repetir o tom monocórdico das orações cantadas - com o excepcional arranjo com violões de 12 cordas, piano, violino e a presença mágica de Carlinhos Brown- , mas o que era pra ser uma bela imagem do sacro torna-se, com o perdão do termo, sacralgia.


Mas, evidentemente que um disco com o selo Caetano não pode ser apenas descartável como o descrevo até agora. Mesmo fazendo um disco de camaradagem com o amigo querido, imprime sua marca de qualidade. São muitas as demonstrações de que Caetano admira Wisnik - dedicou-lhe o Verdade Tropical, escreveu press-release de disco dele, convidou-o para dividir o palco em seus shows, etc.


"Fla Flu", que abre o disco simula, apenas com vozes e flautas e flautim, a cena de um jogo de futebol. E aqui o arranjo lembra "De palavra em palavra", que faz parte de Araçá Azul (1973), até hoje o disco mais experimental de Caetano. A faixa seguinte, apropriadamente intitulada "É só isso" apóia-se no antológico "Bim-bom" de João Gilberto. A percussão aqui é o forte, enfatizando as bases do samba. Mas há também um piano. E um piano preparado (que remete a Cage), confirmando o caráter experimental da canção. Estas duas músicas (que são de Caetano e Wisnik) têm como letra apenas as palavras de seus títulos, que nem são cantadas - mas faladas. Assim, geram uma expectativa gostosa para o restante do disco.


Em vão. Já na faixa seguinte, "Madre Deus", linda composição de Caetano, que mesmo participando dela com seu assovio ao som de violinos, violões, clarinetes e contrabaixo, não a livra da infeliz interpretação de Wisnik, que respira mal, pronuncia mal, canta mal. Caetano fica nos devendo o registro desta faixa em interpretação solo. Afinal, o homem que resgatou "Sozinho" e "Você não me ensinou a te esquecer" é capaz de operar milagres.


"A cobra do caos", vem assinada pelos dois, tem um belo título e é rica música com arranjo apenas de percussão: caixinha, agogô, afoxé, chocalhos, tambores, apitos, latas, palmas. Própria para a dança. Própria para ouvidos mais sensíveis.Talvez a melhor faixa do disco. Há uma mistura de samba de roda com vocalizações inusitadas de Caetano, à la Naná Vasconcelos, que cai muito bem. Novamente aqui ecoam experimentos de Araçá Azul. O que não é pouco, já que Caetano anda desancando este disco. Despropositadamente. (Leia-se seu recente O mundo não é chato).


"Big Bang Bang" tem o tragicamente bobo verso de Wisnik: "Se tudo começou no Big Bang / só tinha de acabar no Big Mac" (argh...). A composição é, mais uma vez, dos dois. E a letra é cantada como se fosse um rap-samba, quase ao modo de Marcelo D2. Atenção aqui para a pedaleira de efeitos e os scratches num arranjo impecável de Alê Siqueira. Por ser um rap-samba, e sendo de Caetano, "Haiti" é lembrança imediata. Mas aqui nem a citação de Nelson Rodrigues - "O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada" - salva uma letra que trocadilha com um mau gosto inqualificável: "flato-flou / fight-flucht / fiat lux" encerrando com a blasfêmia de citar e sujar o "ptyx" mallarmaico.


"Tão pequeno" é uma quadra de Camões musicada por Caetano. É desastrosamente cantada pela desconhecida Greice Carvalho. Aquela que imita Wisnik, o mal fadado modelo. Camões deve revolver-se no túmulo a cada vez que esta faixa roda. Nem o violão de Caetano, nem a guitarra de Jr. Tostoi salvam este delírio de "um fraco humano". Uma faixa que veio com a clara determinação: ser eliminada das cópias piratas, das seleções das menos ruins deste disco. Raramente se ouviu interpretação tão mal fadada no vasto repertório da MPB.


"Pesar do mundo" começa com a marcação de um tamborim que introduz a interpretação de Caetano. A canção é de Wisnik e Paulo Neves e usa e abusa dos trocadilhos com o vocábulo pesar: "pesar de tudo / pesar do peso / pesar do mundo / pesar de nuvem / pesar de chumbo". Fica parecendo um exercício de oficina de letra de música para adolescentes. As associações vêm com o acaso, com o brain storm. Falta valor, falta o projeto de escrita. Caetano canta e tenta salvar do naufrágio a canção. Consegue em parte, mas o afinco de boas intenções não convence.


"Onqotô", a faixa que dá título ao disco e o encerra, é instrumental e tem uma força que une scratches, flautas, pífanos, piano e - acima de tudo - uma percussão digna de Noites do Norte. Versos esparsos das canções anteriores reaparecem tecendo uma teia autoantropofágica. Ficou interessante. Inda mais que os pífanos remetem ao universo inventivo-popular da música nordestina e as flautas, associadas aos tambores, realçam o caráter inovador de algumas canções. O disco fecha-se com muita energia e consciência de linguagem.


Deveria abrir o cedê e norteá-lo. Infelizmente Caetano e Wisnik teriam de começar tudo de novo. E parece que não estavam com este gás. Uma pena. Não deve ser isto que o Grupo Corpo esperava. Resultado: dançou feio. Mas o encarte é bonito. Muito bonito.

 

 

 

 

 

 

 

 


Amador Ribeiro Neto é crítico e poeta. Autor de Barrocidade (poesia - S. Paulo: Landy). Professor do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba. E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br

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