7/9/2006 14:31:00 Notas breves do fantasma de Al-Mu’tasim
Por Guto Cavalcanti
O Poeta e crítico literário angolano Neddin Guime, que teve recente edição de poemas reunidos no livro From shadows behind skin intitulado maravilhosamente pela editora por Das trevas detrás das Peles, tradução de Menard Cannebière, descreve, muito autêntico, o escritor em ofício: “um corpo sem malícia pr’atuar nun denso personagem”. Como o autor não interpreta, há sempre o vazio. Na idéia de Guime, o escritor enquanto cria encerra em seu corpo a co-ocorrência de dois pólos de uma oposição. Seu discurso lógico argumenta que o mesmo processo de elementos contrários que coexiste na linguagem poética, também co-existiria no corpo dos homens vivendo em sociedade. Aceitando a palavra poética num ato sem passado imediato que reduz o discurso lingüístico ao ESTADO ZERO, destarte esse seria o perfil do homem atual naquilo que ele chama de A HUMANIDADE ZERO. Assim, conclui seu ensaio crítico em analogia com um vértice literário de Roland Barthes.
A simbologia de Guime, tão complexa quanto bela, se renova para além no meticuloso trabalho do artista plástico Tsay lan. Aponta-se o solo da China atual, Tsay é de nacionalidade chinesa, tendo ainda nítido na memória a antiga economia agrícola e extraindo no choque brutal, o mercado que se abre para conduzir a nova e afluente classe média deste país ao crédito parcelado, ideal ao nascer de tão bela metáfora registrada nas tensões da arte.
Já espanta criativa expressão unindo lado a lado aquarelas e óleos sobre letras, como se folheando as páginas de Parte do Cômico Dramático da Sociedade Atual, tenho-a à vista sobre a mesa e autografada na contra-capa, fosse vagar pelos corredores numa vernissage musicada, mas Tsay transcende. Une na mesma obra homem e sociedade, natureza inseparável partilhando da mesma inescrutável e abstrata beleza.
Num dos desenhos mais impressionantes, observo atônito a frase que intitula toda a obra, naquilo que seria um contra-senso, fazer analogia com um dos mais influentes e brilhantes autores do Ocidente. Ambigüidade irreal. Contra arte não se constrói muros, como quis Alice di Carroll.
Parte do cômico dramático Da sociedade atual
A sociedade em artistas anônimos/ pré-estréia LIVRE /
como sugeriu um dos palhaços de Cal Purni
Isso
que fique bem claro
Se os mesmos existissem.
Dividindo o desenho é estupendo.
E Como existir diante da instalação?
O eu esfacelado içou sua gôndola
desfazendo na fala da high Saussure
diluiu, beijou no mármore das torres iluminadas
palcos aos berros de poetas pra trás
jejuando ao puro quarteto de cordas
atores, gin Tonica e soda e
ancorou nas docas desalinhadas da classe média
Imagine, dr. Charcot, sobre a cômoda o carnê que logo vence, na telenovela fala-se sobre sessão de hipnose regressiva.
Depois de alvejado, balas crivadas por toda alma, o baque que provoca essa tempestade de símbolos e críticas pausadamente diferidas por exímio artista, sobra ao ser humano comum que é expulso de sua cela assegurada pelo capitalismo, compreender sem aflição que as máquinas do futuro serão operadas por zumbis fantasmas, quase os mesmos das filas de operários, iluminados pelo farol néon importado, nos muros de ontem.
Nada deles existe. Patrões e operários dividem o mesmo palco. Personagens por risos perdidos. A individualidade tenta persistir enquanto percebe lenta que já era. O autor se despede tendo certeza única que nunca existiu.
Em um breve relato possível, uma nota bibliográfica do moderno retorno ao atual pós-vazio...
No canto ainda turvo da sala, nesta espécie de hora noturna que o silêncio insiste em flertar com a escuridão, as órbitas inconvenientes começaram iluminando a moça entre os veios das grossas cortinas, calada. Devagar, lenta, perderam, ela e o texto científico, a segurança estática. A clareza virou opacidade estreita e sombria nos seus olhos. A pequenina mão da moça, ainda em pé no mesmo local, vinha e voltava tocando suave nas mechas da cortina e a luz que transpassava ia desenhando mares por seu corpo enquanto o ruído cortou o silêncio. No escuro, pareceu falar ordenada pela sutileza daquele último toque. Reclinando o rosto que se esvaia pelas ruas vazias, os olhos delas se encontraram. A pequena caminhou suave até a mesinha rústica do computador. Vinha e voltava tocando-lhe no rosto delicado. Interrompendo a tese, a barra piscando na tela após a última letra escrita, foram pro quarto. Continuaram em silêncio até onde a luz era dura. Sentaram-se. O beijo estalou pelos cantos. As mãos calmamente iam e vinham, iam e vinham, iam e vinham e, as mesmas sentiram-se como um fiel farol que guia os navios perdidos em uma costa pedregosa. Amaram-se até quando a luz não mais guardava desenhos. Já era dia. Uma seguiu pra trabalhar. A outra voltou, primeiro digitando nuvens pelo vento e, após o dilúvio de sentidos, escreveu no micro a beleza que soube narrar.
Retrato de Al-Mu´tasim. (2006) tinta de caneta sobre celulose.
Guto Cavalcanti tem 24 anos é formado em Artes e Comunicação pela UFSCar e publicou na revista Olhar da mesma. Poeta, escritor e roteirista. Pode ser visto apoiado em um dos hexágonos da biblioteca em dia de sorte. Noutros, supervisiona operários. E-mail: acantiza@hotmail.com
Publicações de um autor no Cronópios
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