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14/10/2006 22:59:00
Literatura feminina ou poética feminina?



Por Nelson de Oliveira

 

 

Tenho visto aqui e ali, nas publicações virtuais e também nas de papel, um rascunho de debate em torno da literatura feminina. Digo rascunho porque, de tão pesados, os argumentos a favor e contra raramente conseguem decolar. Quando conseguem, logo caem por falta de combustível. Então o que sobra são parágrafos e parágrafos bombásticos, furiosos e indignados. Mas como o bom senso não anda obrigatoriamente de mão dada com a indignação, não tenho certeza de ter visto a inteligência iluminando esse debate-boca.

Literatura feminina existe?

A pior maneira de começar qualquer debate é fazendo esse tipo de pergunta.

Por quê? Porque o verbo existir é mais bandido do que se imagina. Aliás, de mocinho ele não tem quase nada. Só para vocês terem uma idéia, esse verbo tão delicado, tão inocente, é o responsável pela existência (olha ele aí de novo) de penhascos dantescos e labirintos torturantes chamados filosofia, ciência, História…

Se, desde Heráclito, passando por Nietzsche, Einstein e Stephen Hawking, os maiores doutores, esses que têm livre trânsito pelos melhores laboratórios e pelos melhores núcleos de pesquisa, não têm sequer certeza se nós mesmos, seres tão objetivos e concretos, existimos — ou que diabos é isso que o senso comum chama de existência —, que dirão de algo tão subjetivo e impalpável como a literatura feminina?

Pra começo de conversa, a melhor pergunta não é essa. A melhor pergunta é: faz sentido a criação de mais um gênero literário chamado literatura feminina?

De uma coisa estou certo, só vale a pena levar adiante essa discussão se os interlocutores não perderem de vista a questão mais séria da divisão da literatura em diversos gêneros. Platão, Aristóteles, Goethe, Schlegel, Novalis, Walter Benjamin, Lukács… Não é de se espantar, tanta confusão. Muitos foram os teóricos que já escreveram, às vezes confusamente, sobre esse tema.

Ainda hoje estudiosos, autores e diletantes têm debatido furiosamente sobre a importância de se etiquetar as obras literárias de acordo com os gêneros pré-estabelecidos. Um terço deles argumenta que só há a boa e a má literatura, sendo o resto firulas de desocupados. O segundo grupo, ao contrário, afirma que o estudo da literatura fica muito mais rico se certos padrões forem reconhecidos e catalogados. O terceiro grupo concorda com o segundo quanto à necessidade de se dividir o novilho em várias partes, mas discorda quanto à divisão em um número excessivo de partes.

É óbvio que o primeiro grupo é o dos cândidos e dos ingênuos. Afinal, se existe apenas a boa e a má literatura, não faz o menor sentido dividir as obras em líricas, dramáticas e épicas. Ou então, como é mais comum, em poesia e prosa, romance e conto, simbolista e modernista, e assim por diante. Se o estudioso, o escritor ou o diletante estão convictos desta opção, não há mais debate. Melhor dizendo, o debate está simplificado, devendo se concentrar apenas na seleção dos bons textos e na eliminação dos maus. Assim pelo menos a vida fica muito mais fácil. Aparentemente, é claro.

Tzvetan Todorov trata desse debate quando disserta, por exemplo, sobre a literatura fantástica. Para o teórico búlgaro a rejeição à noção de gênero, como sugere Benedetto Croce e Maurice Blanchot, não faz o menor sentido, pois essa rejeição implicaria na renúncia à própria linguagem e não poderia, por definição, ser formulada. Ainda para Todorov, mesmo que a literatura pareça hoje querer abandonar a divisão em gêneros, não reconhecer a existências dos gêneros literários equivale a supor que as novas obras não mantém relações com as obras já existentes, tampouco entre si. “Os gêneros são precisamente os vínculos por meio dos quais cada obra se relaciona com o restante do universo da literatura” (Introdução à literatura fantástica).

De qualquer maneira, aos que insistem em acreditar que só há a boa e a má literatura, que cada obra é única, para esses não há mais debate. Para esses “só importa o livro tal como é, longe dos gêneros, longe das rubricas — prosa, poesia, romance, biografia — sob as quais ele se recusa a se alinhar e às quais nega o poder de fixar seu lugar ou de determinar sua foma” (Blanchot). O problema só começa pra valer quando convidamos para a mesma mesa o pessoal do segundo e o do terceiro grupo.

Até há pouco tempo não se falava em literatura negra, literatura gay, literatura carcerária, literatura feminina, enfim, na literatura das minorias. Essas etiquetas foram criadas para que a crítica pudesse dar conta dos novos fenômenos literários. Se os gêneros já institucionalizados — literatura policial, erótica, fantástica, de horror, de ficção científica — causam pouca polêmica, os novos gêneros, ao contrário, não param de se meter em confusão. Tudo porque a definição corrente desses novos gêneros, suas leis, seu regulamento, sua disposição estatutária, são grosseiros e deselegantes. Mas, no momento em que essa definição adquire contornos mais sofisticados, tais gêneros ganham nova estatura. Nessa hora seu raio de ação é expandido ao máximo.

A definição corrente de literatura feminina é: “a literatura escrita pelas mulheres”. Sendo as principais características dessa literatura o discurso confessional sobre os fatos e os fenômenos da vida privada, da rotina doméstica, do relacionamento com os homens em geral e com a família em particular. A prosa e os poemas escritos por mulheres, que tratam de afetos e desafetos, do amor e do rancor, envolvendo namorados, ex-namorados, pais, avós, tios, irmãos, maridos, ex-maridos e filhos, pertencem à literatura feminina. Falo, por exemplo, de boa parte da ficção de Lygia Fagundes Telles, Ivana Arruda Leite, Cíntia Moscovich e Lívia Garcia-Roza. Falo de boa parte dos poemas de Cecília Meireles, Olga Savary, Ana Elisa Ribeiro e Adélia Prado.

Mas essa é apenas a definição mais imediata do que seria a literatura feminina, e a menos interessante, porque muito presa ao aparelho reprodutor. Há outra mais abrangente.

Definir a literatura negra como sendo apenas “a literatura escrita pelos negros” é em certos casos o cúmulo da imbecilidade. É confundir o gênero discursivo com a cor da pele. É esquecer que da cultura negra também podem participar pessoas de outras etnias: ianomâmis, croatas ou chineses irmanados sob a mesma humana opressão. Boas narrativas gays podem ser escritas por heterossexuais e boas narrativas carcerárias podem ser escritas por gente que nunca esteve presa. Ao menos não há nada, nenhuma barreira física ou moral, que impeça isso.

Da mesma maneira que a literatura policial não é a literatura escrita apenas pelos policiais, a literatura feminina não precisa necessariamente ser a literatura escrita apenas pelas mulheres. É certo que há policiais escrevendo literatura policial, mas também há professores, psicanalistas, filósofos… O mesmo acontece com a literatura feminina da maneira como eu a vejo: há homens e mulheres trabalhando dentro dos limites desse gênero.

E a maneira como eu a vejo é a mesma maneira como Lúcia Castello Branco a vê. Em seu pequeno livro intitulado Escrita feminina (Brasiliense, 1991), ela argumenta: “a escrita feminina, não sendo exclusivamente da mulher, mantém sempre certa relação com a mulher”. Para Lúcia, e para mim, a escrita feminina é a escrita do gozo, da respiração simultaneamente lenta e acelerada, da fantasia exacerbada, do mergulho no inconsciente, dos segredos e das confissões, da loucura. É a escrita dionisíaca e noturna, que está sempre se chocando com o apolíneo e ensolarado racionalismo masculino.

Muitas vezes desconexa, muitas vezes descompassada, muitas vezes abrupta, sôfrega, tagarela, a escrita feminina constrói-se freqüentemente em torno do silêncio. De tanto falar, falar, falar, o texto parece querer não falar nada. Parece querer calar. Por isso é comum encontrarmos leitores de certa forma decepcionados com essa escrita, ou até mesmo irritados com esse texto que jamais se revela de todo, que jamais se permite desvendar, que jamais esclarece o obscuro, que jamais confessa as verdades inconfessáveis, que jamais entrega os segredos de bandeja. Palavras de Lúcia Castello Branco: “É o caso da recepção (um pouco decepcionada) que a tradução dos diários de Virginia Woolf teve no Brasil, por parte da imprensa, que chegou a anunciá-los com a seguinte manchete: ‘Em seus diários, Virginia Woolf parece querer esconder-se de si mesma’.

A escrita feminina é espasmódica e ofegante. É a escrita impulsiva de Virginia Woolf, Proust, Joyce e Clarice Lispector. É a escrita passional de Álvaro de Campos, Bukowski, Maura Lopes Cançado e Lygia Bojunga. É a escrita visionária de Ana Cristina César, Murilo Mendes, Uilcon Pereira e Hilda Hilst. Olhando por esse prisma fica fácil perceber que boa parte da transgressora literatura do século XX (o mais transgressor dos séculos), mesmo tendo sido escrita por homens, representou o triunfo do discurso feminino: anti-racionalista, confessional, fragmentário, desvairado, xamânico.

Voltando à polêmica: a primeira pergunta a ser feita no debate a respeito da escrita feminina não pode ser sobre a existência ou não de algo que está aí por definição. De algo que também por definição pode desaparecer no segundo seguinte. De algo que é ou não é, de acordo com a vontade de cada um. A primeira pergunta tem que ser: a divisão da literatura em feminina e masculina é útil e enriquecedora?

Na minha opinião, é sim. Na pior das hipóteses, mal não faz.

A segunda pergunta é: qual das duas definições possíveis é a mais interessante?

A mais abrangente, é claro.

Mas quando uma escritora cria protagonistas envolvidas apenas com o conflito com seu namorado ou seu marido, ou o ex-marido, ou os filhos, o desejo de engravidar, a rotina doméstica, a moda e a culinária, a dificuldade do orgasmo e os dilemas do sexo feminino na sociedade machista (temas eternamente presentes nas revistas feitas sob medida para o público feminino), nessas circunstâncias fica quase impossível escapar do estereótipo da literatura feita por mulheres. Porém estamos falando de pequeníssima parcela da literatura produzida por escritoras. Outro dado importante: também aqui não há nada, nenhuma barreira física ou moral, que impeça os homens de criar semelhantes protagonistas (Dalton Trevisan tem dezenas delas), fato que acaba gerando certa confusão durante o debate se apenas a primeira definição for levada em consideração.

Já a segunda definição, mais abrangente, elimina com facilidade essa e outras imprecisões.

Conceitos antagônicos, como os de realismo e surrealismo, figurativo e abstrato, objetivo e subjetivo, clássico e barroco, ao longo do tempo têm sido usados sem causar grandes desavenças. Isso porque seu raio de ação é imenso (quantas vezes não foi usada a já citada distinção entre o apolíneo e o dionisíaco?!). Também os conceitos de masculino e feminino deixam de provocar desconforto quando incluídos nesse grupo de elite, do qual apenas os grandes conceitos polarizadores fazem parte. Tudo porque agora a literatura feminina não está mais reduzida a algo pequeno e ocasional: os ovários e o útero.

Ela não é somente mais um subgênero entre subgêneros (literatura policial, erótica, fantástica, de horror, de ficção científica). Ela é algo muito maior: é uma poética. Ou seja, ela é agora um dos muitos estados possíveis e excludentes da literatura e da arte. O mesmo raciocínio vale para a poética negra, a poética gay e a poética carcerária.

 

 

 

 

 

 

 

Nelson de Oliveira nasceu em Guaíra, SP. Escritor e mestre em Letras pela USP, publicou Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Subsolo infinito (romance, 2000), O filho do Crucificado (contos, 2001, também lançado no México), A maldição do macho (romance, 2002, publicado também em Portugal) e Verdades provisórias (ensaios, 2003), entre outros. Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, Geração 90: os transgressores, com os melhores prosadores brasileiros surgidos no final do século XX. Ainda em 2003 editou com Marcelino Freire o número único da revista PS:SP. Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Américas (1995), o da Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003). E-mail: oliveira.e.cia@uol.com.br 

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