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29/10/2006 13:34:00
Uma escritora das Arábias



Por Luis Dolhnikoff

 

         A expressão clichê do título, não exatamente um prodígio de criatividade, pode, talvez, ser perdoada em função da múltipla pertinência que aqui adquire: ser “das Arábias” significa ser surpreendente; ao lado disso, Leila Soraya Menezes traz duplamente no nome uma referência médio-oriental; por fim, no texto aqui abordado ela escreve, como se diz, sobre o “Outro” – ainda que esse “Outro” não seja o árabe de seus dois nomes, mas o povo da floresta do noroeste do Brasil.

Em A arte da poesia, Pound refere a “indescritivelmente difícil arte da boa prosa”, contra o senso comum de que a grande dificuldade se confina à escrita da boa poesia. Um escritor que escreva uma boa prosa poetizada é, portanto, um animal relativamente raro, tanto mais quanto mais proliferam os praticantes facilitados da “poesia” em prosa. E onde eles mais proliferam é na selva selvagem da internet. Deparar-se de repente com uma bela prosa poetizada num blog é, portanto, algo que merece registro no diário de viagem.

Leila Soraya Menezes escreve numa prosa que muitas diriam ser “poética”, e outros tantos, ser “poesia” em prosa. Falo, porém, em prosa poetizada, em primeiro lugar, porque o adjetivo poético pode, neste contexto, significar muitas coisas distintas, entre a “sensibilidade” do autor e a linguagem de que faz uso, logo, não significa nada propriamente; e em segundo lugar, porque não reconheço, na mais que consagrada expressão “poesia em prosa”, nenhum sentido, pois um oxímoro de formas, de estados: algo como água seca. Em razão, porém, da larga tradição moderna da “poesia em prosa”, isto não é algo que se discuta num parágrafo, mas, no mínimo, num ensaio (como o que estou, portanto, ultimando [“Em defesa da poesia”]). Não se trata, em todo caso, de mera questão de nomeação, mas de definição. Uma poesia em prosa, ao menos se a poesia for a linguagem poética (que é, então, preciso definir) – e não concebo o que mais haveria de ser, sem que se adentre o terreno pantanoso da metafísica –, é uma impossibilidade. Mas não é uma impossibilidade que algumas características da linguagem poética participem da prosa. Daí o particípio prosa poetizada.

Se a boa prosa é difícil, como lembra Pound, a boa prosa poetizada o é, porém, um pouco mais, porque certas características da linguagem poética não funcionam na prosa.

 

Os recursos naturais da poesia, a começar pela repetição de sons, são vícios na boa prosa. (Nelson Ascher, “O ‘tao’ do menor esforço”, www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0910200616.htm)

 

Como regra, sim. Como exceção, não. O mesmo vale para o ritmo apoiado apenas na escolha e no posicionamento das palavras (e não, portanto, nos sinais de pontuação convencionais da prosa). Não conheço, em todo caso, muitos escritores contemporâneos capazes de uma frase com este ritmo: “Na manhã com o sol zeloso tantas crianças aparecem de tantas brechas da mata de tantas barrigas tantas beiradas e praias com seus nomes suas caras seus risos suas mães e as suas risadas e seus pais os seus senhores.” Trata-se de uma descrição fortemente mimética. Além do ritmo e da imitação da emergência dos corpos onde só havia a massa silenciosa da vegetação ao lado do silêncio horizontal do rio (imitação construída pela seqüência ininterrupta de palavras, advinda do firme controle do ritmo), há uma grande presença de outros elementos propriamente poéticos que, porém, não estancam o fluir da prosa, como é comum. Ao contrário, tais elementos de linguagem poética, através de suas reiterações, dão ao conjunto uma unidade que adensa a grande fluidez prosaica. A palavra manhã ecoa nas vogais e nas nasais de tantas e de crianças. O zeloso que adjetiva sol o contém em anagrama: zeLOSo. Brechas alitera com barrigas e beiradas. Mata rima toantemente com praias, caras e risadas. Por fim, a grande quantidade de aa abertos do centro da seqüência de palavras dá a ela uma conotação luminosa, que registra, ao mesmo tempo, a luz física da cena e a luz metafórica da alegria que ali se desenrola: mata de tantas barrigas tantas beiradas e praias com seus nomes suas caras seus risos suas mães e as suas risadas.

Em “Doze anos de idade e muito trabalho desde que o sol começa o dia e já começa tarde”, há, mais uma vez, o mesmo domínio rítmico e a mesma presença de elementos de linguagem poética em meio à grande fluidez prosaica. Doze, idade, desde, dia e tarde, com seus dd reiterados e sua distribuição ao longo de toda a frase, fornecem-lhe a unidade em meio à fluidez, que se reforça pela rima entre idade e tarde. No lugar do mimetismo da frase anterior, porém, há aqui uma dimensão metafórica que migra dos elementos naturais para os humanos. O dia que começa tarde ao nascer do sol é o dia que será pouco para o muito trabalho. A exigüidade do dia mede, portanto, a enormidade do trabalho, e transborda para a exigüidade de tempo da vida trabalhosa, os “doze anos de idade e muito trabalho”. Há sutis mas fortes nexos com os versos de Camões: “...Mais servira, se não fora / Para tão longo amor tão curta a vida.

Eis, enfim, o parágrafo de que fazem parte essas frases:

 

Na manhã com o sol zeloso tantas crianças aparecem de tantas brechas da mata de tantas barrigas tantas beiradas e praias com seus nomes suas caras seus risos suas mães e as suas risadas e seus pais os seus senhores. Todo homem cada qual uns doze filhos. Doze mulheres. Doze meses do ano. Doze signos. Doze anos de idade e muito trabalho desde que o sol começa o dia e já começa tarde. A caça moquinhada na brasa da noite a macaxeira cozida a minga de banana os paneiros na cabeça o terçado maior que o corpo o pé lanhado a força do braço o roçado o movimento da formiga o vôo de pássaro. Segue o rio a alva vida na mata, o rio que banha as pernas brancas da terra, pernas que roçam rindo o rio Ripi Ripi Ripi Ripi Ripi Iaiá Se você não queria Para que veio me enganar...

 
(Leila Soraya Menezes, “O rio”, in O azul da pele dela, oazuldapeledela.blogspot.com)

 

O azul da pele dela registra, na sua maior parte, as reminiscências infantis da narradora, centradas na figura de Bela, sua babá:

 

Assim começo a minha história em azul
eu que de ninguém e a ninguém devo mais nenhum olhar
começo a contar:
era uma vez
um azul
o azul da pele
dela
o azul da pele
de Bela...

(“O azul da pele dela”, idem)

 

O “capítulo” de abertura, um pequeno poema homônimo ao texto, adota portanto, muito propriamente, a linguagem da cantiga e do conto de fadas (“era uma vez”), dando em seguida lugar, porém, para a prosa poetizada acima descrita. Quando proliferam, qual moscas em dia de verão, a poesia prosaica e a “poesia” em prosa sem vigor, a prosa poetizada de O azul da pele dela é um pequeno mas verdadeiro achado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luis Dolhnikoff é poeta em poesia. E-mail: luisdkf@uol.com.br

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