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5/11/2006 23:07:00
Algumas questões sobre forma e função



Por Paulo de Toledo


 

     Os modernistas brasileiros, com a Semana de 22, tinham como principal proposta criar uma poesia autenticamente brasileira, isto é, Oswald, Mário e seus companheiros estavam conscientes de que a poesia tinha uma função sócio-política dentro da sociedade daquele tempo. Por sua vez, o Concretismo propunha o poema concreto como um “objeto-útil”, o que significaria dizer que, para os concretistas, a poesia deveria participar da sociedade como algo funcional e também como um elemento modificador dessa mesma sociedade (posto que, apesar de “útil”, o poema concreto se apresentaria como uma “informação nova”).

Portanto, assim como aconteceu em todas as fases importantes da história da nossa literatura (inclusive na Geração de 45!), tanto os modernistas quanto os concretistas propunham uma função para a poesia. E os poetas brasileiros contemporâneos teriam alguma noção de qual seria a função da poesia hoje?

Aparentemente, os nossos poetas (especialmente aqueles com menos de 50 anos) não só não querem nem saber de pensar qual é a função da poesia como também não têm a mínima vontade de questionar a validade das formas poéticas herdadas pela tradição, o que levou o crítico Paulo Franchetti a dizer que os poetas de hoje sofrem de “orgulho da influência”.

Então, a poesia feita pelos poetas contemporâneos brasileiros, sem função clara e sem vontade de discutir os cânones, serviria pra quê?

Atualmente, temos poetas à mancheia. São dezenas de revistas literárias impressas e outras dezenas de revistas na Internet publicando centenas de poetas de todos os cantos do país. Alguns deles muito talentosos, é verdade. Porém, lendo essas publicações fica na boca um gosto de “déjà vu”. São poemas e mais poemas (preferencialmente em verso livre), tentando convencer o leitor de que há algo oculto na mensagem poética que, se encontrado, trará a esse leitor um prazer que recompensará o esforço empreendido. Porém, por mais que se procure, não se encontra nada. A maioria absoluta dos poemas, além de formalmente óbvios, também não nos levam a nenhum tipo de reflexão mais profunda sobre a vida ou sobre o próprio fazer poético.

Se os nossos poetas, na sua maioria, não têm noção de qual seria a função do seu ofício, e se eles não querem se arriscar a criar novas formas de estimular a sensibilidade do leitor, perguntamos: por que esses poetas ainda continuam a fazer poesia?

Pensando sobre isso, vieram-nos duas possíveis respostas. Vamos a elas.

A primeira delas seria a seguinte: os poetas ainda fazem poemas para que seja preenchido o “vazio existencial” causado pela opressão exercida pela “sociedade do espetáculo” e, assim, fugir da angústia de saber-se apenas mais um minúsculo e descartável chip da grande máquina capitalista. É a poesia servindo de “remedinho” para rapazes e moças de classe-média (a maioria esmagadora dos poetas brasileiros pertencem a essa classe).

O segundo motivo de os poetas ainda teimarem em fazer versos (e “não-versos”) pode ser explicado pela possibilidade, ainda que remota, de o fazer poético levar esses poetas ao “estrelato”. Ou seja, muitos poetas fazem poesia como garotos de periferia jogam bola: ambos têm na sua atividade uma esperança de sair do anonimato. (Não coincidentemente há, hoje em dia, uma quantidade grande de atividades como saraus e apresentações de poetas em festivais e outros eventos literários). Afinal, gente é pra brilhar. E quem teria mais brilho pra dar do que os poetas?

Finalmente, se, para os poetas contemporâneos brasileiros, propor novas funções para a poesia é algo impensável, se questionar os cânones literários é inconveniente e difícil demais, se a poesia só serve como “remédio da alma” ou como possibilidade de alcançar visibilidade pessoal e, até mesmo, vantagem profissional (sempre se pode arranjar uma oficina de poesia, um posto de resenhista num jornal ou numa revista, uma vaguinha numa editora etc. etc. etc.), portanto: por que esses poetas mereceriam a atenção do leitor brasileiro?

Tem algum poeta aí que possa responder?

 

 

 

 

 

 

 

Paulo de Toledo é poeta e ensaísta. Email: paulodtoledo@uol.com.br

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