O que mais me deixou indeciso na hora de selecionar os melhores livros que li durante o ano que passou foi o seguinte: alguns dos melhores livros publicados em 2006 eu ainda não li. E só os lerei neste ano de 2007.
A escolha de quais livros citar, no meio de todos os que li – e que nem foram tantos assim – não foi tão dolorosa. Li muitos livros bons em 2006, é verdade, mas alguns deles são fora de série. E são estes últimos que serão citados aqui.
Seguirei a ordem cronológica de leitura, que culmina na ordem mais ou menos cronológica de publicação. Alguns livros citados foram publicados no fim de 2005. A presença deles no texto se faz obrigatória pela qualidade das obras.
Ao contrário de algumas pessoas, penso que 2006 foi um ano muito bom para a Literatura. Muitos autores desconhecidos e bons, (tanto nacionais quanto estrangeiros), novos ou não, sendo publicados, pequenas editoras fazendo bons trabalhos e sendo reconhecidas por isso, novos prêmios literários surgindo, enfim, creio que foi um ano positivo. Mas agora vamos mesmo aos livros, que é o que interessa.
Iniciei o ano muito bem, lendo Sonhos de Bunker Hill de John Fante. O romance tem como protagonista Arturo Bandini, personagem principal de mais três livros do escritor americano. Último livro escrito por um Fante cego e com as duas pernas amputadas, em 1982, Sonhos de Bunker Hill foi ditado para sua esposa, e foi um dos livros que mais gostei de ler em 2006. O fim dele é memorável.
Um longo lamento, da escritora americana Amanda Stern, foi publicado pela Rocco dentro do selo Safra XXI, que se destina a lançar autores jovens e inéditos, nacionais ou estrangeiros. Também um romance, o livro conta a história de uma garota e de um rapaz chamado apenas de “o Alcoólico” que se conhecem na faculdade, começam a namorar e viajam pelos Estados Unidos rumo a Nova Iorque. A história de ambos é recheada de álcool e outras drogas mais. Um verdadeiro retrato de uma juventude sem rumo, perdida em ilusões e em vertigens provocadas por alucinógenos. Escapismos que não levam a lugar nenhum. Aliás, levam: a uma vida deprimente. De tanto que gostei do livro, entrei em contato com a autora. Trocamos alguns e-mails e ela me confessou que há muito de realidade em seu livro. Há muito dela ali, pois realmente se envolvera com um alcoólico e passou por algumas das situações narradas no livro. Uma frase dela, em um dos <i>e-mails</i>, me fez compreender o porquê de eu tanto ter gostado do romance. Apesar da relação turbulenta com o alcoólico e de tudo o que ela passou com ele, ela diz “And I did love him”. Uma das mais belas histórias de amor que já li.
Alguns meses depois, li A coleira no pescoço, de contos, do escritor gaúcho Menalton Braff, que agora vive no interior de São Paulo. Detentor do prêmio Jabuti de Livro do Ano de 2000 com À sombra do cipreste, também de contos, Menalton Braff é um escritor que merece ser mais conhecido e mais lido. Reconhecido ele já é, pois outros grandes autores o admiram, como é o caso do contista e poeta Mayrant Gallo, um dos mestres do conto da atualidade – que também merece ser mais conhecido e mais lido –, que cita Menalton Braff como um dos cinco melhores contistas em atividade no Brasil. Eu nada mais tenho a fazer, a não ser concordar com o Mayrant.
Outro gaúcho veio logo em seguida. Foi Daniel Galera, com seu belo romance Mãos de cavalo. O livro foi elogiadíssimo tanto pela crítica quanto pelo público, gerando uma quase-unanimidade. Não me lembro de ter lido uma crítica desfavorável a Mãos de cavalo. Depois de ler o livro enviei um e-mail para o Daniel, dizendo que o romance me deixara com um nó na garganta. Quero muito relê-lo em breve. Talvez seja um exagero meu, mas Mãos de cavalo, para mim, é um marco na carreira de Daniel Galera. Não pelo fato de ele “deixar de ser um novo autor para se consolidar como escritor e blá blá blá” ou por ser seu primeiro livro publicado por uma grande editora, mas pelo fato de ser um livro de alta qualidade literária e de ser uma obra emocionante, no sentido mais puro da palavra. Não sei se vocês vão me entender. Melhor mesmo é ler o livro.
Eis um livro que namorei por muito tempo. Eu o vi no supermercado e gostei muito da capa. Depois, li críticas favoráveis a ele. Isso foi em 2005. Em 2006 soube que o livro dera origem (quase escrevo “havia dado”, que pecado) a um filme. Assisti ao filme, gostei demais e, pouco depois, consegui o livro. Me refiro a Tudo se ilumina, do americano Jonathan Safran Foer. O romance consegue ser sentimental e cruel ao mesmo tempo, ao relatar a viagem de um jovem americano à Ucrânia, em busca da desconhecida história do avô. Dessa viagem nasce uma grande amizade entre ele e seu guia no país desconhecido e devastado pelos nazistas. Ambos descobrem também o lado mais cruel da guerra e terminam por descobrirem também mais sobre si mesmos. É um livro sensacional, com muitos experimentalismos – mesmo que isso não seja nada original, pois quem mais inovou a estrutura do romance, foi John dos Passos, mais de meio século antes de Safran Foer – e com muito bom humor, também.
Depois de Tudo se ilumina li A história do amor, da senhora Safran Foer, Nicole Krauss. Escrevi uma resenha sobre o romance e o texto é a minha coluna mais acessada no site Digestivo Cultural. Tenho certeza de que isso se dá pelo fato de muita gente buscar no Google a história do sentimento “amor”. Espero que o acaso tenha levado algumas pessoas a ler a resenha inteira e a comprar o livro depois, que é muito bom. Eis um trecho do texto: “A história do amor é narrado por diferentes personagens que têm seus caminhos ligados, direta ou indiretamente, por um livro chamado justamente A história do amor”. Apesar do número de narradores – são três – o romance não é complicado de ser lido. É um livro que recomendo a qualquer um. Só não empresto o meu a ninguém, só à minha bem-amada, que inclusive está com ele agora.
Alguns livros depois chega a vez de ler Pergunte ao pó, considerada como a obra-prima de John Fante, já citado algumas linhas acima. A vontade de ler o Dust – que foi como carinhosamente um amigo e eu apelidamos o romance que tem o título de Ask the dust, em inglês – era antiga. Mas põe antiga nisso. Desde 2003, se não me engano, que eu queria ler Pergunte ao pó. Mas ainda bem que só agora o consegui ler, pois tenho quase certeza de que o jovem que eu era – e continuo sendo, é bom que se diga – há três anos não entenderia o sentido real da obra. Ler Pergunte ao pó e não se emocionar é algo que não consideraria como normal. Ri e chorei com Bandini, comemorei como se fosse uma final de copa do mundo o fato de o romance dele ter sido publicado. Chorei também com o prefácio de Charles Bukowski, que acompanha as edições do livro posteriores a 1980. Pergunte ao pó é um livro incrível, mais um que devo reler em breve.
E então, Steinbeck. Conheci o autor de Ratos e homens ainda em 2002, quando li o citado romance. Um lindo livro. Mas mais bonito que ele só mesmo O inverno da nossa desesperança, publicado aqui no Brasil em 2006. O título já é muito bonito, o romance, então, é perturbador, de tão bom. Ele conta a história de Ethan Hawley, homem casado e pai de dois filhos, que vive na pequena e fictícia cidade de New Bayton. Ethan é balconista da mercearia que era do seu falecido pai. Foi obrigado a vender o negócio da família para pagar as dívidas que herdara e sustentar sua família. Ethan Hawley é um homem comum, como eu e você, que tem os conflitos existenciais que todos nós temos. E isso é o mais admirável em O inverno da nossa desesperança. O romance conta a história de um homem comum que tenta sobreviver em um país devastado pela crise econômica. No ano seguinte à publicação desse livro, John Steinbeck foi premiado com o Prêmio Nobel de Literatura. A comissão que o premiou declarou que Steinbeck havia “reconquistado sua posição como um arauto da verdade”. E só há verdades em O inverno da nossa desesperança, uma obra-prima. Isso é indiscutível.
Parece que 2006 foi o ano das “descobertas”, para mim, digamos assim. Depois de conhecer Menalton Braff, tive o prazer de pela primeira vez ler outros dois autores já consagrados: Flávio Moreira da Costa e Charles Kiefer. Do primeiro li Malvadeza Durão e outros contos, que é composto por três livros. Nas palavras do próprio autor: “Um livro inédito, A humanidade está em obras e dois ‘novos’, Malvadeza Durão e Os espectadores, que incluem meu segundo e primeiro livros de contos, respectivamente, dos quais aqui vai uma seleção e não o total das histórias ou narrativas. Por ‘novos’, portanto, cautelosamente colocado entre aspas, leiam-se esses dois últimos livros citados, renovados e reescritos. São novos velhos contos”. A editora Agir tem reeditado alguns livros de Flávio Moreira da Costa, uma iniciativa louvável. Pois um dos mais requisitados antologistas brasileiros (talvez o mais requisitado) merece ser mais conhecido por sua admirável obra de ficção. De Charles Kiefer li Valsa para Bruno Stein, um livraço. E a editora Record está reeditando algumas obras de Kiefer, em outra iniciativa merecedora de elogios. Pouco conhecido no resto do Brasil, o escritor gaúcho é outro que merece maior reconhecimento.
Outra boa surpresa nacional foi Eu, Deus, de Sidney Garambone. Um romance despretensioso, divertido e perturbador, sério e esculachado – no bom sentido –, que faz o leitor refletir e rir. Mais um no grupo dos melhores livros que mais gostei de ler em 2006.
Mas bons mesmos são os livros que NÃO li em 2006, e que lerei em 2007. Vou citar só alguns títulos: Trópico de câncer, Henry Miller; Eremita em Paris, Italo Calvino; A biblioteca à noite, Alberto Manguel; Neve, Orhan Pamuk; Amor, pobreza e guerra, Christopher Hitchens; Extremamente alto & incrivelmente perto, Jonathan Safran Foer; Memória do fogo, Ronaldo Monte; Leda, Roberto Pompeu de Toledo; Ferdydurke, Witold Gombrowicz; Os desencantados, Budd Schulberg; O animal agonizante e Adeus, Columbus, Philip Roth; A solidão do diabo, Paulo Bentancur; Grandes símios, Will Self; Onde os velhos não têm vez, Cormac McCarthy e dezenas de outros livros que, se eu fosse listar, só se escrevesse uma outra coluna. Todos os livros citados neste parágrafo foram folheados e tiveram algumas páginas lidas, senão eu não poderia dizer que são bons. É bem provável que todos eles sejam lidos durante este ano. Ao menos torço por isso.
* Texto publicado originalmente no site Digestivo Cultural.
Pergunte ao pó, John Fante
Arturo Bandini é um jovem americano descendente de italianos que mora em Los Angeles num quarto de hotel simples, muito simples, e que não tem um tostão no bolso.
"Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama."
O trecho acima entre aspas é o primeiro parágrafo do romance "Pergunte ao pó" (José Olympio, 208 págs.), do escritor americano John Fante (1909-1983). É complicado falar de um livro tão importante e tão vibrante. "Pergunte ao pó" é venerado por milhares de leitores em todo o mundo. Um de seus admiradores mais famosos é o também escritor Charles Bukowski (1920-1994). Ele escreveu, em 1980, um prefácio para o livro, que faria parte das edições publicadas a partir daquele ano. Ele está presente na nova edição que tenho em mãos, a 6ª, e quase me fez chorar. Resolvi então reproduzir algumas linhas escritas por Bukowski:
"Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim."
Mas, como eu dizia, Arturo Bandini vive em Los Angeles, para onde se mudou com o objetivo de tornar-se um grande escritor (isso eu não tinha dito).
Em suas andanças pela cidade empoeirada (em várias passagens Bandini diz que tudo está coberto por pó), ele conhece Camilla Lopez, uma bela mexicana, garçonete de um bar. Seu primeiro contato com ela não é lá muito amigável. Ela lhe serve um café, que "era um café muito ruim". E Bandini, que não tem papas na língua, termina por ofender Camilla. E ela a ele. Isso é uma constante em seus encontros. Sim, porque eles se encontram várias vezes. Bandini passa a ir ao bar com alguma freqüência, apenas para ver e ofender Camilla.
As ofensas quase sempre são impensadas. Resultado do temperamento tempestuoso do aspirante a escritor. E essas ofensas sempre são motivos de arrependimento. Bandini ama Camilla, e tem raiva disso. E essa raiva é o que o faz destratá-la. Ele pensa ser superior à mexicana. Mas, no fundo, sabe que ambos são iguais; o sobrenome "não-americano", a origem pobre, o preconceito que eles enfrentam. O romance se passa na década de 30. Se ainda hoje existe preconceito em relação aos latino-americanos nos EUA, imagine naquela época? Bandini só foi aceito no hotel depois de muito insistir, e de mostrar um exemplar da revista que havia publicado um conto seu, "O cachorrinho riu". Segundo ele, "uma história que você não consegue parar de ler, e não era sobre um cachorro: uma história inteligente, de gritante poesia." Pode-se ver que a modéstia não é o forte de Arturo Bandini.
Na verdade, Bandini é atormentado pelo fantasma do que ele quer ser, que contrasta com o homem que ele é. Quer ser um escritor rico e famoso, mas tudo o que tem são algumas poucas roupas velhas, uma máquina de escrever e um único conto publicado em uma revista. Ninguém o conhece, ninguém à sua volta se interessa por sua carreira literária. Bandini quer amar muitas mulheres, mas tem medo delas. Tem medo de Camilla, tem medo de Vera Rivken (uma misteriosa mulher com quem tem um “caso”), e até de uma prostituta que lhe oferece seus serviços.
Arturo resolve escrever uma carta ao editor da revista que publicara “O cachorrinho riu”, contando seus problemas e suas angústias. Para sua sorte, o editor publica sua carta, retirando apenas a saudação e o final dela, como se fosse um conto.
“Caro sr. Bandini: Com seu consentimento vou tirar a saudação e o final de sua longa carta e publicá-la como um conto em minha revista. Parece-me que o senhor fez um belo trabalho aqui. Acho que ‘As colinas distantes perdidas’ daria um excelente título. Meu cheque está em anexo. Sinceramente, J.C. Hackmuth”.
Depois disso é que ele conhece Vera. E ela desaparece da vida de Bandini da mesma forma que apareceu, muito rapidamente. Mas ela é a responsável pela sua grande virada como escritor: Bandini escreve um romance sobre a vida de Vera Rivken. Que é aceito e publicado por Hackmuth. O leitor precisa ter cuidado ao chegar nessa parte do livro. Pois pode correr o risco de comemorar o contrato de Bandini como se estivesse comemorando um título de copa do mundo.
“O milagre aconteceu. Aconteceu assim: eu estava de pé à janela do meu quarto, observando um percevejo que rastejava ao longo do peitoril. Eram três e quinze de uma tarde de quinta-feira. Ouvi baterem à porta. Abri e lá estava ele, um estafeta dos telégrafos. Assinei o recibo, sentei-me na cama e pensei se o vinho finalmente acabara com o coração do Velho. O telegrama dizia: seu livro aceito enviando contrato hoje. Hackmuth. Era tudo. Deixei o papel flutuar até o tapete. Fiquei sentado ali. Então abaixei-me até o chão e comecei a beijar o telegrama. Rastejei para baixo da cama e simplesmente fiquei ali. Não precisava mais da luz do sol. Nem da terra, nem do céu. Simplesmente fiquei ali, feliz de morrer. Nada mais podia acontecer a mim. Minha vida havia terminado.”
Mas não, não havia terminado. “Arturo Bandini, o romancista. Com renda própria, feita escrevendo contos”, não se sentia completo. Camilla, a mulher que ele tanto desejava, amava outro homem. Um homem estranho, doente e que não a amava. Ou amava? Bandini tenta, a todo custo, trazer Camilla para perto de si. Mas não é fácil conquistar o amor de uma mulher. Ainda mais quando ela ama um outro homem.
Passei muito tempo querendo ler “Pergunte ao pó”. A vontade veio quando li um trecho do prefácio de Bukowski. Por uma série de motivos, não pude lê-lo na época. Foi até melhor assim. O romance é impressionante, em todos os sentidos. O jovem que eu era há 4 ou 5 anos talvez não estivesse preparado para ele. Mas agora sei e entendo porque “Pergunte ao pó” é um livro tão querido e tão importante, e continua influenciando e emocionando seus leitores até os dias de hoje.
* Texto publicado originalmente no Paralelos Blog
Rafael Rodrigues é colunista e assistente de edição do site Digestivo Cultural, onde este texto foi publicado originalmente. E-mail: rafaelnikov@gmail.com Site: www.rafaelrodrigues.org
Publicações de um autor no Cronópios
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