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1/4/2007 17:17:00
Peripécias de Gerardo



Por João Carlos Rodrigues


 

 

         Achei sintomático que, fora uma crônica do Carlos Heitor Cony na Folha, e alguma coisa no seu Ceará natal, nada além dos necrológios tenha sido publicado sobre a morte do Gerardo Mourão na imprensa brasileira. Talvez isso se deva a desafetos adquiridos durante uma vida polêmica, mas que dizer das inúmeras pessoas que incentivou e ajudou na carreira? Emudeceram? Seu velório tinha mais pessoas da vanguarda das artes plásticas chegadas a seu filho Tunga, ou ex-funcionários de uma fundação municipal que dirigiu duas décadas atrás, do que expoentes da literatura ou do jornalismo.

         Conheci Gerardo nos anos 70, quando ficou amigo dos meus pais. Muito falante, muito culto, muito simpático. Mesmo feio, tinha a capacidade de encantar as pessoas, principalmente as do sexo feminino. Possuía uma qualidade, infelizmente em extinção, a do conversador irresistível. Em suma, uma grande papo. Cony escreveu isso, e também ouvi o mesmo do africanista Alberto da Costa e Silva cochichando no ouvido do poeta Alexei Bueno (mas suficientemente alto para que eu escutasse), no velório.

         Muito bem, morava eu em Nova York, auto-exilado da ditadura Médici, quando um dia tocou o telefone. Era ele (que então mal conhecia) trazendo um dinheiro mandado pelos meus pais (eu mal passara dos 20 anos, que fique bem claro). “Ai, que chato!” – pensei eu com meus botões. Na mesma hora reconsiderei, quando soube que estava hospedado no Chelsea Hotel, imortalizado pelo filme Chelsea girls do Andy Warhol, que o transformou em Meca do underground artístico, e onde morrera o poeta Dylan Thomas. Marcamos na recepção. Quando cheguei lá, dois minutos atrasado, ele estava num papo animadíssimo com o poeta beat Lawrence Ferlinghetti e o travesti superstar Candy Darling. Ainda nessa estadia novaiorquina, fomos a uma loja de produtos náuticos, e quem estava lá, o cantor Roberto Carlos, que subitamente foi envolvido pelo papo do Gerardo. Outra vez jantei com ele num restaurante grego no Village com um grande poeta argentino (esqueci o nome), um velhinho muito frágil e tímido, mas que não escondia ser seu admirador. Ele não era mole.

         Por essa época houve o golpe do Pinochet contra o Allende,  e a filha do Osvaldo Peralva, outro amigo da minha família, ficou presa no estádio de futebol de Santiago do Chile, de onde eram retiradas pessoas para o fuzilamento. E lá fomos nós (Gerardo e eu) até a sede da ONU, procurar o comitê de refugiados, então dirigido pelo Karim Agha Khan, filho (com outra mulher) daquele playboy que casou com a Rita Hayworth, e dirigente da seita dos ismaelitas. A Angelina (esse o nome da moça aprisionada) escapou, essa intervenção do Gerardo talvez tenha sido apenas uma gotinha num copo água, mas é de gotinhas como esta que o mar é feito. Nessa mesma época, um vez eu disse que tinha vontade de ir pra Cuba (onde estava o Glauber, de quem ficara amigo um ano antes, mas isso já é outra história) estudar cinema e guerrilha. Dois dias depois que voltou pro Brasil, recebi do Canadá um telefonema do poeta haitiano comunista René Depestre, amigo dele, dizendo que poderia intervir junto à embaixada de Cuba no Canadá pra facilitar as coisas (lembremos que nesta época Brasil e Cuba não mantinham relações diplomáticas). Essa história não andou, talvez tenha sido melhor assim, mas prova não apenas sua dedicação, quanto o seu prestígio.

         Alguns anos depois, ainda na ditadura, agora do Geisel, ele montou, com dinheiro do Fernando Gasparian, um tablóide nanico de oposição chamado Crítica. O editor era o baiano Inácio Alencar, que por sua vez lançara Glauber Rocha na imprensa de Salvador no final dos anos 50. Gerardo me deu a página de cinema. Foi assim que estreei na imprensa carioca. Escrevi o que bem quis, até preguei a liberação das drogas e da pornografia, e nunca ouvi dele um senão, um pedido de mudar uma vírgula sequer de lugar. (Hoje em dia não há mais censura, mas não faltam editores pentelhos metendo o bedelho no texto alheio. Pulei fora). Gerardo era ele mesmo um ótimo jornalista, e a melhor prova são aos artigos que escreveu quando era correspondente da Folha em Pequim, destacando o julgamento da viúva de Mao-tsé-tung. Também trabalhei com ele na Fundação Rio (cargo que ocupou no primeiro governo Brizola por indicação do Darci Ribeiro) em meados dos 80, onde me permitiu registrar em vídeo depoimentos e números musicais de algumas das grandes cantoras da Rádio Nacional. Foram cinco filmes, ele assistiu e gostou de todos, mas pediu pra ser apresentado pessoalmente a Emilinha Borba (disse ser um sonho de adolescente), que, sempre coquete, ficou encantada com o poeta, e me telefonou no dia seguinte perguntando quem era ele. Acho que pensou em namorá-lo. Ambos beiravam os 70 anos.

         Compareci também a uma reunião em sua casa, aguardando a notícia da votação para sua entrada na Academia Brasileira de Letras. Era franco favorito, mas o Josué Montello e a Raquel de Queiroz, por motivos extra-literários, convidaram o Dias Gomes para concorrer contra ele, e a disputa ficou apertada. A cena foi inesquecível: casa cheia de amigos, jornalistas, escritores. Alguns acadêmicos compareceram pessoalmente para apóia-lo. E, na hora H, ganhou o Dias. Artimanhas do voto secreto. Houve a mais longa pausa silenciosa da história da humanidade. Para arrematar, num telejornal vi um dos acadêmicos que o procurara declarar que votara no vencedor. Mesmo assim o Gerardo, que sabia ser a sua única e última chance para a ABL, não demonstrou rancor, e, como verdadeiro gentleman, continuou sorrindo e cordial para todos eles. Em 88, já no governo Sarney, foi na prática quem comandou a embaixada do Brasil em Portugal, já que o titular, seu amigo José Aparecido de Oliveira era (e é) muito simpático, mas pouco chegado ao batente. Jantamos num daqueles restaurantes maravilhosos de Lisboa, e demos boas risadas sobre isso y otras cositas.

         Esse foi o Gerardo que eu conheci, já bem diferente do jovem católico dos anos 30 aconselhado pelo Alceu Amoroso Lima a entrar na Ação Integralista, posteriormente condenado à morte durante o Estado Novo por traição à pátria, sentença comutada em prisão, depois extinta pela anistia de 1945. Ele falava dessa época negra com muito humor (vide o documentário de Sérgio Sanz Soldado de Deus). Também não convivi com o deputado cassado pelos militares, nem conheci sua primeira mulher (mãe de sua filha Bárbara), apenas a segunda, a Léa (mãe de Gonçalo e Tunga), uma das gêmeas retratada naquele famoso quadro do Guignard. Todo mundo gente boa.

         Foi-se o homem, mas fica a obra. Esta é, na maioria, composta de poesia (área que confessadamente não domino, embora goste e conheça até mais que o essencial), e destaco o livro que dá título a esse artigo. Sua novela O valete de espadas, elogiada até por Drummond, foi escrita na prisão numa máquina de escrever emprestada pela cantora Araci de Almeida, então casada com um goleiro do Vasco, companheiro de cela do escritor. É excelente, maravilhosa, uma obra-prima. Devia ser reeditada e lida, relida e trelida. Interessante notar que, se a sua poesia busca as formas clássicas, a novela namora o surrealismo e outras vanguardas. Gerardo Mourão me parece um desses autores predestinados a crescer com o tempo e ser futuramente redescoberto como um mestre da palavra. Ao contrário de tantos outros, inclusive a maioria dos que hoje o esnobam e/ou fingem desconhecê-lo. Quem viver, verá.

 

 

 

 

 

 

 

João Carlos Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, é jornalista e pesquisador. Entre seus livros publicados destacam-se O negro brasileiro e o cinema; João do Rio/Catálogo bibliográfico/1899-1921 e João do Rio: uma biografia. Para realizar este último recebeu em 1993 uma Bolsa Vitae de Literatura. Escreve ficção sob o pseudônimo de Jango Rodrigues, e tem um livro inédito de contos, Criaturas que o mundo esqueceu. E-mail: jcrodrig@terra.com.br

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