Café Literário Cronópios





As sombras das coisas
por Antonio Naud Júnior




 

O ABC de Xico Sá
por Jovino Machado




H2Horas ('estreia mundial')
por Pipol




John Coltrane: a celebração jazzística do amor supremo ao Divino
por Jorge Sanglard




"Acho que estou feliz"
por Jovino Machado




Uma arma carregada sobre a mesa
por Victor da Rosa




Teatro 1 1/2
por Teatro para Alguém




“Eu sou eu mesmo o tempo todo”
por Jovino Machado




The Third & The Seventh
por Pipol




Jovino Machado: o poeta da era do ar condicionado
por Bruna G. Galvão




A melodia de José Luís Peixoto
por Sissa Frota




Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”
por Jorge Sanglard




"Escrever é um grande prazer"
por Jovino Machado




Corinthians x Outros
por TV Cronópios




O último dia de curso
por TV Cronópios




O quarto dia de curso
por TV Cronópios




O terceiro dia de curso
por TV Cronópios




Os Sertões em diálogo com A Guerra do Fim do Mundo
por Carolina Bessa




O segundo dia de curso
por TV Cronópios




O primeiro dia de curso
por TV Cronópios




H2Horas – antologia de textos para filme
por Pipol







 
19/8/2007 22:14:00
Letra de música é poesia?



Por Antonio Miranda

 

Li por aí alguém afirmando que Chico Buarque não é poeta, é letrista. Em sentido contrário, Paulo Henriques Britto (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .” É bom frisar que Paulo Henriques, além de poeta, é lingüista por formação acadêmica.

Os letristas seriam poetas “menores”, as letras constituiriam uma sub-literatura, mal comparando a arte com o artesanato?

Sei não. Ouvindo rádio e assistindo televisão, escutando tantas banalidades... Raps e pagodões maçantes, sertanejos acaramelados, axé baiano e reggae maranhense insossos, rock caseiro e hip-hops repetitivos, dá para entender o preconceito em relação às letras de músicas como poesias. Mas, por exceção, deve haver axé, reggae, pagode e sertanejo de qualidade.

Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? E que dizer do Cartola? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense)? Eram sim, foram, são poetas e pronto. Caetano é um poeta!

Caberia, no entanto, em contrapartida, também afirmar que nem todas as letras de Caetano e de Chico podem ser consideradas poesia, mas apenas “letras” de música?
Alguém saiu com essa e eu não tinha uma resposta pronta, e deixo aos leitores o direito de resposta, como ao amigo o direito da dúvida. Na mesma linha de raciocínio, também seria possível afirmar que nem todos os poemas de Drummond ou de Bandeira são, em verdade, poesia. Seria admissível afirmar que alguns poemas de Fernando Pessoa seriam “menores”? Também vou escapar pela tangente...

Só queria discutir um ponto: a relação entre poesia e música no ato criativo. Há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes teria feito isso com Tom Jobim, com Baden Powell e até com compositores clássicos. Pode ou não pode?

Em sentido contrário, o músico “musicaliza” o poema como fez Joan Manuel Serrat com os versos esplêndidos de Antonio Machado e o nosso Fagner fez com um texto de Cecília Meireles.

Tem muito a ver com o tipo de composição. Alguns músicos pautam melodias em quadraturas fixas, bitoladas, como o bolero ou o samba, levando-os á intervenção nas letras para ajustá-las, seja podando-as ou ampliando os versos. Também alguns poetas se enquadram nos compassos e ritmos assinalados. Mas alguns compositores, como Arrigo Barnabé e Tom Zé, criam livremente, sem conformar-se a ritmos da moda.

Aonde quero chegar? A lugar algum, a nenhum lugar...

Estamos falando de desafios. Vence quem tem talento, banaliza quem imita e não tem o que dizer. O que devemos julgar – se cabe algum juízo sobre a questão – é a coisa em si, o poema mesmo. Letra de música pode ser e não ser poesia.

“Luar do Sertão” é poesia com ou sem música. Tive a certeza disso, de forma empírica, quando uma amiga estrangeira, especialista em literatura, ficou impressionada com o poema, apesar de singelo. Hoje estudamos os textos de Catulo da Paixão Cearense e de Noel Rosa na academia como autênticos poemas, sem preconceitos, em dissertações e teses doutorais. Melhor ainda quando o estudioso busca a relação entre a música e o poema pois, sem dúvida, deve haver uma complementaridade (ou ampliação de sentido) entre ambos no ato da criação. A poesia, desde suas origens, sempre esteve ligada ao teatro, à música e a outras manifestações culturais.

O que dizer da inteligibilidade e da legibilidade da música e da poesia? O “intérprete” da música (pensemos em Maria Bethânia) costuma esforçar-se para que o ouvinte entenda o sentido (ou o “sentimento”) da letra da música. Pode até cantar à capela, só com a música das palavras no embalo da melodia, sem qualquer acompanhamento instrumental. O cantautor costuma valorizar sobremaneira a mensagem de suas composições tanto quanto o declamador ou o performer em um sarau ou poemashow. No entanto, muitos cantores (medíocres) não atinam para o significado das palavras que cantam e parece que o público ouve e não entende nada... e até gosta! Música sem mensagem explícita, sem significado apreensível, apesar da letra.

Em certa ocasião participei de uma gravação e o cantor não valorizava o texto da canção. Discuti com ele o sentido das palavras e ele incorporou na intenção do canto e a regravação ficou bem melhor. Mas já há poetas que também não perseguem a legibilidade dos textos e menos ainda para a sua inteligibilidade.Os textos são intencionalmente herméticos, intranscendentes, incomunicáveis. Nada em contra, tudo bem, ok, se a intenção é essa... Pior é quando o autor deseja comunicar algo e o que se ouve é sem sentido... Tem de tudo, vamos ficar por aqui.

Por último, antes que eu me esqueça, o que é mesmo poesia? Existem muitos tratados sobre o tema, é assunto para outra ocasião.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 






 

 

 

Antonio Miranda é poeta, romancista, crítico, ensaista. Doutor em ciência da informação e professor titular da Universidade de Brasília, e atual diretor da Biblioteca Nacional de Brasília. É autor de mais de quarenta livros, alguns publicados também em espanbol. Seus livros mais conhecidos são Tu País está Feliz (a 12a. edição em Caracas, 2007), Despertar das Águas (2006) e Eu Konstantinos Kaváfis de Alexandria (Brasília: Thesaurus, 2007).
Site:
www.antoniomiranda.com.br E-mail: antmiranda@hotmail.com

  Creative Commons License

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Antonio Miranda no Cronópios.

Martins Fontes - A livraria do Cronópios