O premiado escritor Amilcar Bettega passou o mês de junho de 2007 em Istambul como convidado do controvertido projeto “Amores expressos”. Publicamos agora, in totum, a longa entrevista por ele concedida durante os anos de 2006 e 2007. Parte dessa entrevista foi publicada no caderno Idéias do Jornal do Brasil de 09/06/2007.
1- Poderia falar um pouco a respeito do projeto Amores expressos? E também sobre a polêmica que esse projeto gerou, principalmente a partir das acusações do Mirosola etc?
O que eu posso dizer sobre essa viagem? Só que estou muito contente e empolgado com a idéia de passar um mês numa cidade como Istambul sem nenhum outro compromisso a não ser o de me impregnar dessa cidade e a partir daí tentar criar uma história que me toque, uma história que valha a pena ser escrita. é um projeto ousado — e também um pouco por isso tenha gerado alguma polêmica, embora eu pense que a causa principal da polêmica é a falta de assunto na redação dos jornais, entendendo por assunto aquilo que dá o que falar — e o Rodrigo Teixeira, e também o Cuenca, têm méritos nisso. A ousadia deveria ser sempre bem-vinda.
Ainda sobre a polêmica, eu achei sobretudo muito divertido. Você leu os comentários no TodoProsa? São muito engraçados, o pessoal se divertiu à beça. Acho que no fundo, o próprio Mirisola deve ter se divertido bastante com essa coisa toda.
Mas tenho a impressão de que foi algo que assim como veio passou. Estive no Brasil em abril e ninguém falava mais no assunto. Já se estava em busca de outro assunto...
2- Porque Istambul?
Istambul. Porque Istambul? Antes de mais nada porque é uma cidade onde nunca pus os pés antes, cuja língua eu não falo, cujo povo conheço pouco, e ao mesmo tempo uma cidade que é meio mítica para quase todo ocidental. Essa coisa de se estar com um pé na Europa e outro na Ásia é algo que ajuda a criar nossas fantasias a respeito de Istambul.
3- Como é trabalhar sob encomenda?
Eu encaro como uma espécie de desafio, de estímulo. É preciso que seja um estímulo, não uma obrigação a cumprir. Já escrevi algumas coisas sob encomenda. Às vezes funciona muito bem, o resultado me agrada, etc., às vezes é complicado, não sai algo que me empolgue, ou então sai algo que não empolga quem encomenda. Mas uma coisa não muda: a angústia até encontrar a história, o tom certo, etc., ou seja, até ter um material bruto para trabalhar.
Gosto da coisa de ter prazo e, como disse, tento encarar isso como um estímulo. Porém, das outras vezes, as encomendas eram tarefas menores, textos menores; agora, sem dúvida, é um grande desafio.
4- Podemos dizer que Bettega é um lírico - não no sentido tradicional - mas um lírico afectivo?
Gosto dessa definição de "lírico afetivo". Mesmo que algumas vezes eu passe, acho, um visão pessimista, para mim é quase impossível deixar de ser solidário com meus personagens. Mesmo em um livro como o "Deixe o quarto como está", que pode ser visto como mais sombrio, acho que apesar de os personagens se encontrarem em situações meio sem saída, há sempre a tentativa de continuar, há uma insistência, é dizer que não dá pra ficar impassível. Se pegou o livro, se vai ler, tem que fazer parte, tem que estar lá dentro como os personagens.
5- o seu livro de contos "Os lados do círculos" desliza em espaços físicos e ficcionais que poderia chamar de fronteira, ou seja, há a fronteira física, o trânsito entre países, e também entre o ficcional e a realidade e a própria ficção na ficção, cuja identidade autoral se desmancha, como seria caso do conto sobre/do Cortázar. Poderia me falar um pouco sobre isso?
O que eu poderia dizer a respeito desses espaços de fronteira? Para começar, que esse trânsito entre o ficcional e a realidade é algo que me atrai bastante e que acaba acontecendo meio naturalmente nos meus textos. Mas o que é a realidade, afinal? Como retratá-la? Mesmo quando se usa uma máquina, como no caso da fotografia, tem alguém por trás que está apontando essa máquina, que ao decidir incluir ou não um poste na foto está contando só uma parte da história e escondendo outra, está dando a sua versão da realidade. E uma versão é sempre contaminada. No fundo a realidade é uma ficção. E só tem interesse enquanto ficção.
A questão da fronteira física aparece mais claramente no conto "Círculo vicioso" — um conto que me deu bastante trabalho para amarrá-lo e é certamente o mais pensado de todo o livro, levei quatro anos para escrevê-lo. E justamente a fronteira, ali, é decisiva. Fronteira física porque fala de um período difícil da América do Sul, pelo qual todos os países passaram, e por isso é, apesar de tudo, algo que os une e que relativiza as fronteiras. A fronteira da língua também está presente no conto, como um reforço natural da criação, no âmbito do conto, desse espaço fronteiriço. E daí a coisa passa para fronteira temporal, pois o conto trabalha com dois tempos diferentes, que se entrecruzam, embaralhando assim também o registro do próprio conto, que passa de um relato, no início, realista para um registro fantástico.
6- Qual seria sua questão política, qual política de um escritor? Em alguns contos de seu livro Os lados do círculo você narra uma realidade muito crua, a pobreza extrema de afeto, tanto na encarnação das figuras do lixão, quanto nas personagens classe média alta. A violência está sendo denunciada? O que seria a violência? Qual experiência radical nossa miséria sublinha? Pode haver poesia depois dos campos de concentração? Dos campos da miséria, dos campos da política populista das esquerdas latino-americanas? Há política do escritor e na escrita? Onde a descrença?
Posso te dizer tranqüilamente que não entra nenhuma preocupação política na hora em que escrevo, e pessoalmente teria até dificuldade para definir o que seria minha questão política. Tudo o que escrevo está, de uma maneira ou outra, impregnada da minha visão de mundo, do meu jeito de ver e sentir as coisas, ou seja, a maneira como eu me relaciono com as coisas que acontecem à minha volta — e não poderia ser diferente.
Se você quiser chamar isto de a "questão política" do escritor Amilcar Bettega, tudo bem, mas não sei se isso corresponde ao que para você significa a "questão política" do escritor.
Pessoalmente não sou um tipo que se interessa por política, é um assunto que me enfada logo; mas isso não quer dizer muito, pois não tenho grandes centros de interesse e me enfado facilmente com muitas coisas. Em outras palavras, sou um chato, desinformado e até meio alienado. E também não tenho nenhuma causa para defender, muito menos na literatura. Não quero denunciar nada escrevendo. A única coisa que me preocupa é provocar no leitor uma sensação parecida com a que eu sinto ao escrever determinado texto. Que o texto encontre a sensibilidade do leitor, que ele tenha uma ressonância fora de mim. O texto que vale a pena é aquele que consegue manter algum tipo de importância quando lido por alguém que não se sente envolvido com ele, como está (até os ossos) o autor. Não precisa ser do mesmo grau nem da mesma ordem, essa importância, mas alguma coisa deve existir nesse texto para que ele faça vibrar a sensibilidade do outro. é isso que me interessa.
Violência, miséria, os males da nossa sociedade (atual e de tempos passados também, porque esses males não são privilégios da nossa época) vão aparecer na literatura (até na minha, por que não?), e em alguns casos podem aparecer até muito bem, ou seja, serem muito bem abordados esteticamente, mas não creio que o realismo (ou hiper-realismo, se você preferir) é o melhor caminho. Hoje em dia (e aí sim, vale a particularização para a nossa época) a mídia se encarrega de fazer o hiper-realismo, de mostrar a realidade crua, de preferência correndo sangue. À literatura cabe outra coisa — especialmente se ela quiser denunciar essa realidade (não sou contra, a priori, de uma literatura de denúncia, apenas digo que não é essa a literatura que faço, como escritor ela não me interessa).
Quanto ao conto em questão, relutei em colocá-lo no livro, justamente porque tem esse lado "violência crua", mas o que mais me atrai no texto é o seu aspecto formal — a coisa dos lados, que está presente no livro todo (como forma e como tema), dos mundos separados que quando se encontram geram fatalmente o conflito, mas isso dentro de uma forma que aponta também para o que é tema no conto.
7- Como você encara sua experiência de vida, cheia de deslocamentos, viagens, neste momento, por exemplo, você está morando na França.
Minha vida tem sido uma série de deslocamentos. Mas não que eu tenha escolhido assim. Não programo muito, na verdade não programo nada. Deixo-me levar, até demais. Com certeza deixo-me levar demais. Pode ser um exercício de liberdade não importa nada e deixar a coisa correr, mas ao mesmo tempo é exatamente o contrário: a sensação que não tenho o como decidir a minha vida, de que não tenho a possibilidade da escolha. Por vezes me sinto de fato perdido, incapaz de sentir nas mãos as rédeas da minha vida, esperando sempre qual vai ser o próximo lance, para onde ela vai me levar. Obviamente não falo em termos geográficos, mas em todos os sentidos possíveis. Até agora, fazendo todas as contas, não tenho do que reclamar. Acho que mais ganhei do que perdi. Mas é importante perder também. Não aquela história de "saber perder", mas perder mesmo, fracassar redondamente, dar com os burros n`água, levar pau.
8- Por que escrever? Criar uma nova forma de vida é possível?
Viver de que forma? No fundo é a única forma possível, a única que sei. Viver sem escrever? Impossível. Ou melhor, impossível viver sem o sonho de escrever, sem a idéia maluca e obsessiva de que um dia vou escrever um (para mim, ao menos) grande texto, o texto que vai me deixar tranqüilo. Felizmente é um sonho irrealizável. é o que me permite seguir escrevendo.
9- Qual o desejo que te impele a escrever? Podemos dizer que é o excesso - de desejo - que gera este apetite conjugado com uma escrita, digamos, magra, uma vez que você publica pouco?
O desejo (muito grande) da escrita, a magreza, no sentido de que o que sai é sempre pouco, sempre espremido, sempre em conta-gotas, e a lentidão, que está aliada à magreza: as coisas custam para ganhar forma, se desenham confusamente, tateiam, e tudo isso leva muito tempo e requer uma energia muito grande para, às vezes, gerar um movimento ínfimo.
10- Como funciona sua escrita? Existe algum tipo de planejamento?
A construção, a elaboração fazem parte da coisa. Afinal, é o que dá forma ao sonho. Mas não acredito na construção prévia, tipo agora vou fazer isso, isso e isso. Vou escrever um texto que vai ser assim, assim e assim. Não, toda construção, toda elaboração é também criação, é descoberta junto com o texto. Porque é preciso descobrir o texto a cada frase, nada está ganho antes do ponto final.
11- Quando li Os lados do círculo me lembrei do Avalovara do Osman Lins, pois trata-se de um romance calcado formalmente nas figuras da espiral e do quadrado, ou seja, a preocupação com a questão espacial no texto literário, que também encontramos em Cortázar?
Li Avalovara há muito tempo, e também o Nove, Novena. Lembro que não entendi nada, mas ao mesmo tempo fiquei com uma impressão muito forte desses livros. Certamente isso se deve ao tratamento formal, o acento sobre a forma. A forma ali é tudo, ou quase tudo. E sou sensível a isso, não concebo a literatura como simples contação de história. Literatura é forma, é linguagem. é isso que vai provocar o choque estético. então, mesmo "sem entender" (o que é entender uma obra de arte?; ela precisa ser "entendida"?; ela existe para ser "entendida"?), você se sente tocado pelo texto.
12- Qual sua relação com questão da “verdade”, com uma crença num mundo tão descrente como esse nosso momento contemporâneo?
Mesmo sabendo que a verdade absoluta não existe, perseguir uma verdade pessoal é indispensável. O importante é acreditar em algumas coisas. E ir atrás delas, fazer delas a sua verdade. Minha integridade está aí, tenho meu código, e sigo-o. Tenho duas ou três coisas nas quais acredito, e me seguro nelas. A literatura é uma delas, a minha bengala maior. Sem ela acho que já não estaria mais aqui, teria desconectado. Pois é nessa perseguição da (minha) verdade, nessa crença, que algum sentido vai nascer. Para mim e, com um pouco de sorte, para quem me ler.
13- Percebo que seus livros buscam também uma aproximação com a linguagem poética, ritmada, uma vontade de extrair o som das palavras, isso é correto?
Maravilha. É sinal de que estou perto da minha intenção. Porque sempre tive comigo que é preciso fazer a linguagem cantar, é preciso que a frase liberte a sua música; é uma melodia que encadeia tudo isso, que amarra o texto. A gente escreve contra o silêncio, no silêncio, não para anulá-lo mas para fazer parte dele, para valorizá-lo pelo contraste. O silêncio é o branco da folha. Sem ele não há texto. E a literatura é isso, é o som escrito.
14 – Em Os lados do círculo o escritor Amaro Barros aparece duas vezes, quem é ele?
Amaro Barros foi (e continua sendo) um escritor desconhecido de Santana do Livramento, uma cidade do RS, que faz fronteira com o Uruguai, a 160 km da cidade onde nasci. Morreu jovem, no início dos anos 80; editou, por conta própria, o Emparedado e algumas coletâneas de poemas. Evidentemente seus livros não se encontram em lugar nenhum. Tomei conhecimento do seu texto por acaso, pela mão de um amigo de Livramento. O que me impressionou é como alguém que aparentemente não fez maiores estudos (pelo menos não institucionalmente), vivendo no campo (ele morava na zona rural), na campanha gaúcha, pôde produzir um texto que é , em muitos momentos , extremamente refinado e, sobretudo, livre de qualquer regionalismo tosco e pueril — o que seria de se esperar (e é o que normalmente acontece) nesses casos. Tenho ainda a intenção de escrever alguma coisa sobre ele (aliás, já escrevi, mas não gostei), vamos ver. Confesso que fiquei um pouco fascinado pelo autor e por sua biografia. Gostaria de saber o que ele leu, lá no meio do campo, e como leu, de que forma se desenvolveu o escritor num meio a princípio hostil à atividade intelectual.
Emparedado fala de questões muito atuais, desta sensação de sufocamento que a crítica se encarregou de fazer um clichê — essa história de sentimento de encarceramento que experimenta o indivíduo que vive nos grandes centros urbanos. é isso, mas não só. O fato de o livro se passar num ambiente que não é urbano (sem ser puramente rural) é uma indicação. E, sobretudo, porque foi escrito por alguém que nunca saiu do seu ranchinho no meio do pampa. Sentir-se emparedado no meio da vastidão que é o pampa, isso diz muita coisa. Estamos falando da condição humana, que é a mesma em todos os lugares e em todas as épocas, com pequenas variações.
14- Você usa em seu livro - principalmente no primeiro e último conto de Os lados do círculo e também a/c editor - conceitos retirados da arte plástica como a Instalação, a Intervenção urbana, o Coletivo que trazem como questão principal a experimentação e criação do espectador. Poderia falar sobre isto?
Não apenas esses três contos que você citou fazem referência às artes plásticas, mas o Mano a Mano, explicitamente, e outros, de forma indireta, como The end, A próxima linha, Verão, etc. Acho que o livro todo, em sua estrutura, em sua organicidade faz um apelo a uma leitura visual, que é a maneira mais direta (ou pelo menos a mais corrente) de abordar uma obra pictórica ou resultante de um tratamento plástico. As correspondências que se estabelecem entre os contos (mesmo que umas sejam menos evidentes do que as outras) são na minha cabeça essas correspondências entre os objetos que os personagens dispõem na areia nesses contos-síntese do livro, o primeiro e o último, que envelopam o livro, fecham-no numa espécie de bolha, metem-no, de certa forma entre parênteses, um parêntese na dormente realidade cotidiana, um susto. Acho que está dito no conto que cada objeto disposto na areia é um gesto do personagem em direção ao outro, é uma intervenção, é marcar a sua passagem/presença. Acho que a arte contemporânea entendeu melhor e primeiro do que muitas outras formas de expressão artística que o artista está aí para fazer esse gesto na direção do outro, para acordá-lo da realidade, quando abre mão (e mesmo repudia) da idéia do belo para provocar uma "leitura" reflexiva, comprometida, não com padrões estéticos externos, canônicos, mas com a estética própria que aquela obra, inserida naquele contexto, feita daquela maneira, através daquele gesto, daquela técnica, cria. Há muito a arte deixou de ser um objeto de contemplação/fruição para ser um objeto de reflexão. Na arte contemporânea cada obra traz em si a sua própria estética, e isso, em minha opinião, pode ser bastante desestabilizador para quem está acostumado a ler com as muletas do cânone, para quem faz a leitura formatada. Mas se por um lado é desestabilizante, por outro pode ser muito estimulante para quem gosta de se arriscar. O que tento no livro (e reconheço que nem sempre consigo) é buscar uma leitura que reflita, que questione a maneira como foi composto o texto, que volte a atenção para o "gesto" do escritor e para o que ele está tentando exprimir através desse gesto.
15- Seu trabalho ainda acredita na possibilidade da arte criar um estranhamento, no caso uma intervenção no mundo pelo fato de provocar um novo olhar capaz de produzir novos sentidos, ou seja, deslocar a ordem oficial, questionar a organização de poder. Poderia falar sobre isto?
Mas é isso mesmo, é uma preocupação minha, uma busca constante, isso de produzir um estranhamento, fazer com que o chão trema sob os pés. Não apenas sob os pés do leitor, mas sob os meus também. Fujo das certezas, da segurança (do familiar, se você quiser). Escrever é se arriscar, se não for assim não vale a pena.
Com relação ao Mano a mano, mais uma vez a relação com os contos-síntese que falei. Aqueles objetos dispostos na areia, como é dito no A/C Editor..., jogam com a idéia já velha de que o objeto retirado de seu contexto criam uma nova situação, uma nova realidade, dando um tapa na passividade. Pois no Mano a mano, além dessas coisas dos objetos/palavras fora do lugar ou ausentes, também não é à toa a referência a Kandinsky, que é, pelo menos para a história da arte ocidental, aquele que completa o movimento de passagem do figurativo para o abstrato. Com Kandisnky o objeto "desaparece" e passa viver de sua essência, as cores, a forma, as linhas, os volumes, etc, a fidelidade ao real é banida e a obra mesma é uma interrogação permanente sobre a sua própria gramática composicional, sobre, mais uma vez, o gesto do artista.
16- No conto a/c editor de cultura é dito que o escritor estaria livre quando não dependeria financeiramente da escrita, é possível a profissão de escritor? Como este personagem escritor funciona e ou é funcionado por você?
Se é possível a profissão de escritor? Não, no sentido que normalmente a gente dá à profissão, com tudo o que vem atrás: regularidade (de produção e de ganho), continuidade, prestação de um serviço, etc. O escritor pode até conseguir ganhar a sua vida no entorno da literatura, naquilo que é o seu adorno, ou seja, um free aqui outro acolá, tradução, preparação de antologia, oficina literária, palestra, um texto pra jornal, etc. é difícil, mas tem gente que consegue. Viver simplesmente da sua literatura, acho impossível. Primeiro porque é preciso vender muito para que o direito autoral seja significativo, e segundo porque esse é um grande perigo. O cara que começa a faturar com o que escreve, acho, vai acabar deixando a mão levar pro lado mais fácil, vai viciar, vai virar profissional e fazer a sua literatura com um pé nas costas, profissionalmente, entre um cafezinho e outro.
Literatura é liberdade incondicional, por isso essa questão é muito complicada. E se você não sente que recomeça do zero a cada novo parágrafo, acho...
Masé Lemos é poeta (Redor, 7letras, Rio de Janeiro, 2007). Doutora em Letras pela Universidade de Paris 3 é atualmente professora de Teoria literária na Uerj. Co-organizadora do livro “Alguma Prosa – ensaios de literatura brasileira contemporânea” (7letras, Rio de Janeiro, 2007). E.mail: masedorey@mac.com