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1/7/2008 21:58:00
Brasileiro está lendo mais poesia?



Por Felipe Lindoso


         A recente divulgação da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”[i], em sua segunda edição (a primeira pesquisa do gênero foi feita em 2000) provocou uma surpresa – agradável, para todos os que comentaram o assunto: foi anunciado que a poesia estava como o quinto gênero de livros mais lidos no Brasil, com 28% dos leitores declarando sua preferência[ii].

Entre os autores brasileiros mais admirados pelos leitores apareciam Vinícius de Moraes (5º. lugar), Cecília Meireles (6º. lugar), Carlos Drummond de Andrade (7º. lugar), Mário Quintana (11º. lugar) e Manuel Bandeira (14º. lugar) e Castro Alves (21º. Lugar). Todos poetas do cânone. Em outros gêneros o primeiro lugar é uma surpresa: o autor mais admirado é Monteiro Lobato. Seria ótimo se não fosse o fato de Lobato não ter livros nas livrarias quando da pesquisa – a lembrança veio do programa de televisão e das histórias em quadrinho. Depois de Lobato seguem Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis; depois dos três poetas já citados aparecem Érico Veríssimo, José de Alencar e o quadrinista, Maurício de Souza. O resto da lista pode ser visto no site do Instituto Prolivro, que organizou e financiou a pesquisa.

         É verdade que não aparecem poetas contemporâneos e vivos, mas sem dúvida os citados estão entre os melhores da poesia brasileira moderna e o condoreiro fica sempre bem.

A surpresa se manifestava também pelo fato da “subida” da poesia na preferência dos leitores ter sido significativa, não tanto na posição, mas sim na quantidade de leitores que declaravam essa preferência em relação à pesquisa do ano 2000. Naquela pesquisa, respondendo à pergunta se tinham “consultado, folheado ou lido nos últimos 12 meses”, a poesia aparecia em 6º. Lugar, com 19% dos entrevistados masculinos e 26% dos femininos respondendo afirmativamente.

         Quando perguntados (em 2000) sobre suas preferências por gênero de livro (resposta única, naquela ocasião), a poesia aparecia em 5º. lugar no geral, com um total de 4% dos leitores fazendo essa afirmação (1% dos leitores homens e 5% dos leitores mulheres).

 

 

 

 

 

         Em 2008, a quantidade de entrevistados que declarou ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses anteriores à pesquisa foi de 95,6 milhões de pessoas (55%) da população estudada. Mas, importante ressaltar, 47,4 milhões desses leitores são estudantes que  lêem livros indicados pelas escolas, incluindo aí os didáticos. Portanto, os leitores que declararam sua preferência por poesia como gênero (não exclusivo) seriam 26,323 milhões, dos quais a metade estudantes.

         Destaque-se também, para referência, que o universo da pesquisa de 2008 incluía toda a população acima de cinco anos de idade, independentemente do nível de escolaridade.

No ano 2000 a situação era diferente.

Em primeiro lugar o universo estudado era diferente: foi pesquisada a população acima de 14 anos de idade e com pelo menos três anos de escolarização.

Nesse universo a preferência por gêneros de leitura era assim:

 

 

 

 

 

         Para matizar um pouco mais o quadro vejamos como os leitores do ano 2008 se dividiam por sexo.


 

 

         A pesquisa do ano 2000 não tem uma tabela idêntica (e nunca esqueçamos que trabalha com universos diferentes). Entretanto apresenta outra tabela também interessante para ser vista. É a tabela formada pelas respostas dadas pelos entrevistados a partir da pergunta sobre se nos últimos doze meses tinham tido contato, folheado ou lido algum livro dos gêneros, com a possibilidade de respostas múltiplas. Ou seja, uma pergunta um pouco mais parecida com a feita em 2008 na primeira tabela.

        

 

 

 

 

         Note-se que alguns gêneros, ainda que declarados como preferidos, não foram mencionados entre aqueles lidos ou consultados nos doze meses anteriores (técnicos, fisiologia, jurídico, saúde e sexo/eróticos)[iii].

         Antes de examinarmos o conjunto dos dados para tentar entender que leitores brasileiros gostam de poesia é importante acrescentar mais duas tabelas, referentes à pesquisa de 2008. Mas desta vez só transcrevemos as informações sobre os leitores de poesia.

Esses resultados estão tabulados por escolaridade, idade, nível de renda familiar e classe social[iv]

 

 

 

 

  

         O que nos dizem esses números?

         A pesquisa de 2008 mostra que os leitores que declararam sua preferência pelo gênero poesia são em sua maioria menores de 14 anos e estudantes (48,3% do total). Pelo perfil de renda e socioeconômico é provável que a maioria deles esteja na escola pública. Esses leitores estavam fora da pesquisa de 2000.

         A tabela disponível que permite especular um pouco sobre as duas pesquisas é a que distribui os leitores de poesia por gênero (masculino e feminino). Em 2000 a proporção era de 19% dos leitores masculinos e 26% dos leitores femininos. Já em 2008 essa proporção era de 22% para os homens e 32% para as mulheres.

         No perfil demográfico da amostra de 2008 a população com menos de 14 anos de idade representa 20% do total. Entretanto, é nessa população que se concentram 48,3% dos leitores de poesia.

         O que os números nos mostram, portanto, é que a escola é a grande fonte dos leitores do gênero. Mais importante ainda é que esses jovens declaram que a poesia é seu gênero preferido de leitura.

         A partir desses números, entretanto, não se sustenta a idéia de que “os brasileiros” em geral estão lendo mais poesia. É impossível comparar com precisão os dados das pesquisas de 2000 e 2008 a respeito, mas as poucas porcentagens que vimos mostram que as diferenças para a população acima de 14 anos não são tão significativas quanto poderiam parecer.

         A persistência da preferência pela poesia na idade adulta desses jovens que estão com menos de 14 anos hoje é algo que só poderemos ver quando fizermos, no futuro, novas pesquisas do gênero Retratos da Leitura no Brasil.

         Até lá os poetas têm que trabalhar – muito além de escrever as poesias – para que essa preferência não esmoreça. Ao contrário, que se consolide. Para isso é importante que os poetas sigam o velho chamado de Castro Alves e se dirijam ao encontro de seus jovens leitores nas escolas, nas feiras de livros, em festivais de poesia.

         O animador é que existe essa receptividade para poesia. E lembrem-se que há trinta ou quarenta anos atrás os poetas lidos pelos adolescentes se mediam pelo padrão J. G. de Araújo Jorge. Acho que já melhorou, e pode melhorar ainda mais.

         É preciso ter esperança de que não apenas os índices de leitura de poesia cresçam, mas que aumentem os índices de leitura em geral, para todos os gêneros, em todas as idades e situações sócio-econômicas.

         Se os livros estiverem mais disponíveis para todos e se o nível educacional da população continuar melhorando é certo que isso acontecerá, e isso define nossa equação para que o Brasil seja um país de leitores:

         Mais livros disponíveis = mais bibliotecas + mais educação de qualidade = mais leitores.

 

 

 

 

 

 



[i] RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL ver em www.prolivro.org.br

[ii] Resposta estimulada ao questionário da pesquisa em que o leitor podia escolher mais de uma opção.

[iii] Essas incongruências mostram uma das características de pesquisas de opinião. Os entrevistados respondem a todas as perguntas, mas quando as respostas puxam pela memória – no caso, lembranças de um ano – nem sempre elas correspondem entre si.

[iv] O critério de “classe social” é o da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa - ABEP

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Lindoso é editor, antropólogo, e estudioso do mercado editorial e das políticas públicas para o livro no Brasil. Tem vários artigos publicados sobre o tema e o livro “O Brasil pode ser um pais de leitores?”. Trabalhou em instituições da área cultural e do livro, e hoje dá assessoria sobre a questão. Criou e desenvolve um projeto que, apoiado pela Lei Rouanet, instala Bancas-Bibliotecas por todo o país. E-mail: felipejl@terra.com.br

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