Anderson Fonseca – Caro Victor Paes, a impressão que tive de seu livro O Óbvio dos Sábios é que possui uma construção singular, muito própria e para mim bastante nova. Trata-se de um livro de divisão temporal entre 1 e 2 tempos, para mais tarde 3, como se fosse um soneto moderno, ocupado por construções fraseológicas poéticas que se relacionam no espaço da página. Confesso que gostei muito, por isso lhe faço essa pergunta: o que o levou a escrever O Óbvio dos Sábios?
Victor Paes – Bem, O Óbvio dos Sábios é a congruência de poemas que já vinha escrevendo há três anos. Sempre achei que minha escrita era muito aleatória, até que chegou o momento de reuni-la. Pensei em várias possibilidades e só depois de muitas superficialidades retornei a um pensamento aparentemente simples com o qual havia tido uma certa cisma havia alguns anos, e ao qual já não recorria mais conscientemente, de tão forte e claro que me ficou, e que na verdade vinha, assim, orientando silenciosamente muita coisa em minha vida: essa idéia do óbvio que, por ser tão óbvio, ninguém consegue ver, apenas os sábios. Daí me surgiu esse personagem paradoxalmente professoral de um sábio que dissesse poesia, como se fosse tudo muito óbvio, mas sem a necessidade de transformar sua fala em metaforias ou parabolias, e, ao contrário, a libertasse de qualquer tipo de valor que não o poético. Pois todos os valores e os não-valores estão nele. Acontece que aí percebi que isso não bastava. Pois para mim um outro pensamento tão forte quanto esse é o de que esse sábio talvez um dia encontrasse outro sábio que também dissesse o óbvio, mas outro tipo de óbvio, tão verdadeiramente poético quanto ele. E são esses dois sábios que acho ter posto no livro, duelando. Em duelos de uma falsa dialética (falsa porque simplesmente os sábios podem ser esses dois ou muitos mais). Dizer o óbvio é sempre o mais difícil. No meio disso tudo eu tinha muitos poemas, muitos exercícios ainda, que fui limando, limando, tentando deixar só o que seria aí o mais “óbvio”...
AF – A construção do seu livro lembra muito as construções poéticas de T.S.Eliot, de E.E. Cummings e dos concretistas, mas não hesitaria em arriscar uma presença forte do surrealismo e, em certo ponto, a poética de Federico Garcia Lorca. Estas presenças se encontram em sua obra?
VP – Acho que o mais evidente aí é o surrealismo, principalmente aquele revisto mais tarde pelo próprio Breton. Pois além de mexer bastante no que escrevo, parto sempre do mais instintivo. O homem atravessado na janela continua sendo pra mim uma imagem fortíssima. Apesar de que o surrealismo foi apenas uma espécie de formalização do mistério – não acredito em “absurdo” e “non sense” e todos esses nomes, pois todos eles servem apenas para categorizar o que é considerado, por pura preguiça, como não inteligível. Sempre me perguntam muito sobre essa coisa de para quem escrever, sobre ser hermético ou “popular”. Mas eu escrevo como acho que é a única forma possível, acreditando que os poemas que têm a chance de se tornarem bons só podem ter partido de uma zona de mistério da palavra... pois tudo que somos, enfim, é mistério... Por isso, olhamos as coisas de bastante perto, buscando seu mistério. O mistério de onde a palavra não venha servindo apenas para nos concentrar mais ainda na univocidade virtual de nossa realidade. A poesia é quem consegue, imbuída de cada realidade, ver em cada uma, seu inchaço de realidades, sob uma única realidade de frases feitas. Parece simples, mas é tão difícil quanto essencial. Caso contrário, os poemas já começam delimitados. Nesse sentido, os concretistas e Cummings são sempre uma tentação, pois não vislumbravam apenas três ou quatro dimensões nas palavras, mas nove, dez ou onze (de que hoje os físicos falam tanto). E Eliot e Lorca, com sua narratividade dramática e, ainda assim, apesar de tantos esforços contrários à palavra no teatro, essencialmente poética – escrevo também para teatro e acredito que a poesia no palco deve estar em tudo, inclusive nas palavras. Ultimamente tenho lido muito Cisneros, Paul Celan, Osman Lins, Hilda Hilst, Mishima... E é claro que todos eles, de alguma forma, me influenciam. Busco escrever aquilo que gostaria, enquanto leitor, de encontrar em um livro que abrisse. Quando escrevemos, na verdade estamos inventando um escritor, e o que é mais importante, um leitor de nós mesmos.
AF – NO Óbvio dos Sábios você diz que "o outro é inventar-se" e acima você diz que o poeta inventa a si mesmo no que escreve. Como você explica este "inventar-se" em seu trabalho?
VP – Bem, a palavra “inventar” tem dois sentidos que são tragicamente opostos: um de criar algo novo e muito útil, por atender a uma necessidade, e o outro de criar algo totalmente inútil, apenas um capricho dos tortos. O inventar da poesia não é uma coisa nem outra, pois nele nem está em jogo o conceito de utilidade – assim como no próprio ser humano não há, enfim, nem utilidades, nem inutilidades. Nesse sentido, inventar é uma das ações básicas do ser humano. Quando é criança, inventa tudo o que precisa. Quando adulto, tenta inventar formas de não desinventarem o que tinha inventado. Inventar não é criar o que não existe. O que não existe talvez nunca vá existir. Inventar é apenas contracenar – consigo mesmo e com o outro. Nós não vemos nem quem está à nossa frente. Não entendemos que é a partir do outro que podemos estar à frente de qualquer coisa e chegar a pensar o que é estar à frente de alguma coisa. É nesse processo que vamos nos inventando. Falar sozinho é impossível por um impedimento da própria linguagem. Uma pessoa que fale sozinha já está sempre falando com alguém. Ter clara a consciência de que inventamos e desinventamos o tempo todo nos leva a uma espécie de visão mais brechtiana de nós mesmos. Essa é a única forma de não acabarmos num hospício para deixarmos de ser as personagens que nos ensinaram que queremos ser. O que acontece com o escritor é que ele não aceita hierarquias entre o que todos concordam que existe e o que decide inventar. Pois sabe que, por mais louco que pareça o que escreve, não está “inventando” nada. Eu acredito em tudo o que invento.
AF – Há algum tempo, o diplomata e escritor Felipe Fortuna escreveu no caderno Idéias & Livros, do Jornal do Brasil, uma forte crítica ao lançamento da revista Modo de Usar & Co., conceituando, a partir do lançamento desta revista, o estado da poesia brasileira atual como "um processo rotineiro de endogamia, no qual se alinham e se combinam os membros da mesma tribo". Como escritor e editor da revista Confraria do Vento, como você avalia esta crítica?
VP – Bem, a poesia hoje continua sobrevivendo em meio aos mesmos parâmetros de aparências que estão por aí há muitas centenas de anos. São as aparências que causam os poetas e a aparência que as pessoas buscam nos poetas. São as aparências que causam os grupos de poesia e a aparência que um poeta vê nos grupos de poesia. O poeta escolhe se participa ou não de grupos e o porquê de participar. Se vai a festas, e a que tipos de festas, se vai a bares, a eventos, a vernissages... Nessa sua escolha está contida sua responsabilidade sobre oportunidades ganhas ou perdidas, de trabalho, de ação e de amizades (que talvez possam acabar sendo grandes amizades). Na melhor das hipóteses, é se divertir, encontrar as pessoas, tentando ver esse outro que sempre o constrói. Na pior, é ter apenas a chance de recitar seus poemas previsíveis sobre sua vagina (como se falar em vaginas, por exemplo, ainda fosse um grande ato de liberdade). Cada um é responsável por assumir esse outro e encarar todas as conseqüências que isso traz, ou continuar pensando só em retornos e fazendo muita vista grossa. Enfim, tudo isso ainda não é poesia. Em grupo, o poeta vale-se do compartilhar idéias, opiniões, desejos, piadas infames... Quando um grupo decide realizar algo público, como intervenções ou revistas, a coisa toma outra dimensão... mas ainda não quer dizer que seja uma dimensão poética. Isso vai depender da qualidade artística e ética das pessoas envolvidas, desde editores a colaboradores (pois na discussão entre Felipe Fortuna e a Modo de Usar & Co. se fez referência a qualidade). O problema é que qualidade e ética exigem, além de uma certa predisposição, um esforço de ações e de auto-crítica, sempre em favor da poesia e não de simples expressões singulares e supostamente cheias de genialidade. É aí que pecam algumas iniciativas que parecem ser interessantes, com propostas interessantes. Essa idéia de resgatar autores esquecidos e dar espaço aos novos, de uma forma democrática, que é uma das idéias fundamentais da Confraria do Vento já há três anos, nem era tão novidade assim quando começamos, já que antes de ser uma criação coletiva bem intencionada, era, e ainda é, uma necessidade para a própria poesia. O que busco enquanto editor é qualidade e ética. A verdade é que as pessoas têm muitos cuidados quando se fala de qualidade. É claro que há vários tipos de qualidade, mas o amiguismo tende a espalhar elogios com mais afinco. Enfim, tenho muita dificuldade de separar qualidade de ética...
AF – Como você caracterizaria a poesia contemporânea, e, na sua opinião, o que falta para a poesia atual (ou não falta)?
VP – Olha, eu vejo a poesia esparsa... muita gente não comprometida. Mas vejo muita coisa boa. Coisas várias, apesar de ainda esparsas. E acho que o que posso dizer que falta para a poesia atual é justamente empenho... Para começar, os poetas que dizem que não lêem poesia... ora, se não lêem, a única poesia que são obrigados a ler é a própria. E isso é uma tautologia das mais ferozes. Uma dos principais saldos hoje de qualquer leitura parece ser a percepção de uma tensão entre a chamada tradição e a chamada vanguarda, que pode ser o terror de um poeta que lute por uma ou por outra, ou o “terror-base” para uma chamada nova poética. O que há de um modo geral são poetas que acreditam demais nessas categorizações, que leram a chamada tradição ou a chamada vanguarda e, por acharem que adquiriram (ou que já tinham, o que é ainda mais comum) uma ou outra poética, acham que por isso já podem escrever sem nenhum esforço. O poeta que escreve sonetos como se fosse a reencarnação de algum Olavo Bilac tenta não ser aquele que acha que qualquer viagem de haxixe é um poema pronto, só esperando uma tradução para palavras. Mas escrever demanda a fuga de maniqueísmos redutores. Pois cada poética é uma poética. O problema está em se ver poética onde há apenas uma imitação de poética. Isso acontece quando falta a honesta loucura de um real desprendimento dos mecanismos de reprodução – assim como da simples renovação pela renovação.
AF – No livro Poesia e Repressão: O Revisionismo de Blake a Stevens, Harold Bloom define a poesia e o poeta forte como "o que não tolera palavras interpostas entre ele e a Palavra, nem admite precursores entre ele e a Musa". Na sua visão de poeta e leitor de poesia, como você entende a "poesia forte"?
VP – Creio que Bloom fala de uma certa neurose com a escrita. E nesse ponto, talvez eu esteja mais para Fernando Pessoa do que para qualquer poeta, por exemplo, do romantismo. Não sei exatamente o que faz a força de um poeta. Sei que cada um é responsável por suas próprias neuroses. E acho que é importante saber administrá-las bem. Um poeta atento não se convence de que é atento só para se redimir de ser desatento. Na verdade, nem acredita muito bem nessa idéia de forte ou fraco. A influência dos poetas anteriores, por exemplo, é inegável. Mas temos que pensar que vivemos em um paradoxo entre coerção e liberdade. Somos resultados do que lemos, à mesma medida que não há como não partir de nós mesmos para lidar com o que lemos – e em ambos os casos se dá o paradoxo. O problema está em ignorar um desses aspectos.
AF – Você certamente é antes um leitor do que um escritor – parafraseando Borges. Sendo um leitor de poesia, quais são os poetas contemporâneos, na sua visão, que marcarão esta geração? E como será a poesia no futuro ou o futuro na poesia?
VP – Acho muito difícil prever quais poetas de hoje terão uma quantidade suficiente de circunstâncias a seu favor para que sejam reconhecidos como poetas e não fiquem em duas ou três publicações entre as várias que hoje são feitas a cada dia – e muitas vezes até a própria família, depois de anos da morte de um artista, contraproduz, jogando fora originais ou vendendo seus instrumentos só para se livrar de bagulhos. Tem gente acreditando apenas na sorte. E tem gente acreditando apenas em fazer contatos. Mas eu acredito cada vez mais, por incrível que pareça, no talento. Os poetas trocam diariamente links, dicas, livros. É uma quantidade imensa. Mas de vez em quando surge no meio disso tudo um poeta que causa nitidamente a sensação de estar sabendo levar aquilo de um modo mais radical. No qual se vê uma coisa qualquer a mais, que cismamos em dizer que não se pode explicar. Essa coisa a mais não só existe, como começa rapidamente a perder a força facilmente se não houver empenho. E se no meio de tanta produção ele se sobressai, ao ponto de marcar uma geração, é porque se empenhou muito para atender a essa coisa a mais que lhe instigava, e não o contrário. Falar sobre a poesia no futuro é quase impossível. Basta comparar o que era a poesia há cinqüenta, há trinta ou há dez anos e o que ela é hoje. O que sei é que ela vai continuar sempre no meio dessa tempestade das coisas, como sempre esteve. Pensar em nomes que vão marcar também é difícil. Posso falar de alguns que para mim têm esse saber levar “de um modo mais radical” de que falei. A primeira vez que vi isso em alguém da minha geração foi em Márcio-André. Não é à toa que nos tornamos amigos e criamos a Confraria juntos e continuamos por aí juntos, tentando levar as coisas de um modo radical. Temos uma grande afinidade artística. Ultimamente tenho lido e relido um grande poeta, que me causou também essa sensação, Cândido Rolim. Marco Polo Guimarães, Flavio Viegas Amoreira, Rod Britto e vários outros (são muitos nomes) me causaram essa mesma sensação e, se isso for algum tipo de presságio, todos eles com certeza já não poderão ser ignorados. Enfim, acho que no fundo falo mesmo melhor sobre isso como editor, através da Confraria.
AF – Walter Benjamin escreveu sobre a técnica do escritor dividindo-a em treze teses, ou treze atos. Bem, no 6º ato ele diz: “Torne sua pena esquiva à inspiração, e ela a atrairá com a força do imã. Quanto mais refletidamente você retarda a redação de uma idéia que ocorre, mais maduramente desdobrada ela se oferecerá a você. A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina”. Muitos poetas acreditam na inspiração porque a consideram divina, como o poeta Percy Shelley. Porém, outros, como João Cabral de Melo Neto colocam o poema no patamar da racionalização técnica, evitando a inspiração. Drummond disse: “penetre surdamente no reino das palavras”. Para você, Victor, como se ajusta a relação inspiração-método, ou não há mais espaço para o primeiro termo?
VP – Gosto dessa idéia de “reino das palavras”. É a zona de mistério de que falei. Acredito que a inspiração chega quando a mente está propícia a ela... quando o poeta, acostumado a isso, esteja se movendo misteriosamente. Após eclodir do escuro dessa noite (de que fala Drummond), como uma faca que pudesse ter sido usada em um crime, todo escritor trabalha cada idéia antes de dá-la por devidamente proposta, agora já como evidência de um assassinato. Uma coisa é básica, nos que busquem pedras ou anjos: uma visão da arte como mistério, seja como suor, seja como dádiva. Eu penso muito na arte como essa ação sagrada, que nos faz nos movermos como cumpridores de algo que não sabemos bem em que vai dar, mas que temos que cumprir. Enfim, como tudo que fazemos na vida. No entanto, é na arte que vamos à raiz desse nosso empenho de sacralização. Nessa radicalização, buscamos dentro (apesar de olharmos muito para o alto): tanto inspiração quanto método estão dentro. Acho que não importa tanto o tempo que levamos para isso, mas o importante é olhar para o fundo da noite.
AF – “Por último, porque desejo evitar chegar à décima pergunta”, gostaria que dissesse o que você como escritor evita.
VP – Bem, antes de tudo, evito me deslumbrar com a lógica que as coisas assumiram, principalmente aquela que esforçadamente evita o poético das coisas. Isso é essencial para qualquer arte possível. Eu evito abstrações (e isso pode soar, e soa mal). Abstratas são as convenções dos pensamentos. Uma frase decorada, um esquema, uma idéia viciada, é tudo pura abstração. Pensar as coisas concretamente é pensá-las na congruência de tudo que está e que não está presente ali no momento em que se pensa, presencialmente. Como esse é sempre um conjunto infinito de presenças, parece desconexo, absurdo, mas é justamente essa infinitude que garante que sempre haverá poesia. Eu evito esquecer que a poesia é a causa e o objetivo de toda obra. O que acontece é que as pessoas buscam a forma mais cômoda de ver, conquistar e entender as coisas, negando dúvidas, impossibilidades, incongruências, simplificando nossas experiências. Eu evito tudo isso. Enfim, eu evito, embora nem sempre seja possível, escrever qualquer coisa que não seja poesia.
Victor Paes é escritor, ator, editor da Revista Confraria e da editora Confraria do Vento (www.confrariadovento.com) e conclui neste ano o mestrado em Poética pela UFRJ. Publicou em 2007 o livro de poesia O óbvio dos sábios e hoje prepara seu primeiro livro de contos. Escreve também para teatro e já teve montadas as peças Mara em um quarto, em cartaz durante o ano de 2008, e As três Marias, texto que participou do projeto Nova Dramaturgia, no Teatro Carlos Gomes, sob direção de Roberto Alvim. Com o texto Os cálices do deus foi premiado no Concurso Rio Jovem Artista, da RioArte, e depois selecionado para leitura no Projeto D, na Casa da Gávea. Na Revista Confraria mantém a coluna Work in progress. Como ator, trabalhou em diversas montagens e projetos, como os Oráculos de Jaleco, grupo que apresentou performances no Festival de Teatro de Curitiba e na Fiocruz, e o grupo Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais, do qual foi também coordenador de cena. Como desdobramento deste seu trabalho, no momento prepara uma série de pequenas cenas poéticas que apresentará em eventos de literatura e arte. Publica na internet o blog www.victorpaes.blogspot.com. E-mail: victorpaes@confrariadovento.com