
Foto: Sissa Frota

Marcelino Freire escreve para se vingar. Do mundo e de si mesmo. E faz isso utilizando a voz da rua. A dor e o sofrimento alheio. Aos berros. Os personagens contam suas próprias histórias ou as revelam em diálogos e interpelações. Ora raivosos, ora desconcertantemente diretos, crus e verdadeiros. Convincentes.
A linguagem de Marcelino, mesmo escrita, é oral. É difícil manter as palavras presas às páginas. Mesmo sem perceber, você se pega ouvindo o texto ou, para vexame total, lendo em voz alta no meio da rua.
A paixão pelo teatro parece ter contribuído para isso. Marcelino não lê suas histórias, representa. O seu texto nasce da fala, e não o contrário. É ouvido antes de ser escrito. Textos curtos. Personagens à margem: da sociedade, da sanidade, do humano. Preconceito, violência, miséria, mas também amor. A brutalidade da fala direta, do grito, do depoimento. Fazem isso utilizando linguagem de sonho e confusão num momento. Em outro, com raiva e indignação. Ou, ainda, resignados.
O cuidado gráfico e o diálogo com as artes plásticas marcam o trabalho de Marcelino. Em “Eraodito”, livro de poesias visuais, é impossível desassociar forma e conteúdo. Ao longo de suas páginas, o autor reescreve e interpreta os chamados “ditos populares”, brincando com letras e frases, o que só é possível graças à utilização dos recursos gráficos e ilustrações. Nesse caso, realizadas por Silvana Zandomeni. Os contos de “Angu de Sangue” e “Rasif” também ganharam tratamento especial, com ilustrações de Jobalo e Manu Maltez respectivamente.
Nessa conversa com outras artes a liberdade é total. Marcelino escolhe artistas que admira e os deixa livres para criar. A mesma liberdade que ele demanda e precisa para escrever os seus textos.
O trabalho mais recente, ainda não publicado, foi a criação de um roteiro para uma história em quadrinhos, que será desenhada por Guazzelli e publicada pela editora Companhia das Letras. A partir desse roteiro, Marcelino passou a desenvolver seu primeiro romance, ainda sem data de conclusão.

Foto: Sissa Frota
O escritor pernambucano, que vive em São Paulo há quase 20 anos, acrescenta ao seu currículo a pecha de agitador cultural. E faz jus a ela. Marcelino criou e mantém no ar o Eraodito, blog [Link: http://www.eraodito.blogspot.com/] onde compartilha sua agenda, divulgando programas e projetos, autores, livros e tudo aquilo que cativa sua atenção.
O autor afirma gostar de provocar coisas. E faz isso bem. Além de ter criado seu próprio selo para promover os projetos em que acredita, o EraOdito Editora, com a parceria do Ateliê Editorial, segue promovendo eventos como a Balada Literária [Link: http://www.baladaliteraria.org], idealizada por ele e que já está em sua 4ª edição.
O que move Marcelino? A teimosia, diz ele. Acredite quem quiser. Eu aposto na paixão. Pela palavra, pela língua, pela literatura.

Sissa: Como você escolhe seus temas?
Marcelino: Ouvindo na rua. Ouvindo a rua. Eu nunca tenho uma história pra contar. Eu penso numa frase, meu impulso é sonoro. Eu escrevo sobre tudo o que escuto. Às vezes, estou no metrô, no ônibus, e escuto. Gosto de ouvir essas falas, essas coisas que são ditas... Os meus temas vêm de alguma coisa nas frases, de uma inquietação, de alguma coisa que eu registrei ali. Uma reclamação de dor, de surpresa, encantamento. Eu guardo essa frase comigo e fico pensando em fazer alguma coisa com ela, em descobrir uma história para aquela primeira frase.
Sissa: Miséria, violência, homossexualidade, exclusão social estão muito presentes no seu trabalho. Você fala dos excluídos em geral. O que você busca?
Marcelino: As pessoas bem sucedidas não me interessam. Parece que não têm dor, aperreio. Quem está preocupado com gente bem sucedida é escritor de autoajuda. Eu tenho esse ouvido para o humano, para os excluídos. Não no caráter panfletário. Mas eu trabalho em regiões muito fronteiriças. Para o meu texto cair no discurso, no texto demagógico, é um passo. Eu corro esse risco. Fico muito aperreado com o sofrimento do outro.
Sissa: Você vê o seu trabalho como uma espécie de denúncia? Você busca dar voz a essas pessoas?
Marcelino: Não. Eu não dou voz a ninguém. Eles é que me dão voz. Eu é que escuto a voz deles. Faço o registro dessas falas, dessas ladainhas, desses gritos, dessas queixas... Eu não quero salvar o mundo. Não posso chegar e prometer isso a um leitor qualquer, que eu dou voz a quem não tem voz e que, assim, quero melhorar a sociedade e chamar a atenção das pessoas. Salvar as pessoas. Não sou igreja, não posso prometer isso. Eu escrevo porque algumas coisas me incomodam e eu quero me vingar. Escrevo para me vingar. De um amor que foi embora, de uma saudade, de um governo que não caminha, de um mundo desgovernado. Para me vingar de mim. Se o leitor lê meus textos e sente neles alguma coisa capaz de alertá-los, despertá-los, ou sei lá o que, tudo bem. Vamos fazer uma vingança coletiva. Mas não é essa a natureza primeira do meu texto.
Sissa: Você escreve para consertar alguma coisa?
Marcelino: Eu não escrevo para consertar nada. Escrevo porque tenho que escrever. Por que algo está me incomodando. É a minha forma de registrar esse incômodo. Eu não tenho a pretensão de achar que a literatura tem o poder de consertar o mundo. Tem o poder de desconcertar. Você está lendo alguma coisa, cheio das suas convicções e dos seus confortos. A literatura vai lá e bagunça. É para consertar? Não sei. Sei que desconcerta. Agora, o que você vai fazer com esse desconcerto... Há quem se mate depois de ter lido um poema.
Sissa: Você diz que seus personagens dão vexame. O que significa isso?
Marcelino: Os meus personagens não se contêm. Eles têm muita urgência. Não têm uma lógica que definimos de boa ou má, eles se manifestam. Se está doendo, eles gritam. O nordestino é muito disso, de dar vexame, de não se conter, de querer já exorcizar aquilo que está incomodando. Quando estou escrevendo, eu parto dessa primeira palavra, dessa frase que eu ouço na rua, daquilo que me incomoda, daquele sentimento que pesa todas as vezes em que me lembro dele. Quero fazer alguma coisa com aquilo. Quem é esse personagem? É uma velha falando? É um homem falando? A partir dessas questões, vou desenvolvendo a história. Eu quero chegar à natureza desse conto, à natureza desse vexame, à natureza dessa dor. Quando termino, parece que eu me aliviei, tirei esse peso, dividi esse peso com o leitor.
Sissa: Você mistura uma linguagem explosiva, cortante e agressiva com boa dose de humor. Qual é a sua receita?
Marcelino: Os meus personagens caminham por todos os eixos, todos os altos e baixos. Existe muita graça naquela desgraça. O personagem vai do riso ao choro em questão de segundos. O nordestino, principalmente o pernambucano, é muito bem humorado, ri da própria desgraça, pinta as casas muito colorido pra ver se esconde um pouco a miséria ao redor. Dança maracatu, anda quilômetros e quilômetros com aquela roupa pesadíssima para pular o carnaval. Aquele cortador de cana que se fodeu o ano inteiro. O brasileiro é assim. Muita alegria, dança. O humor vem desse modo. Também porque, se fosse só o outro lado, sem humor, aquela coisa seca, o texto ficaria discursivo. A fala pela fala, a reclamação pela reclamação. Meus personagens são tragicômicos, eles riem da própria desgraça. É uma maneira de suportar o seu destino.
Sissa: Você diz gostar de “provocar coisas”. O que faz de você um “agitador” cultural?
Marcelino: Teimosia. Estou agora, neste exato momento, fechando a programação da Balada Literária, que vai de 19 a 22 de novembro. Sem um puto, eu não tenho caixa. Tenho os parceiros, que têm suas datas de fechamento de acordos. Eu me deparo resolvendo, muitas vezes, assuntos burocráticos. Este é o quarto ano em que faço a balada literária e faço com uma raça danada. Conto com a ajuda dos amigos. Mas não tenho um patrocínio oficial, nada que possa garantir a realização do evento. O SESC Pinheiros está patrocinando, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, o Centro Cultural B_Arco, a Mercearia São Pedro e a Livraria da Vila, sobretudo a Livraria da Vila, que ajuda desde a primeira edição. Mas, o que faz o agitador? Teimoso, não se contém, não se conforma. Enquanto as pessoas fazem festas com um milhão, eu faço com humilhação. Peço pra um, peço pra outro. Tenho muitos amigos. Tem que ser assim, se não você não faz. As pessoas geralmente dizem: ‘eu não faço isso porque não tenho dinheiro, não faço porque não tenho tempo’. Então, o que é que você tem? Dinheiro não vai ter nunca. Mas não é a falta de dinheiro que vai me impedir de fazer alguma coisa.
Sissa: Você se considera uma pessoa crédula?
Marcelino: Eu acredito muito. Eu tenho muita fé de que eu, movido dessa vontade, dessa teimosia, posso modificar, posso realizar as coisas, independentemente das castrações e das opressões que estão o tempo inteiro nos fazendo temer. Eu tenho muita fé naquilo em que eu acredito, naquilo que estou escrevendo, naquilo que vou fazer, naquele evento específico. Eu me encho de muita fé, de muita concentração espiritual, que não delego a nenhuma coisa que esteja fora de mim. Eu não peço fora de mim. Peço dentro de mim. A essa força eu posso chamar, por exemplo, de Xangô. Eu descobri que era filho de Xangô. Descobri que Xangô é um orixá forte, justiceiro. Eu tenho muita fé em Xangô, nessa força... A minha crença é essa. É uma crença de que a gente pode sim modificar as coisas.

“Eu sou um apaixonado pela língua portuguesa, a língua que eu falo, a língua da minha terra.”
“Eu leio muito um autor português chamado Vergílio Ferreira. Eu adoro perceber como ele vai pontuando... O Lobo Antunes é outro que acho sensacional, e também o José Luandino Vieira, que tem um ‘Q’ de Guimarães Rosa.”
“Eu ouço, por exemplo, a minha mãe falando. Às vezes, eu fico ali, quietinho, ou provoco algum assunto só para ouvi-la falar. Porque ela fala uma língua específica daquele sertão, da época em ela nasceu, e aquilo é também uma língua antiga. Aí você fala com uma pessoa de Minas Gerais, e é outra viagem. Quantas línguas se falam na nossa língua portuguesa? Então você vai para o Porto, Angola, Moçambique... Que coisa linda!”
“Somos uma língua, evidentemente, que não sabe o seu potencial. Somos isolados. A gente escreve em português e carece da tradução para ser lido em espanhol, francês, inglês.”

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1) Por onde começar: Contos Negreiros, Ed. Record, 2005.
2) Manuel Bandeira, por Marcelino Freire: poema "O impossível carinho", publicado no livro Libertinagem.
3) O autor por ele mesmo: "Trabalhadores do Brasil", conto que abre o livro Contos Negreiros, Ed. Record, 2005.
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Sissa Frota (São Paulo-SP). Graduada em jornalismo, pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, e em direito, pela PUC-SP, com pós-graduação em comunicação empresarial pela ESPM. Blog: http://literaturaecafe.wordpress.com E-mail: sissa.frota@gmail.com