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13/11/2009 00:25:00
O iluminista freudiano marxista ocidental



Por Jovino Machado e Fernando Machado




 

                                                * * *

1: Quem é Marcelo Coelho?

Considero-me mais um crítico cultural do que jornalista, uma vez que não tenho grande inclinação para a reportagem. Como crítico cultural, gosto de me sentir filiado ao espírito iluminista, com forte influência de Freud e do "marxismo ocidental". 


2: Gosto se discute? Porque?

Sim, pois gosto muda, gosto se aprende, gosto evolui... não é algo que esteja inscrito no DNA de uma pessoa, como provavelmente está a ojeriza a cebola ou alho.


3: Como foi a sua experiência como professor universitário?

Tive duas experiências. Uma, quando recém-formado em Ciências Sociais, no que hoje é a Universidade de Guarulhos; foi traumática, porque eu era muito tímido e não tinha o menor preparo para lidar com uma classe de quase duzentos alunos. Mais de vinte anos depois, dei aulas de jornalismo cultural na Faculdade Cásper Líbero, onde me surpreendi com o bom nível de muitos estudantes, e não tive problema em formular um curso voltado para questões de teoria estética. Organizar o curso, com começo, meio e fim, ajudou enormemente a organizar o meu pensamento sobre diversos autores, dando origem ao livro "Crítica Cultural: Teoria e Prática".


4: Como foi o projeto de reforma da Folha de São Paulo em 1984? Você teve liberdade de opinião?

Não participei do projeto. Já era muito amigo do Otavio Frias Filho, mas nossas conversas raramente se voltavam para o cotidiano do jornal, mesmo quando comecei a trabalhar lá, uns seis meses depois da implantação do projeto. Mesmo sobre uma famosa crise daqueles tempos iniciais, envolvendo um abaixo-assinado de vários jornalistas da Redação, fiquei sabendo muito pouco.


5: A sua coluna na Ilustrada é um sucesso. Fale sobre isso. O que é o sucesso pra você? O que ele representa para a sua vida?

Acho longe de ser um sucesso. Basta ver o caso de alguns colegas de coluna, como Contardo Calligaris e Arnaldo Jabor (que começou como colunista na Folha) para ver que minha audiência e influência pública é muito menor! Acho que quando comecei senti muita hesitação entre procurar o impacto polêmico e a tendência para o texto mais "açucarado", estetizante, que me é mais natural. Aos poucos fui equilibrando as coisas, acho, mas minhas preferências vão sempre mais para o erudito, e isso nem sempre dá Ibope. Do ponto de vista pessoal, acho que sempre soube que ia acabar fazendo o que faço hoje, e a atividade me realiza muito, sem precisar que eu me esfalfe demais.


6: O que te dá mais prazer? Escrever um livro,ou traduzir obras de Voltaire e Valéry?

Traduzir não dá muito prazer não. É um trabalho que não rende, você passa horas e só deu conta de umas poucas páginas. Escrever ficção, quando consegui, me deu enorme prazer; a sensação é exatamente oposta --você não percebe o tempo passar.


7: O seu texto discute aspectos sociológicos, antropológicos que causam impacto na vida contemporânea. Fale sobre isso.

Sempre gostei muito do "Mitologias", do Roland Barthes, e esse livro continua a ser um modelo para mim. "Minima Moralia", de Adorno, vai no mesmo caminho, e embora eu cada vez mais me sinta afastado de textos como o "Dialética do Iluminismo", mantenho certa fidelidade à "teoria crítica", pelo menos quando se trata de encontrar num pormenor do cotidiano os indícios de uma contradição mais ampla.


8: O que achou da série de conferências “O silêncio dos Intelectuais” organizadas pelo Adauto Novaes? O que este tipo de debate representa em termos de crescimento para as pessoas num mundo capitalista?

Acho que o tema era muito pertinente, embora não se restringisse às dificuldades enfrentadas pelos intelectuais petistas depois do mensalão. Creio que diz respeito a um problema maior, que foi o da arrogância da esquerda em vários momentos do século 20, e que tem em Sartre um dos exemplos mais contundentes. Crescimento para as pessoas no mundo capitalista? Acho que envolve, principalmente, o desafio de abandonar o charme extremista da esquerda sem cair na banalidade de direita que hoje toma conta de muitos intelectuais e polemistas. Como sempre, trata-se de aprender lições, e não de esquecer o que já se disse.


9: Um dos palestrantes do seminário “O silêncio dos Intelectuais” disse que a maioria é especialista em suas respectivas aréas e que intelectual é aquele que mete o bedelho em tudo aquilo que não é de sua alçada. Neste caso, o maravilhoso Caetano Veloso é um intelectual? O que pensa sobre isso?

Não se trata apenas de meter o bedelho, mas de dizer coisas pertinentes, amplas, na hora certa, a partir de um compromisso com seus próprios valores e com a verdade dos fatos, mostrando novos ângulos de um problema. Às vezes uma pessoa célebre apenas desabafa, e isso tem destaque. Mas o que tenho lido de Caetano Veloso supera muito o mero desabafo, e representa uma intervenção intelectual no sentido próprio do termo, talvez um pouco exagerada pela tietagem que a cerca. 


10: Qual a leitura que você faz do Brasil Hoje do ponto de vista político, social e cultural? Houve avanços nestas áreas no governo Lula?

Do ponto de vista político houve mais retrocessos do que avanços: um clima de complacência com o arreglo partidário, o declínio completo das formas de auto-organização da sociedade, em proveito de esquemas cartoriais e de uma psicologia de obediência a um líder providencial. Socialmente, os números indicam a ascensão da classe C, e não apenas o socorro essencial aos atendidos pelo Bolsa-Família; acho que o acesso dos pobres à universidade, ainda que de má qualidade, é tão importante quanto o Bolsa-Família, e é uma das causas legítimas da popularidade de Lula. Culturalmente, há alguns subprodutos positivos de tudo isso, como o surgimento de manifestações literárias e musicais na periferia, uma presença maior da cultura brasileira (e do interesse por ela) no plano internacional. Do ponto de vista da realização estética, entretanto, não vejo nenhum salto de qualidade na literatura, na poesia, no cinema, na música, na arquitetura... Acho que talvez em artes plásticas se tenha criado (mas no cinema também) um sistema mais regular de produção e de mercado. A televisão continua o lixo que sempre foi, mas isso vale em qualquer parte do mundo, eu acho; mas pelo menos era, há um tempo atrás, lixo cultural apenas, não lixo pessoal (BBBs e congêneres), canais de vendas de produtos e programas religiosos.


11: O que achou da gestão do Gilberto Gil no Ministério da Cultura?

Não tenho opinião, não... acompanho zero das discussões de política cultural, financiamentos etc.


12: Você escreveu um livro sobre Montaigne para a série Folha Explica. Qual a importância deste pensador francês para o mundo atual?

Acho que ajuda muito naquele "crescimento pessoal" a que se referia a pergunta 8, e também ao compromisso da verdade consigo mesmo, da sinceridade, da pergunta 9. É curioso, entretanto, que o elogio dos interesses privados e certo espírito de auto-ajuda, na linha dos estoicos, tenha recebido uma versão extremamente degradada nos tempos atuais.


13: Quem são os seus poetas preferidos?

Valéry, Rilke, Dylan Thomas, Drummond, Montale.


14: Faça uma lista de 10 filmes imperdíveis.

Não acho que existam filmes imperdíveis. Há os de todas as listas, como Encouraçado Potemkin, Cidadão Kane, Morangos Silvestres, Em Busca do Ouro, Apocalipse Now. Cito alguns menos óbvios que gostei de não ter perdido, como A Palavra, de Dreyer; Sob a Neblina da Guerra, documentário com Robert McNamara; O seriado "Roma" (primeira temporada especialmente); Conte Comigo, de Rob Reiner; O Fiel Camareiro...

E gostaria de mencionar alguns que não me fariam falta nenhuma se eu tivesse perdido: Julie e Jim, de Truffaut; Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen; O Acossado, de Godard; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri; O Tempo das Diligências...


15: Como é a rotina profissional de Marcelo Coelho?

Acordo tarde, leio o jornal, almoço, vou duas vezes por semana à Folha, escrevo antes de mais nada a coluna diária do Voltaire de Souza para o "Agora", gasto um bom tempo lendo o "Times Literary Supplement", que sai toda semana,  passo uma hora mais ou menos respondendo e-mails ou comentários do blog, e as horas mais produtivas, são das 23h às 3 da manhã, quando leio livros, escrevo para o blog ou toco projetos mais de médio prazo, como ensaios longos ou textos literários.


16: Como é trabalhar com Otávio Frias Filho? Ele é um chefe rigoroso?

Temos uma concordância muito grande, não apenas de pontos de vista, mas de estilo de pensamento, de modo que não conversamos quase nada de assuntos profissionais. Como colunista e blogueiro, escrevo o que quero, sem interferência de  nenhuma instância do jornal.


17: É verdade que a Folha é o único hoje no Brasil que paga pelas resenhas literárias? Não sabia disso, mas sei que é pouco. Porque a crítica praticamente acabou no país? As grandes editoras compram os jornais?

Evidentemente não. Basta ver o tipo de livros de maior interesse comercial e o tipo de livros que tem atenção da crítica. Não acho que a crítica tenha acabado, mas acho que as resenhas habitualmente publicadas tendem a ser mais rápidas e informativas do que propriamente analíticas. O campo da análise fica mais ao encargo da universidade, onde o aumento da produção não veio acompanhado de ganhos equivalentes em termos de qualidade.


18: Depois que a imprensa fofoqueira descobriu que pode transformar qualquer cretino em celebridade, a questão do formador de opinião ficou deturpada porque qualquer emergente fala sobre tudo. Diante deste caos, qual o papel da imprensa na formação de leitores, eleitores e cidadãos? Você se considera um formador de opinião?

O termo sempre me pareceu antipático. Se a imprensa forma opiniões, é quando noticia por exemplo um escândalo evidente ou revela problemas como o da pedofilia ou da violência policial. O papel da imprensa, para mim, sempre foi o de apontar problemas quando todos estão vendo soluções. Quanto mais consegue fazer isso, mais contribui para que as decisões e atitudes dos eleitores e cidadãos sejam mais conscientes.


19: O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?

Felizmente, a diferença entre trabalhar e não trabalhar é pequena para mim. Se estou lendo ou ouvindo música, que são as coisas que mais gosto de fazer, estou pegando coisas que podem ser úteis para o meu trabalho.


20: O que é mais importante na vida para Marcelo Coelho?

Manter alguma distância de si mesmo.


 
                                                * * *



Jovino Machado (Belo Horizonte/MG). Formado em letras (UFMG). Atua como restaurateur. Publicou 10 livros, entre eles Trint´anos Proustianos (Mazza Edições, 1995), Disco (Orobó Edições, 1998), Samba (Orobó Edições, 1999), Balacobaco (Orobó Edições, 2002) e Fratura Exposta (Anomelivros, 2005). Recentemente, 2009, também publicou a plaquete poética Meu Bar Meu Lar. Próximo lançamento: Cor de Cadáver (Anomelivros, 2009). Participações em Dimensão (Revista Internacional de Poesia, Uberaba, MG, 1998), A Poesia Mineira no Século XX (Imago, Rio de Janeiro, 1999), A Cigarra-Revista de Poesia (Santo André, SP, 2000), O Melhor da Poesia Brasileira – Minas Gerais (Joinville, SC, 2002), antologia poética O Achamento de Portugal (Fundação Camões, Lisboa, Portugal e Anomelivros, 2005), Suplemento Literário de Minas Gerais (2007) e Rascunho (2008). Menção honrosa na revista literária da UFMG (1991) e terceiro prêmio de Poesia Falada de Campos dos Goytacazes (RJ, 2002).
E-mail:
jovinomachado@yahoo.com.br  Blog: http://jojomachado.zip.net
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