Por Paulo de Toledo
“Se o inferno cristão depreciava a terra, afastando-se dela, o inferno do carnaval sancionava a terra e o baixo da terra como o fecundo seio materno, onde a morte ia ao encontro do nascimento, onde a vida nova nascia da morte do antigo.”
Mikhail Bakhtin – A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais
Para quem ainda não leu, Agora é que são elas é a história de um rapaz que, como ele mesmo insiste em dizer, busca a sabedoria. Ele é psicoanalisado pelo doutor Propp, que é, ao mesmo tempo, um personagem do romance e também Vladimir I. Propp, o grande pesquisador russo, autor do famoso Morfologia do Conto Maravilhoso. O herói-narrador (que não é nomeado durante todo o romance [1]) envolve-se amorosamente com a filha de Propp, Norma. No romance, há ainda mais duas Normas: uma, a mulher por quem o herói se apaixona numa festa (que é, na verdade, uma fantasia, uma criação do herói durante seu processo de análise) e a outra, uma criança, a Norminha, que também está na festa e que afirma conversar com ET’s.
O romance é narrado em flashbacks, sendo carregado de palavras chulas, muita sacanagem, paródias de livro de ficção científica e clichês à mancheia.
Seriam esses os motivos que fizeram de Agora é que são elas, nas palavras de Boris Schnaiderman, um “romance enjeitado”?
Isso não importa.
O que importa aqui é apontar algumas características do romance que fazem dele, em nossa opinião, uma das leituras mais intrigantes e mais prazerosas da literatura brasileira das últimas décadas.
“TEMAS” RECORRENTES
Citemos Octavio Paz:
“Em todos os poemas a recorrência é um princípio cardeal. O metro e seus acentos, a rima, os epítetos em Homero e outros poetas, as frases e incidentes que se repetem como motivos e temas musicais são como signos ou marcas que enfatizam a continuidade. No outro extremo estão as rupturas, as mudanças, as invenções e, no fim, o inesperado: o campo da surpresa. O que chamamos de desenvolvimento nada mais é do que a aliança entre surpresa e recorrência, invenção e repetição, ruptura e continuidade.” (negrito nosso) (Paz, 2001, p. 13)
Agora é que são elas é construído como um poema, sendo feito de “invenção e repetição”. Leminski transforma redundância (“repetição”) em informação nova (“invenção”), utilizando, de forma inusitada, elementos que já fazem parte do repertório dos leitores, porém fazendo com que esses elementos sejam percebidos como corpos estranhos, como “seres gasosos dos pantanais de Canópus”.
As repetições [2] ficam por conta das frases feitas, dos lugares-comuns, e, principalmente, dos “temas recorrentes”. Chamamos de “temas recorrentes”, aqueles assuntos ou expressões que constantemente reaparecem no romance em tela, dentre os quais podemos destacar o tema “sabedoria” (a busca da sabedoria é uma idéia-fixa na mente do protagonista, como pode ser exemplificada a seguir: “Ah, por quês?, como atingir a sabedoria sem vocês, porquês, por quês, diabólica máquina das causas e efeitos.” p. 14), o tema “cheiro de queimado” (como na p. 62: “E senti de novo aquele cheiro de queimado, enquanto socorriam Norma que, durante um agudo mais lancinante, teve um desfalecimento, e foi caindo, caindo lentamente nos braços de vários circunstantes, que acudiram solícitos.”), o tema “Morfologia-Propp” (que trataremos mais adiante), o tema “seres interplanetários” (muito interessante é este trecho, narrado pelo herói: “Como isso foi possível, só o gênio do professor explica, e o gênio é inexplicável, como nós todos, seres gasosos dos pântanos de Canópus, sabemos.” p. 28), o tema “tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar” (também analisado mais detidamente logo a seguir), entre outros.
Um dos principais “temas recorrentes” trata-se do “Morfologia-Propp”: as teorias do pensador russo Vladimir Propp são parodiadas ao longo de todo Agora é que são elas. O famoso livro de Propp, Morfologia do Conto Maravilhoso, é citado em vários trechos do romance, tendo este, inclusive, 31 capítulos, que é o número de funções dos personagens definidas por Propp na sua obra-prima. Uma das referências ao trabalho proppiano feita de maneira mais criativa e surpreendente ocorre na pág. 13:
“Segundo ele, nas histórias de magia e de mistério, o narrador está sempre ausente, nunca participando da festa, quero dizer, das ações.”
Se o narrador não poderia estar presente e está, então nosso herói-narrador viola as “normas” proppianas e acaba, por conseguinte, satirizando as teorias do pensador russo.
Também de um humor inteligentíssimo é o seguinte trecho encontrado na p. 27:
“Propp escrevia seco, mas muito bem. Seu principal romance, porém, que merda!, ainda não saiu à luz. Esse escafandrista das profundezas humanas, discípulo direto de Freud, que discutiu, como ele invoca, com Reich, Férenczi e Jung, ele deixou uma história que, se ainda houver um resquício de luz e amor na humanidade, um dia, vai ser publicada.
É a ‘Morfologia do Conto Maravilhoso’, admito, um nome um pouco abstrato para uma obra de ficção.”
Aqui, Leminski inverte tudo. Propp e sua obra são transformados em “obra de ficção”, um verdadeiro exercício carnavalesco de inversão lógica.
Outro dos “temas recorrentes” mais importantes para a estrutura do romance é uma frase [3], dita pelo herói-narrador, que aparece na obra de maneiras variadas, cuja primeira ocorrência dá-se na página 14:
“Cheguei devagar o telefone no ouvido e do outro lado ouvi... merda!, tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar.” (negrito nosso)
Essa frase aparece também em várias outras páginas, com algumas variações:
“Um dia, num encontro mais violento, no fim do terceiro round, Propp exigiu que eu lhe contasse uma coisa que eu não digo nem pra mim mesmo.” p. 40
“Mal sabia ele que... bem, mas tem uma coisa sobre a qual eu nem quero pensar.” p. 98
“Mas tem uma coisa sobre a qual eu não quero. De jeito nenhum.” p. 119
“Coisa sobre a qual eu não quero falar, não me obrigue a lhe dizer umas verdades.” p. 134
“Como é que pode alguém, bem, vocês sabem, tem uma coisa sobre a qual de uma vez por todas, eu não quero falar.” p. 146
“Acontece que tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar,e fiquei com medo que Propp percebesse que estava evitando a história que diria mais do que convém que uma história diga.” p. 152
“Principalmente um, que, bem, tem uma coisa sobre a qual, nem com dois mil conhaques.” p. 160
Acreditamos que esse “tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar” seja uma espécie de resistência à análise psicanalítica, ou seja, o herói-narrador (de forma cômica) tenta resistir a Propp, seu analista, ocultando uma informação muito grave e importante (qual seria?). Vejamos o seguinte excerto:
“Propp insistiu. Eu perseverei. Ele reiterou. Eu recalcitrei. Ele fez questão, eu também, e, no calor da luta, comecei a sentir vertigens, calafrios, enjoos, câimbras e ânsias de vômito.” p. 40
Essa resistência ao Propp-analista também é uma resistência ao poder falocrático do Pai-Propp:
“- Quero sim. E quero dizer o que eu bem quiser. Quem é o pai aqui? Eu sou o pai, eu sou o senhor, o mestre, o que dá presentes, o rei que derrota e a mãe que derrama leite na tua boca, o sacerdote que te joga na frente da verdade.” p. 89
Aqui, Propp dá uma “lição” ao herói/filho, mostrando pra ele quem é que tinha o direito à última palavra.
O que nos parece estranhamente curioso nisso tudo é que nosso herói afirma buscar a sabedoria, mas resiste aos ensinamentos do mestre-sábio, preferindo, ao que parece, encontrar seu próprio caminho, nem que esse caminho o leve ao “inferno”, como se pode observar nos momentos finais da obra.
INFERNO
Como o herói-narrador afirma logo no início do romance:
“Então, eu soube. Ela se chamava Norma.
De normas, vocês sabem, o inferno está cheio.” p. 12
A palavra “inferno” aparece apenas em três páginas do romance. Na citação acima, e em dois momentos muito importantes do livro.
“E segui a multidão que descia, descendo escadas e mais escadas, os cochichos ecoando pelos corredores, escadas abaixo, mais abaixo, parecia que todos queriam chegar no pólo sul, atravessar todo o gelo, todo o frio, e desciam mais, e mais, e mais, como se depois do frio quisessem chegar até o inferno, aquele inferno medieval que ficava no fundo da terra, no fundo das coisas, no fundo das profundas de tudo, e onde mais ficaria?” p. 67
O trecho acima narra a descida dos convivas até onde seria o sacrifício de Norma, a dona da casa e da festa.
“Eu não quero a vida eterna, professor. EU QUERO O INFERNO.” p. 163
Esta frase corresponde às linhas finais do romance, quando o herói descobre que Propp havia acabado de se matar e ele, o herói, pega a arma, deixa nela as suas impressões digitais e logo depois liga para a polícia, incriminando-se.
O que essas três passagens do romance podem nos dizer?
Se o inferno está cheio de normas (normas = leis; normas = mulheres), e foi no inferno onde Norma morreu, o herói, que tanto persegue a sabedoria (sabedoria = normas/leis da vida/maturidade) e que ama as mulheres/Normas, só poderia mesmo desejar o inferno. É lá que o embate PRINCÍPIO DE PRAZER X PRINCÍPIO DE REALIDADE se consuma. Nosso herói, como pós-adolescente que é [4], está ainda dividido entre a entrega ao prazer e a repressão deste prazer.
Entretanto, acreditamos que, no inferno, nosso herói não buscava a sabedoria, e, sim, algo diferente, algo que, perto do final do livro, ele já parecia suspeitar. Observemos esta passagem:
“Tudo estava demorando. Pedi mais um conhaque, peguei a mão de Norma, e fiquei olhando pra ela pensando se não era melhor pedir uma felicidade em vez da sabedoria. Dizem que, nesses casos, os garçons atendem mais depressa.” p. 156
Logo depois de dizer isso, o herói-narrador descobre que Norma fugira com Bernardo (seu antigo namorado), abandonando-o. Portanto, a decisão dele de ir ao inferno não seria uma espécie de tentativa de recuperação da “felicidade perdida”, também chamada de Norma?
Por fim, o herói de Agora é que são elas parece não ter alcançado a sabedoria tão desejada, porém nós, leitores, com a fruição do romance leminskiano, alcançamos, sim, a felicidade, felicidade esta apenas proporcionada pelas grandes obras do engenho humano.
NOTAS:
[1] É muito interessante o fato de o herói não ter um nome. Vejamos este trecho do romance, puro exercício metalingüístico, em que o próprio herói reclama do fato de ele não ser nomeado.
“Prezado Herr Doktor Proféssor,
eu só queria saber
por que nessa história
todo mundo tem nome, menos eu
atenciosamente,
menos eu.”
Ainda sobre o nome do personagem, é curioso como na passagem citada a seguir o herói é chamado por Norma Propp de Bernardo, seu ex-namorado, e que, no final da obra, engravida Norma e foge com ela.
“Não, Bernardo, um teu antepassado, ela ironizou.” (p. 133)
“Por que é que você me chamou de Bernardo?, perguntei, sério.” (p. 133)
Por que Norma o chamaria de Bernardo?
Na página 157, lemos a carta que Norma deixara ao pai, explicando o porquê de ter fugido com Bernardo:
“Querido papa, situação insustentável.
Parto hoje com Bernardo. Função E,
Desmascaramento do falso herói.
Não comunico nosso destino por razões óbvias.
Notícias assim que nosso nenê nascer
nada pessoal,
Norma”
Segundo Propp, dá-se o demascaramento do falso herói, por exemplo, quando ele fracassa em realizar uma determinada tarefa (ex.: matar o dragão). Nesse caso, pensamos que o falso herói é, na verdade, nosso herói-narrador que não conseguira realizar a tarefa de conquistar a princesa, ou melhor, conquistar Norma Propp. A despeito de os dois namorarem, eles nunca chegaram (por que Norma nunca permitira) a fazer sexo com penetração, limitando-se ao sexo oral.
Nosso herói, ironicamente, acaba sendo um “falso herói”, assim como Propp é um falso Propp, a festa é uma falsa festa, os ET’s são falsos ET’s e como Agora é que são elas é um falso romance, ou, como diria Leminski, “um romance sobre a minha impossibilidade de escrever um romance” (Leminski, 1992, p. 163).
[2] No romance, encontramos, inclusive, a repetição de trechos quase que idênticos. Vide págs. 10 (cap. 1, nº 3) e 48 (cap. 10, nº 7).
[3] “- Bem, tem o caso dos nunaks. Mas é que tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar.”
Essa frase é dita ao herói por Norminha, a menina que falava com os ET’s. Na verdade, Norminha e a própria festa são invenções, fantasias produzidas pelo herói e, portanto, a frase é dita por ele. Outra semelhança entre a Norminha e o herói é o fato de ambos serem expertos em astronomia.
Mas por que nosso herói se identificaria justamente com uma criança?
Isso só Freud explica, ou melhor, só Propp.
[4] A despeito de a idade do herói não ser precisada, logo na primeira frase do romance, lê-se: “Aos 18 anos, pensei ter atingido a sabedoria.” Além disso, outras informações ao longo do romance, levam-nos à conclusão que se trata de um jovem de menos de 25 anos.
Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail Bakhtin. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Hucitec, São Paulo-Brasília, 1996.
LEMINSKI, Paulo. Agora é que são elas. Editora Brasiliense, São Paulo, 1999.
LEMINSKI, Paulo. Uma Carta Uma Brasa Através. São Paulo, Iluminuras, 1992.
PAZ, Octavio. A Outra voz. Editora Siciliano, São Paulo, 2001.
PROPP, V. I. Morfologia do Conto Maravilhoso. Forense-Universitária, Rio de Janeiro, 1984.
Paulo de Toledo é poeta e ensaísta. Email:paulodtoledo@uol.com.br