Juiz de Fora tem como símbolo o pioneirismo industrial e a forte inserção cultural no cenário brasileiro. A atividade política também permeia a vida da cidade com intensidade e repercute para além das montanhas de Minas. Apontada por Rui Barbosa como Manchester Mineira e como Barcelona Mineira, Juiz de Fora também foi chamada de Atenas de Minas por Arthur Azevedo. Em 31 de maio de 2010, Juiz de Fora completará 160 anos e a data está motivando a reflexão sobre aspectos dessa trajetória. A marca da década de 1980, em Juiz de Fora, é a indignação e a mobilização pela conquista da democracia, com justiça social e liberdade. Os anos 80 também foram tempos de movimentos pela preservação do patrimônio cultural e da memória da cidade. A luta pela liberdade de expressão política, cultural e social marcou a geração que experimentou ousar e enfrentar os tempos bicudos com determinação, mas com uma pitada de irreverência e de inquietação. O olhar atento e a sensibilidade jornalística do repórter-fotográfico Humberto Nicoline flagraram os mais diversos e inusitados momentos desse processo de consolidação de uma nova cidade no contexto de luta por um novo Brasil e o resultado desse trabalho é o lançamento do livro JF Anos 80 (Funalfa/UFJF). A publicação tem apresentação do escritor mineiro, radicado em São Paulo, Luiz Ruffato.
Desde o final do século XIX, Juiz de Fora se projeta como polo de desenvolvimento econômico e artístico e, a partir da virada do século XX para o XXI, vem renovando sua vocação como núcleo industrial e cultural. Pioneira na implantação da iluminação elétrica pública e na instalação da primeira usina hidrelétrica da América do Sul, em 5 de setembro de 1889, Juiz de Fora busca retomar, desde o início da década de 1980, o desenvolvimento industrial com a implantação e a consolidação de empresas de grande porte no setor automobilístico, na produção de zinco e na siderurgia. Este pioneirismo no setor elétrico foi retomado em 19 de janeiro de 2010 quando o presidente Lula inaugurou a conversão da turbina da Usina Termelétrica Juiz de Fora (UTE JF), primeira no mundo a gerar energia elétrica a partir do etanol, primeira a usar combustível renovável para geração de energia e primeira unidade bicombustível, uma parceria da Petrobras com a General Electric (GE).
A partir de junho de 1980, a Cia. Paraibuna de Metais, atual Votorantim, inaugurava sua unidade em Juiz de Fora. No segundo semestre do mesmo ano, a Siderúrgica Mendes Júnior, depois Belgo e atual ArcelorMittal, cravava a primeira estaca de sua usina na cidade e, em 1984, entrava em operação comercial. Mais tarde, em 1996, a Mercedez-Benz instalava uma montadora em Juiz de Fora.
“O motor do mundo avança”
Juiz de Fora se transformou com a luz elétrica e vem tecendo uma trama de pioneirismo desde o final do século XIX. Chama que transcende o sonho e aponta para a esperança sempre no horizonte. Como disse Murilo Mendes (1901 – 1975): “O motor do mundo avança”.
As imagens reunidas no livro JF Anos 80 integram o acervo fotográfico do jornal Tribuna de Minas e do próprio fotógrafo, que ali trabalhou durante a citada década. Por ofício e vocação, Humberto Nicoline se tornou um privilegiado observador no olho do furacão que sacudiu a cidade, como reflexo do que acontecia no país, em meio a manifestações sociais, políticas, sindicais, estudantis e artísticas. Os anos 80 simbolizam a esperança de um povo que viu em sua cidade o potencial para a transformação e que acreditou ser possível realizar os sonhos, desde que fossem dados os primeiros passos da caminhada. O resultado da jornada é fruto dos acertos ou desacertos da luta.
A cada passo dado no resgate da memória dos anos 80, topamos com o encanto transcendente do outro lado da penúltima década do século XX. A cada olhar nas imagens de Humberto Nicoline, renascem sinais do clamor popular nas asas do vento e florescem os desejos de quem luta e, sonhando, se arrisca em busca da liberdade no horizonte. Sonho e desencanto. Luta e esperança. Conquista e conformismo. Tudo ao mesmo tempo, como um sinal de contradição numa década em transformação. Por toda parte, a cidade respirava o sonho democrático com as pessoas querendo virar a vida pelo avesso e mudando seus desígnios, apesar das artimanhas do poder. Mas a espiral da mudança essencialmente prevaleceu, em desafio ao temor e ao medo.
As manifestações culturais, sociais, políticas, sindicais e estudantis serviram como instrumento de pressão e injetaram novos agentes no caldeirão que transformou Juiz de Fora, Minas e o Brasil, nos anos 80, em um autêntico laboratório de efervescência, na reconquista da democracia e da liberdade. Ao registrar os mais diversos aspectos da mobilização da comunidade, Humberto Nicoline documentou fotograficamente a ousadia e a rebeldia de uns e a reação de outros. Todas as forças sociais estão presentes neste mosaico e sintetizam o embate de amplos setores na defesa de idéias e ideais.
Assembléias e protestos, campanhas eleitorais e mobilizações, eventos artísticos e flagrantes do cotidiano, tudo apontava novos rumos e deixava marcas profundas na cidade e nas pessoas que ajudavam a construir este novo tempo. O poeta juizforano Murilo Mendes já disse: “...assim sou eu, ponho sempre em primeiro lugar as pessoas...”. A inquietação foi o ingrediente determinante e o desejo de mudança foi o oxigênio que impregnou cada pessoa e cada momento da década de 1980. Este olhar voltado para as pessoas e suas atitudes é a essência do trabalho fotográfico de Humberto Nicoline e o estímulo para que um pouco dessa história seja contada a fim de que as novas gerações possam dimensionar os caminhos trilhados para se reconquistar a cidadania e a democracia.
Luta pela redemocratizacão
A luta pela redemocratização teve em Juiz de Fora, nos anos 80, um dos centros políticos influentes na busca de novas alternativas partidárias e políticas. As mais amplas correntes de pensamento se articularam na conquista de espaço e na defesa de seus projetos para a cidade, para Minas e para o Brasil. Como polo regional em Minas Gerais, Juiz de Fora desempenhou papel importante na reconstrução democrática e os mais diversos setores procuraram integrar, cada vez mais, a comunidade na participação social e política. A capacidade de indignar-se do juizforano e o seu inconformismo se juntavam ao amor pela liberdade. Inspirado pelo desejo de rejeitar a ditadura, o juizforano mostrou de forma contundente sua vontade de mudança.
A aprovação da Nova Lei Orgânica dos Partidos, em dezembro de 1979, extinguira o bipartidarismo, prenunciando um novo tempo partidário para a nova década. A cidade, antes dividida entre as sublegendas da Arena e do MDB, passaria a experimentar a diversidade partidária com o surgimento de outras siglas, como o PT, PMDB, PDS, PDT, PFL e PP, além do ressurgimento de PTB, PSB, PCB e PCdoB e, depois, em 1988, com a criação do PSDB.
Enquanto os metalúrgicos do ABC paulista, liderados por Luiz Inácio da Silva, o Lula, articulavam uma das maiores greves já vistas no Brasil, entre abril e maio de 1980, o movimento sindical em Juiz de Fora dava os primeiros sinais de sua reorganização. Na cidade, era editado o número nove dos Cadernos do CET, uma publicação mensal da Fundação Centro de Estudos do Trabalho inteiramente dedicada à greve em Juiz de Fora e elaborada a partir de depoimentos dos operários que participaram do movimento grevista na cidade. O folheto, em quadrinhos, trazia versos do poeta Vavado da Jisuana.
Com a venda da TV Industrial para a Rede Globo, passando a se chamar TV Globo Juiz de Fora, em abril de 1980, a atual TV Panorama passaria a gerar programas e ampliar seu raio de ação na Zona da Mata. Em maio do mesmo ano, teve início, no dia 12, uma das maiores greves dos professores estaduais em Minas. Coordenada pela União dos Trabalhadores do Ensino, então UTE-MG, atual Sind – UTE, a greve durou 41 dias e mobilizou, além de Belo Horizonte e Juiz de Fora, outras 418 cidades mineiras.
O PT era fundado em 10 de fevereiro de 1980, em São Paulo e, em 25 de maio de 1980, em Juiz de Fora, a direção da Associação de Estudos e Ação Política dos Trabalhadores elegia, em assembléia, a primeira Comissão Provisória Municipal do Partido dos Trabalhadores. Antes, a comissão organizadora do PT em Juiz de Fora tinha formado o primeiro núcleo do partido na cidade, em 4 de novembro de 1979. Em 1º de fevereiro de 1981, acontecia, em Juiz de Fora, o primeiro encontro regional petista na Zona da Mata mineira. Definitivamente, alguma coisa nova estava acontecendo na política da cidade.
A poesia na ordem do dia
Um grupo de novos e promissores poetas lançava o número 1 do folheto Abre Alas, em maio de 1981, dando continuidade ao movimento “Poesia”, iniciado em 1975 por Gilvan P. Ribeiro e o saudoso José Henrique da Cruz. A primeira fase do Abre Alas durou até 1986. Setembro de 1981 marcava a inauguração da Tribuna de Minas, “um jornal novo nas idéias e objetivos”, com a presença do então governador Francelino Pereira. No mesmo mês, no dia 10, Leonel Brizola visitava a cidade, visando rearticular os trabalhistas. Em outubro de 1981, uma pichação com as iniciais TFP, na parede externa do Fórum Benjamin Colucci, figurava ao lado de um cartaz afixado irregularmente, difamando bispos progressistas da Igreja Católica. Uma simples comemoração de título mundial conquistado pelo Flamengo, em 23 de novembro de 1981, realizada por torcedores rubro-negros em frente à então sede da Prefeitura, nas esquinas de Rio Branco com Halfeld, era reprimida por policiais da Rotam.
Grandes manifestações do movimento estudantil e social também sacudiram a cidade, na mobilização pela liberdade, pela melhoria do ensino público e gratuito e pela Assembléia Nacional Constituinte. O Brasil pulsava e Juiz de Fora dava sua contribuição à luta democrática. Em novembro do mesmo ano, no dia 26, na 4ª Auditoria Militar, tendo como defensores o jurista Heleno Fragoso e o conceituado advogado juizforano Winston Jones Paiva, acontecia a absolvição de militantes de esquerda acusados de infringirem a Lei de Segurança Nacional, no episódio que ficou conhecido como “Julgamento dos 18”.

Lula - março de 1982
A presença na cidade, em março de 1982, de Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical iniciando sua inserção partidária na cena nacional, a partir da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, atesta a vitalidade de Juiz de Fora na luta pelas liberdades democráticas e pela justiça social. Ao lado de Paulo Delgado, então professor, sociólogo, sindicalista e secretário nacional de filiação e nucleação do PT, além de fundador do partido em Juiz de Fora, Lula percorreu portas de fábricas, realizou caminhada pelo centro da cidade e autografou o livro “Lula sem Censura”, acompanhado por alguns poucos, mas aguerridos, militantes que lançavam as sementes do PT. Lula seria aplaudido entusiasticamente por milhares de pessoas em comício, à noite, na histórica Praça da Estação, debaixo de chuva. Lula voltaria a marcar presença em Juiz de Fora, nos anos 80, em outras campanhas eleitorais.
A fundação da revista alternativa Bizzu, por Marcos Petrillo, em abril de 1982, e a realização do evento “Noite do Bizzu”, no Teatro Pró-Música, em 20 de agosto de 1982, marcaram a cidade pela irreverência, a descontração e muito rock. Luiz Carlos Maciel abordou o tema da “Revolução cultural no Brasil” e lançou o livro “Negócio, seguinte”, além do evento contar com uma performance de Rogério Skylab.
Em 18 de setembro de 1982, Rogério de Campos Teixeira inaugurava o Espaço Cultural Livros & Artes, incluindo as livrarias Macunaíma e Pererê, contando com a presença de Ziraldo, Wilson Martins, Ferreira Gullar e Yan Michalski. O evento de abertura teve a exposição “Livros infantis do mundo inteiro”, a apresentação da peça infantil “Saci Pererê”, com o Grupo Boneco Vivo, e uma palestra com o poeta Ferreira Gullar. O novo espaço cultural movimentaria a cena artística da cidade, abrindo em 22 de outubro a Galeria Espaçoarte e, no dia 24, o Cineclube Humberto Mauro. Em 30 de dezembro, a programação reuniu,numa mostra de cinejornais das décadas de 30 e 40, documentários realizados na cidade por João Gonçalves Carriço, um dos pioneiros do cinema nacional, E a pesquisadora Martha Sirimarco realizava a palestra “Cinejornalismo e populismo em Juiz de Fora”.
As eleições de 1982 foram realizadas numa conjuntura de aguda crise política e agravamento da crise econômica, com recessão industrial, ampliação do desemprego e aumento de preços. Em meio a isso, o movimento popular ganhava força, mas as restrições à participação popular atestavam que os governistas ainda tinham cartas na manga. Em meio à chamada “abertura”, setores do regime militar atuavam pelo endurecimento, como no caso do atentado no Riocentro, em 30 de abril de 1981, durante o show que comemorava o 1º de Maio. Além da perseguição às lideranças sindicais do ABC paulista, dos processos tendo como base a Lei de Segurança Nacional, atingindo dirigentes e militantes do PT, e de todas as limitações impostas ao exercício do voto, no pleito de 1982, pelo “Pacote de Novembro”.
O prefeito Mello Reis, do PDS, inaugurou o Mergulhão na Avenida Rio Branco, em 2 de junho de 1982, ao lado de Eliseu Rezende, Fernando Fagundes Neto, José Carlos Fagundes Neto e Fernando Junqueira. Um grande comício do PMDB reunia na cidade, em 12 de novembro de 1982, Tancredo Neves, seu assessor e neto Aécio Neves, Tarcísio Delgado, Sebastião Helvécio, Marcello Siqueira e Itamar Franco, que seria reeleito senador. Tancredo seria eleito governador, Tarcísio ganharia a disputa para a prefeitura e o ex-presidente do CGT, Clodesmidt Riani, já anistiado, seria eleito deputado estadual. Em dezembro do mesmo ano, o presidente Figueiredo visitava as futuras instalações da Siderúrgica Mendes Júnior. Sua passagem pela cidade motivou a prisão temporária de diversas lideranças oposicionistas.
Em 19 de abril de 1983, o PDT comemorou em praça pública os 100 anos de Getúlio Vargas. Em maio do mesmo ano, o então prefeito Tarcísio Delgado recebeu o governador de Minas, Tancredo Neves, na Câmara Municipal, e os dois concederam rápida entrevista ao radialista Alberto Bejani. Naquele momento, Tarcísio não poderia supor que, seis anos depois, em 1989, entregaria o cargo de prefeito justamente a Bejani, numa das maiores surpresas eleitorais da cidade e na última eleição majoritária para prefeito realizada em um único turno.
Nos anos 80, a cidade teve como administradores Mello Reis (1977–1983), Tarcísio Delgado (1983–1989) e Alberto Bejani (1989–1992). A década, assim, passava por três modelos de administração municipal e por duas transições turbulentas. A ebulição política e as contradições da época levavam as mobilizações para as ruas e as reivindicações se ampliavam.
O Frei Leonardo Boff realizou na cidade noite de autógrafos de seus livros, em 14 de abril de 1983, defendendo uma maior participação social da comunidade e a luta pela democracia.
Aproveitando a presença de Tancredo Neves, em maio de 1983, artistas, escritores e jornalistas, que integravam o movimento “Mascarenhas, Meu Amor”, entregaram um manifesto da comunidade juizforana, contendo milhares de assinaturas e reivindicando a doação da parte pertencente ao Estado de Minas Gerais na antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. O então prefeito, Tarcísio Delgado, e o então superintendente da Funalfa, Reginaldo Arcuri, acompanharam o governador, que anunciou a intenção de atender a reivindicação da cidade. Era o primeiro passo efetivo para a posterior transformação da velha fábrica num centro cultural, depois também no mercado municipal e num centro de distribuição para as malharias.
Mascarenhas, meu amor
A edição do jornal Diário Mercantil, de 17 de julho de 1983, trazia uma longa e contundente entrevista com expoentes da campanha “Mascarenhas, Meu Amor”, Henrique Simões, Walter Sebastião e Guilherme Bernardes, além de um depoimento do então prefeito Tarcísio Delgado. A luta pela Mascarenhas mobilizava amplos setores culturais e uma passeata pelo centro da cidade, realizada em 30 de julho de 1983, reuniu nomes de expressão nacional, como Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Rachel Jardim, Ruy Merheb, Carlos Bracher, Nívea Bracher, Décio Bracher, Fani Bracher, Dnar Rocha, Jorge Arbach, Kim Ribeiro e João Guimarães Vieira, o Guima, além do deputado João Batista dos Mares Guia, presidente da Comissão do Patrimônio Histórico da Assembléia Legislativa de Minas. Um debate, após a passeata, avaliou a estratégia de resgate da Mascarenhas.
A luta ganharia repercussão nacional, em 21 de agosto de 1983, quando o caderno Idéias, do Jornal do Brasil, publicou um artigo intitulado “Juiz de Fora quer transformar velha fábrica em centro de arte e cultura”, mostrando a importância da preservação de um dos ícones arquitetônicos do período industrial brasileiro no final do século XIX e início do século XX. A velha fábrica Bernardo Mascarenhas, em 31 de maio de 1987, foi transformada num moderno centro cultural, administrado pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage - Funalfa, voltado para a integração de atividades artísticas. A ousadia de artistas, produtores culturais, escritores, jornalistas e amplos setores da comunidade, a partir de 1983, ao lado do empenho da administração pública, tornou possível sua recuperação e sua transformação em uma fábrica de arte em pleno coração da cidade.
O fechamento dos jornais Diário Mercantil e Diário da Tarde, em 29 de novembro de 1983, ambos dos Diários Associados, provocou surpresa nas redações e empobreceu a cena jornalística juizforana. Afinal, o Mercantil era a mais tradicional publicação da cidade e o vespertino visava atingir os setores populares.
Juiz de Fora realizara, em 21 de janeiro de 1984, mobilização no Calçadão com a presença do senador Itamar Franco, defendendo a realização de eleições diretas para Presidente. Em São Paulo, na Praça da Sé, aconteceu a primeira grande manifestação nacional pelas diretas. Em 29 de fevereiro de 1984, já que era um ano bissexto, a Praça da Estação foi palco do maior comício da história política de Juiz de Fora em defesa das eleições presidenciais diretas. Ao reunir uma multidão, calculada em mais de 30 mil pessoas, a mobilização movimentou a cena política, trazendo à cidade Tancredo Neves, Pedro Simon, Itamar Franco, Gonzaguinha, Fernando Brant, Cristina Buarque de Holanda, Bete Mendes, Rubinho do Vale, Monarco e Noca da Portela.
Nos dias 10 e 16 de abril de 1984, respectivamente, na Praça da Candelária, no Rio de Janeiro, e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, eram realizados os maiores comícios da história política brasileira em defesa das “Diretas, já”. Em Juiz de Fora, em 25 de abril, uma vigília pela votação das “Diretas, já” também movimentou o Parque Halfeld, enquanto a Câmara Federal rejeitava, por 22 votos, a emenda Dante de Oliveira, que marcava eleições diretas para presidente. Um placar mostrou, voto a voto, a posição dos parlamentares. A emenda constitucional obteve 298 votos dos deputados, mas necessitava de 320 votos para ser aprovada. A frustração geral com o resultado da votação não foi menor em Juiz de Fora.
D’Lira na vanguarda literária
Entre 1983 e 1984, expoentes da nova literatura criada em Juiz de Fora editaram três números da prestigiada revista D’Lira, um marco da renovação literária em Minas e que projetou os poetas Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Júlio Polidoro, Walter Sebastião, Eustáquio Gorgone, Luiz Guilherme Piva, Sérgio Klein, José Santos e José Henrique da Cruz. A edição final da D’Lira encartou um fascículo com a última entrevista concedida pelo memorialista Pedro Nava.
Para celebrar um ano da revista Bizzu, em 8 de abril de 1983, foi promovida uma nova “Noite do Bizzu”, também no Pró-Música, tendo como apresentador José Santos e como convidado especial Perfeito Fortuna, reunindo ainda o grupo Uavisiliu, Rogério Skylab e o Teatro de Quintal. Mas o mais inusitado da noite acabou sendo a performance de Toninho Buda que, após falar sobre a conjuntura planetária de abril e de ler um poema sobre ovnis, trajando apenas uma capa espacial, ficou nu no palco, para espanto de uns e o deboche de outros.

Cazuza - agosto de 1983
O I Festival de Rock de Juiz de Fora, também articulado por Marcos Petrillo, movimentou a cena musical, em 13 de agosto de 1983, com Raul Seixas, Lobão & os Ronaldos, Barão Vermelho, Erasmo Carlos, Rogério Skylab, Coquetel Molotov, Sangue da Cidade, Beatles Forever e Dahal. Novembro do mesmo ano marcou a vinda de Jorge Mautner & Nélson Jacobina, comemorando a oitava edição da Bizzu. Já, em maio de 1985, o II Festival de Rock de Juiz de Fora teve a Legião Urbana como ponto forte, além do Ultraje a Rigor e de Leo Jaime, Celso Blues Boy e Robertinho de Recife, com direito a registro pelo cineasta Lael Rodrigues em “Rock Estrela”. Em maio de 1986, durante o III Festival de Rock de Juiz de Fora, Cazuza foi o destaque e detonou, num evento ainda reunindo as bandas Ira!, Akira S, Stress, Camisa de Vênus, Capital Inicial, Zero, TNT e, novamente, Lobão, Celso Blues Boy e Robertinho de Recife, entre outras atrações. O IV Festival de Rock de Juiz de Fora, em outubro de 1989, teve como ponto alto as bandas Barão Vermelho, Picassos Falsos, Uns & Outros, Inimigos do Rei, além do jamaicano Nabby Clifford. Somente em 1993, em 8 e 9 de outubro, seria realizado o V Festival de Rock de Juiz de Fora.
O prefeito Tarcísio Delgado e o ex-sindicalista Clodesmidt Riani, em 31 de maio de 1983, entregaram a Medalha Henrique Halfeld ao governador de Minas, Tancredo Neves, na Câmara Municipal, reconhecendo seu empenho em defender reivindicações da cidade.
Juiz de Fora vivenciava outras manifestações em defesa do patrimônio cultural, mas que não tiveram a mesma sorte do movimento “Mascarenhas, Meu Amor”. Em dezembro de 1985, artistas e escritores recolheram assinaturas da comunidade em manifesto defendendo o tombamento do Palácio Episcopal. Em março de 1986, os mesmos setores culturais articulavam mobilização pelo tombamento da antiga Capela do Colégio Stella Matutina. Em ambos os casos, os históricos imóveis não foram tombados pelo poder público municipal e foram demolidos, frustrando os defensores da preservação da memória arquitetônica da cidade.
A eleição de Tancredo Neves, em 15 de janeiro de 1985, pelo Colégio Eleitoral, definiria o novo presidente do Brasil, após 21 anos de ditadura. Mas, em 14 de março, um dia antes da posse em Brasília, Tancredo foi internado para operação no Hospital de Base e, em 21 de abril de 1985, a sua morte comoveu a cidade, Minas e todo o país. O vice, José Sarney, interinamente, ocupou a Presidência da República, a partir de 15 de março. A data registrou também a criação do Ministério da Cultura, deixando de integrar o MEC. Maio de 1985, tendo Sarney já como presidente, marcou a história recente do país com a aprovação da eleição direta para Presidente da República.
Uma das primeiras manifestações do Movimento Negro, em 31 de agosto de 1985, chamou a atenção no Calçadão para as denúncias contra a discriminação racial e para a importância da mobilização da comunidade em defesa da Assembléia Nacional Constituinte. Na mesma data, o ilustrador Jorge Arbach lançou seu livro “Penso, logo insisto”, com show de chorões, no pátio da antiga fábrica Bernardo Mascarenhas, para chamar a atenção da comunidade sobre a importância de sua preservação e de sua utilização cultural.
Em 28 de fevereiro de 1986, José Sarney lançava o Plano Cruzado, escudado por Dilson Funaro, Edmar Bacha, Pérsio Arida e João Sayad, e provocava uma onda de “Fiscais do Sarney”. Em 2 de junho de 1986, foi editado o primeiro número do jornal Tribuna da Tarde, em Juiz de Fora, em plena Copa do Mundo. A Tribuna de Minas ampliava a circulação em Belo Horizonte. No mesmo ano, Itamar Franco, então no PL, realizava comício na Praça da Estação ao lado de Aureliano Chaves, Aécio Cunha (pai de Aécio Neves), José Carlos Fagundes Neto, Lair Clemente e Lucília Neves, na disputa pelo governo de Minas e perderia a eleição para o PMDB de Newton Cardoso. A região polarizada por Juiz de Fora elegeu Paulo Delgado como deputado federal constituinte e parlamentar mais votado do PT em Minas. Também foram eleitos deputados federais constituintes Mello Reis (PDS) e Silvio Abreu (PMDB). O Jornal do Diap, em setembro de 1988, publicação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, publicou edição especial revelando o “Quem foi Quem na Constituinte”, trazendo os parlamentares que mais contribuíram para a obtenção dos avanços conquistados na nova Carta constitucional. Paulo Delgado alcançou a nota máxima, como Deputado Nota 10, pelo Diap. Em 5 de outubro de 1988, foi promulgada a nova Constituição, assegurando a liberdade plena dos brasileiros e o estado de direito democrático.
O folheto poético Abre Alas, interrompido em 1986, retornou em junho de 1989, com a 30ª edição, sendo publicado no jornal Diário da Manhã. A partir de novembro do mesmo ano, com o número 42, passava a ser veiculado no jornal Tribuna da Tarde. Ali permaneceu até a edição de número 89, em 1990.
Em 18 de dezembro de 1989, Fernando Collor e Itamar Franco foram eleitos pelo voto direto, num segundo turno onde valeu tudo para derrotar Lula. Na cidade de Juiz de Fora, o candidato do PT venceu os dois turnos. A posse presidencial aconteceu em 15 de março de 1990. Em fins de 1992, após o impeachment de Collor, Itamar tornou-se o Presidente da República, com mandato até janeiro de 1995.
Personagens anônimos ou ilustres fizeram dos anos 80, em Juiz de Fora, um diversificado painel e se integraram no cotidiano da cidade nas mais inusitadas situações. Operários, estudantes, professores, jornalistas, radialistas, donas de casa, escritores, artistas, profissionais liberais, cidadãos e cidadãs juizforanos envolvidos na consolidação da cidadania e da democracia deixaram de lado o medo e deram passos no rumo de um novo tempo. A participação popular passava a ser decisiva e os juizforanos assumiram o compromisso com a mudança. Muitos dos que se foram deixaram como legado o exemplo e a determinação. Muitos outros estão aí, firmes, ajudando a cidade, Minas e o Brasil a se afirmarem como cidade, Estado e Nação comprometidos com a transformação social e a liberdade. As novas gerações seguramente têm nestas personagens uma referência de vida e de dedicação às conquistas vivenciadas por Juiz de Fora, por Minas e pelo Brasil.

Punk "Vietnã" - agosto de 1985
A cidade sempre lutou também para preservar seus ícones. E, em cada momento decisivo da luta cultural, o olhar do fotógrafo Humberto Nicoline estava lá. Atento e sensível, ele captou flagrantes de rebeldia punk, festivais alternativos de música, fechamento de cinemas, shows variados, manifestações pela preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e artístico, e muito mais. Além do acontecimento cotidiano, as pessoas sempre foram o centro das atenções desse olhar. E, assim, o repórter-fotográfico foi construindo uma galeria de personagens que emprestaram um pouco de sua luz para humanizar ou denunciar as aventuras ou as desventuras de seu tempo. Assim, procuramos neste livro registrar estas personagens.
Em defesa do patrimônio cultural
O Museu Mariano Procópio, o mais importante museu mineiro, abrigando um dos mais significativos acervos do período imperial no País, é um dos ícones culturais da cidade. Situado no alto e no centro de um parque de 78 mil metros quadrados, o Museu valoriza ainda em seus jardins a flora exótica e brasileira. No início dos anos 80, no final da administração Mello Reis, o Museu passou a ganhar a solidariedade da comunidade em defesa de seu acervo.
O Cine-Theatro Central, importante casa de espetáculos de Minas, construída em 1929 e que hoje pertence à Universidade Federal de Juiz de Fora, expressa a emoção de todos nós. Depois de uma ampla campanha de mobilização da comunidade cultural, iniciada em dezembro de 1982 e que teve continuidade em janeiro de 1983, antes mesmo da posse na prefeitura de Tarcísio Delgado, o Central seria alvo de intensa pressão social e cultural. Posteriormente, seria tombado pelo município e pelo Iphan e adquirido pela UFJF com recursos federais, em 1994, durante o período em que Itamar Franco assumiu a presidência da República e Murílio Hingel foi ministro da Educação. O Theatro Central foi totalmente restaurado, durante a administração municipal de Custódio Mattos, em 1996, voltando a pulsar no coração da cidade. Os mais importantes nomes da cultura brasileira vêm, ao longo do tempo, deixando fluir, a partir de seu palco, todo o encantamento que a arte possibilita.
A tradição musical da cidade, que nos anos 80 vivenciou um panorama de retomada, possibilitou que fossem dados os primeiros passos para, mais tarde, a cidade sediar festivais internacionais de música antiga e colonial brasileira e de corais. Assim, Juiz de Fora passou a receber músicos renomados, além de professores e estudantes de música de diversos países, se transformando num núcleo de referência internacional da música de época. O intercâmbio cultural e o potencial artístico, educacional e turístico desses eventos contribuem para o aprimoramento da formação musical, aproximando vertentes artísticas múltiplas. O Centro Cultural Pró-Música teve fundamental participação e foi pioneiro na consolidação desta perspectiva na cidade e na difusão do ensino e na formação musical.
A década de 80, trouxe a Juiz de Fora expressivos nomes da música nas mais variadas vertentes: de Hermeto Pascoal a Elomar, de Gilberto Gil a Gonzaguinha, de Egberto Gismonti a Raul Seixas, de Nana Caymmi a Luli & Lucina, além dos grupos Titãs, Legião Urbana, Cólera, Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, Zero, Inimigos do Rei, Capital Inicial, Coquetel Molotov, Stress, TNT, Sangue da Cidade, Akira S, Picassos Falsos, Uns & Outros, Ira! e muito mais.
O livro JF anos 80 é um convite à reflexão e um resgate de parte da memória visual de uma década que deixou marcas profundas na trajetória das pessoas e da cidade, como um núcleo urbano vivo, pulsante e em permanente transformação.
Organizado em capítulos – Cidade (fotos em ordem cronológica); Política (fotos em ordem cronológica); Manifestações (fotos em ordem cronológica); e Personagens (fotos agrupadas de forma temática, sem preocupação de cronologia) –, o livro JF anos 80 tem como compromisso maior revelar com visão jornalística e fotográfica aspectos essenciais de uma década que marcou o Brasil, Minas Gerais e Juiz de Fora.
Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil. E-mail: jorgesanglard@yahoo.com.br