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5/3/2010 21:24:00
O absurdo da condição humana



Por Pedro Maciel



                          Não desejo mais ser feliz, e sim apenas estar consciente. 
                                                                                                                                                 Albert Camus



         O Exílio e o Reino (Ed. Record), é o último livro de ficção publicado por Albert Camus (1913-1960) e o único livro de contos. Não se sabe se o autor continuaria a escrever narrativas curtas. A Queda (1956) era um dos textos que deveria fazer parte da coletânea mas Camus acabou transformando-o em um romance. Ao comentar o livro O Estrangeiro (1957), Jean-Paul Sartre diz que Camus jamais se valeria da mesma técnica narrativa que empregara naquele romance.
       
Uma das características de Camus é que ele renova-se a cada livro. O Exílio e o Reino que tem o Brasil por cenário, é a prova da variedade estilística do autor. O exílio fala da solidão do estrangeiro, de sua marginalização e “recusa à representação de um papel que a sociedade lhe atribui”, enquanto o reino é o paraíso da história particular, universal, lugar onde o homem encontra a suposta felicidade.
       
A coletânea (seis contos) é uma síntese da obra camusiana. O narrador explora os temas que sempre o atormentaram, como a solidão e o destino do homem diante do mundo indiferente, e o absurdo da condição humana. Através do “absurdo” o autor decifra o verdadeiro sentido da vida. Mas a vida, segundo Camus, será vivida melhor ainda se não tiver sentido.
       
Certa vez, o próprio Camus contestou sua condição de escritor do absurdo ao perguntar: “Que fiz mais, entretanto, senão raciocinar sobre uma idéia que encontrei nas ruas de minha época? Que haja alimentado essa idéia (e que uma parte de mim a alimente sempre), com toda a minha geração, isso é evidente por si. Mantive simplesmente diante dela a distância necessária para dela tratar e decidir de sua lógica. Tudo o que pude escrever depois mostra-o suficientemente. Mas é cômodo explorar uma fórmula de preferência a um matiz. Escolheram a fórmula: eis-me absurdo como antes”.
       
O absurdo em Camus é apenas o princípio do método, ponto de partida para narrar as desventuras do homem do século XX.
       
Ao receber o prêmio Nobel, Camus declarou que “o escritor não pode se colocar a serviço daqueles que fazem a História; ele está a serviço daqueles que a sofrem”. Nascido na Argélia, num mundo de pobreza e luz, o escritor franco-argelino cresceu sob o fogo cruzado da primeira guerra, e desde então, a história não cessou de ser violência ou injustiça.
       
“Fui posto a meio caminho entre a miséria e o sol”, escreve Camus em O avesso e o direito (1937). No livro Volta a Tipasa, o romancista propõe um mundo de justiça iluminado pelo homem consciente de sua existência: “(...) eu redescobria em Tipasa que era preciso (...) amar o dia que escapa à injustiça e tornar ao combate com essa luz conquistada. Reencontrava a antiga beleza, um céu jovem, compreendendo enfim que nos piores anos de nossa loucura a lembrança desse céu jamais me abandonara. Fora ele, afinal, que me impedira de desesperar. Sempre soubera que as ruínas de Tipasa eram mais jovens que nossos canteiros de obras ou nossos escombros. O mundo nelas recomeçava todos os dias dentro de uma luz sempre nova. Ó luz! é o grito de todas as personagens colocadas diante de seu destino no drama antigo. Este último recurso era também o nosso e eu o sabia agora. No meio do inverno, eu aprendia enfim que havia em mim um verão invencível”.
       
Camus recebeu a luz do Mediterrâneo como uma dádiva do céu, expressa numa escrita clássica, pronta para revelar o homem em sua plena consciência, o homem não mais como um mero habitante do mundo, mas um habitante consciente de ser-no-mundo. O ser do homem que o torna o ser sobre-a-terra. O ser que se depara com a sua própria liberdade. Este é o ponto central do pensamento camusiano e de toda a filosofia existencialista.
       
A obra de Camus continua a ser uma exemplar manifestação da consciência crítica deste século. Uma espécie de testamento do mundo contemporâneo. Marca o início do declínio da literatura moderna, que teve precursores, mestres como Proust, Dostoiévski ou Kafka. Logo viria a literatura pós-moderna, caricatura de uma época perversa e “Kitsch”.



                                                 * * *


Fragmentos de “O Renegado ou um Espírito Confuso”, de Albert Camus

Que confusão, que confusão! É preciso colocar ordem na minha cabeça. Desde que cortaram minha língua, uma outra língua, sei lá, funciona sem parar no meu crânio, alguma coisa fala, ou alguém, que de repente se cala para recomeçar tudo outra vez, ah ouço coisas demais que no entanto não digo, que confusão, e, se abro a boca, é como um ruído de pedrinhas remexidas. Ordem, uma ordem, diz a língua, e fala de outra coisa ao mesmo tempo, sim sempre desejei a ordem. Pelo menos, uma coisa é certa, espero o missionário que deve vir me substituir. Estou aqui na trilha, a uma hora de Taghâza, escondido num monte de rochedos, sentado sobre o velho fuzil. O dia nasce sobre o deserto, faz frio demais ainda, logo fará calor demais, esta terra enlouquece e eu, há tantos anos que até já perdi a conta... Não, mais um esforço! O missionário deve chegar esta manhã, ou esta noite. Ouvi dizer que ele viria com um guia, pode ser que tenham apenas um camelo para os dois. Vou esperar, estou esperando, o frio, só o frio me faz tremer. Continue a esperar, escravo imundo!

Faz tanto tempo que espero. (...)


                                                 * * *


Pedro Maciel é autor do romance Como deixei de ser Deus (Editora Topbooks, 2009). Segundo o filósofo e poeta Antonio Cícero, “de certo modo, é o tempo o verdadeiro tema desse livro, que pode ser considerado uma espécie de Bildungsroman, isto é, de romance de educação ou formação. Pode-se dizer que é justamente a intensa capacidade de instigar a sensibilidade, o pensamento e a imaginação que constitui um dos maiores encantos de Como deixei de ser Deus”. Já o escritor Moacyr Scliar diz que, “Como deixei de ser Deus foi para mim uma gratíssima surpresa, pela originalidade, pela profundidade e pela transcendência do texto”. Pedro Maciel, segundo o poeta e tradutor Ivo Barroso, "nos faz acreditar que a literatura brasileira possa ainda apresentar alguma coisa de novo que, curiosamente, remonta à própria arte de escrever: o estilo. O seu primeiro romance A Hora dos Náufragos (Bertrand Brasil, 2006) perturba pela força da linguagem. O que há de mais próximo desse livro seriam os famosos fusées de Baudelaire". E-mail: pedro_maciel@uol.com.br

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