Café Literário Cronópios










|||||||

Fundación de Poetas de Mar del Plata
por Luis Benítez







 

Escravo na casa do rei
por Claudio Nigro




Erthos Albino de Souza, um pioneiro da poesia feita em computador
por da Redação




As cores do Brasil sob o olhar de Pablo Neruda
por Cristiane Grando




Gente é pra brilhar
por Jovino Machado




A fragilidade da pedra
por Sissa Frota




I Pin Pin de Literatura comemora o centenário do escritor Edgard Cavalheiro
por Alexandre Staut




Investigação sobre blogs: implicações entre literatura e mídia digital
por Ana Carolina Coelho




Crônica dos festivais abundantes
por Artur Matuck




Revitalização de Duílio Gomes
por Márcio Almeida




Censurado, ainda censurado. Entrevista com Paulo César Araújo
por Jovino Machado




Os dois maiores poetas vivos do planeta residem em São Paulo
por Omar Khouri




Programa Perfil Literário, da Rádio Unesp, agora também no Cronópios
por Portal Cronópios







 
16/7/2010 17:22:00
Basicamente tudo parece blues



Por Jovino Machado




 
    Mário Bortolotto (e Zé do Caixão) durante encenação de peça do “Teatro para Alguém” 

                                                                                                      Foto: Nelson Kao



 

1: Quem é Mário Bortolotto?

Sou um sujeito simples que fez logo cedo uma opção de vida. Trabalhar apenas no que me desse satisfação. É claro que há um preço pra isso. Mas é assim que tenho levado a vida e não me arrependo.

2: Que lembranças bonitas você tem de sua infância?

Os jogos de futebol no campinho. Eu morava em frente a uma favela e ia jogar bola com a molecada de lá. Muitas vezes a gente saía na porrada, mas era tudo muito inocente, muito idílico.

3: Fale sobre o seu pai e a sua mãe.

Pessoas muito simples. Minha mãe era muito brava quando eu era criança. Com o passar do tempo se tornou uma das pessoas mais dóceis e agradáveis que conheci. Meu pai era muito calado lá em casa. Acho que nunca trocamos mais que duas palavras. Mas eu o respeitava muito. Mesmo depois que tive que sair na porrada com ele pra proteger a minha mãe. Tinha uma série de demônios no encalço dele. Eu entendia. Esses demônios me perseguem de vez em quando. Não é fácil.

4: O que o teatro representa em sua vida?

O teatro me deu a possibilidade de sobreviver fazendo algo que eu gostasse. Antes da literatura ou da música, foi o teatro que fez isso.

5: Em 2009 a velha da foice levou 3 de meus amigos queridos. Na leitura diária de seu blog percebo claramente a importância que você dá a seus amigos. A amizade é amor sem sexo e beijo na boca. Fale sobre os seus amigos. O que seria de nós sem esses anjos protetores que aliviam o nosso tempo de sofrimento na terra?

O meu amigo Reinaldo Moraes tem uma frase muito bonita sobre a amizade: "O amigo de todo dia é a namorada que mija com a gente na rua". É mais ou menos isso. Sou um sujeito com tendências à solidão, mas paradoxalmente tenho muitos amigos e gosto e sinto necessidade de conviver com eles. Acho a lealdade masculina uma das coisas mais bonitas que um homem pode ter. A traição de um amigo é mais devastadora que a traição de uma mulher.

6: Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida. A Clarice Lispector se inspirou nessa frase do James Joyce quando escolheu o título de seu primeiro livro. O coração do Bortolotto é selvagem?

O do Belchior é que é. Não sei dizer. Eu diria que ele é por demais turbulento.

7: O pão é a realidade e o álcool é a imaginação?

Pode ser. Mas eu não imagino muitas coisas quando estou bêbado. Aliás, faço muita besteira bêbado.

8: A alegria é a única perfeição da vida?

Acho a melancolia mais perfeita. E mais verdadeira.

9: O riso é a distância mais curta entre duas pessoas?

Também não penso assim.

10: Primeiro veio Jesus Cristo e disse: Tudo é amor. Depois veio Marx e disse: Tudo é dinheiro. Depois veio Freud e disse: Tudo é sexo. E finalmente veio o Einstein e disse: Tudo é relativo. O que você acha dessas idéias desses quatro judeus? Citando Walt Whitman o Doutor Sigmund disse: Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo. O que acha?

Eu costumava dizer que tudo o que a gente fazia era pensando em comer uma mulher. Pode até ser determinada mulher. Ou várias, mas é sempre pensando nisso. Ainda penso assim. Mesmo se você estiver com uma mulher que você gosta muito. Então a ideia é continuar comendo aquela mulher. Mas é.

11: Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo?

Total. Não acredito no desdém. A gente sempre tá escondendo alguma coisa. É só mais um tipo de defesa.

12: A dor grita, mas o prazer quer eternidade?

Não sei dizer.

13: O que você acha que pode seduzir o leitor no seu livro de poemas “Um bom dia para morrer?

São poemas muito viscerais, escritos numa fase de minha vida muito particular em que estava tentando me reconstruir em meio à paisagem desoladora que se tornou minha vida.

14: Trepei com Joana cinco vezes e sem camisinha, o que me deixou orgulhoso e envaidecido. Esta é a primeira frase do romance Joana a contragosto de Marcelo Mirisola. O MM em seus contos e romances sempre pega o leitor pelo pé no primeiro segundo do primeiro tempo. O que você pensa quando começa a escrever um texto? Você pensa no leitor ou se concentra apenas na construção literária?

Nunca penso no leitor. Não sou tão bom assim. O Mirisola é genial.

15: Você não acha um luxo ser contemporâneo de Reinaldo Moraes que escreveu esta incrível epopéia contemporânea chamada Pornopopéia? O que você achou do livro? Aceitaria o convite para viver o personagem principal no cinema?

Mais foda ainda é ser amigo dele. O livro é o melhor que foi lançado no ano passado. É a grande e triunfal volta do Reinaldão. Não sei dizer sobre o personagem no cinema. Quem tem que pensar nisso é o diretor do filme. Só espero que realmente o filme seja feito.

16: O que você pensa sobre o teatro de Zé celso, Gerald Thomas e Antunes Filho?

Gosto dos três, embora não me identifique com o trabalho de nenhum deles. Eu os considero artistas. Verdadeiros artistas. Acho que são caras fiéis à suas percepções de mundo. E pra mim artista é basicamente isso.

17: Fale sobre a sua nova peça “Música para ninar dinossauros”. Porque a nossa geração se fodeu?

Não acho que se fodeu. Acho até que a gente se salvou. Não esperavam muito da gente. E aí a gente conseguiu entrar pela porta dos fundos. Não tinha nenhum cachorro no portão, sabe como é. A peça é sobre a minha geração. Eles vivem o que eu e o Domingos de Oliveira chamaria de "última juventude". Os três personagens são apenas três amigos tirando um som.

18: Porque o público deve pagar ingresso para ver os velhos bêbados barrigudos tocadores de blues?

Pra ver, ninguém devia pagar. Mas o som é muito bom. E a música vem junto com a gente. Então as pessoas acabam pagando pra nos ver. O que é bacana.

19: Vi o filme baseado na sua peça “Nossa vida não vale um chevrolet”. Nos primeiros vinte minutos fiquei pensando: "O Bortolotto está reclamando de barriga cheia, mas depois a fita desanda e eu achei que você teve razão de reclamar. Machado de Assis e Dostoiévski são dois autores que nunca deveriam ser adaptados para o cinema. No seu caso, você acha que a sua linguagem é feita especialmente para o teatro ou foi o cineasta que não teve competência?

A minha obra é muito cinematográfica. Mas o cineasta e o roteirista não entenderam com o que estavam lidando. Ou foi pela vaidade deles, sei lá. Eles mexeram em tudo, inclusive na essência do texto. Por isso ficou tão ruim.

20: Quem você gostaria que filmasse um texto seu?

Jim Jarmush ou Hal Hartley. Mas os dois já escrevem seus próprios roteiros. E muito bem.

21: Quem são os seus escritores preferidos?

Bukowski e Kerouac. Eternamente.

22: O que você mais gosta de ouvir em casa? Quais são os seus compositores que você admira?

Eu ouço blues. Sempre. Ouço outras coisas também. Mas basicamente tudo parece blues. Até a MPB que eu ouço (Sérgio Sampaio, Macalé, Walter Franco) parece blues. Meus compositores preferidos são Van Morrison, Tom Waits e Jagger & Richards.

23: Porque você gosta de falar de fitas VHS? Por favor, fale sobre fitas VHS.

Gosto de fitas VHS do mesmo jeito que gosto de LPs. Quando eu tiver uma casa maior (moro numa kitchenete), vou ter um aposento só pra ouvir LPs e assistir VHS.

24: O que você sente quando está no palco com a sua banda Saco de Ratos?

É uma realização de garoto. Sempre quis tocar em uma banda de rock. Já toquei em várias, mas no caso da "Saco de Ratos" me parece que a gente se completa de alguma forma. O Watanabe completa a guitarra do Brum e vice versa. A bateria do Rick pulsa junto com o baixo do Pagoto e as minhas letras se sentem irmanadas totalmente com o som da banda. É muito foda.

25: O que é mais importante na vida para Mário Bortolotto?

Depois do que aconteceu comigo no final do ano passado, costumo dizer que tô na faixa bônus. Vou viver da maneira mais digna possível. Isso é mais do que suficiente.




                                               * * *





Jovino Machado (Belo Horizonte/MG). Formado em letras (UFMG). Atua como restaurateur. Publicou 10 livros, entre eles Trint´anos Proustianos (Mazza Edições, 1995), Disco (Orobó Edições, 1998), Samba (Orobó Edições, 1999), Balacobaco (Orobó Edições, 2002) e Fratura Exposta (Anomelivros, 2005). Recentemente, 2009, também publicou a plaquete poética Meu Bar Meu Lar. Próximo lançamento: Cor de Cadáver (Anomelivros, 2009). Participações em Dimensão (Revista Internacional de Poesia, Uberaba, MG, 1998), A Poesia Mineira no Século XX (Imago, Rio de Janeiro, 1999), A Cigarra-Revista de Poesia (Santo André, SP, 2000), O Melhor da Poesia Brasileira – Minas Gerais (Joinville, SC, 2002), antologia poética O Achamento de Portugal (Fundação Camões, Lisboa, Portugal e Anomelivros, 2005), Suplemento Literário de Minas Gerais (2007) e Rascunho (2008). Menção honrosa na revista literária da UFMG (1991) e terceiro prêmio de Poesia Falada de Campos dos Goytacazes (RJ, 2002). E-mail: jovinomachado@yahoo.com.br   Blog: http://jojomachado.zip.net  

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Jovino Machado no Cronópios.