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30/05/2012 10:58:00
A alma aberta de Fernando Brant



Por Jorge Sanglard


Mais que um “escritor de canções”, uma pessoa que descobre as palavras que devem se casar com a música, Fernando Brant é um poeta e, como ele mesmo diz: “poeta e leitor de poesia têm marca indelével na pele e na alma”. Parceiro de Milton Nascimento em pérolas da MPB, Fernando Brant também é um observador atento de seu tempo e está lançando o livro “Casa aberta” (Edições Dubolsinho), reunindo crônicas publicadas ao longo dos últimos cinco anos no jornal Estado de Minas.

Inteligência, perspicácia e opinião estão impregnadas em cada crônica escolhida para compor o livro. Brant não se omite, abre a alma e assume cada posição adotada em cada um de seus belos escritos. Se o silêncio é a cara de Minas, como sentencia numa de suas crônicas, o autor sabe muito bem que a força da palavra rompe barreiras e fronteiras: “No princípio era o Verbo e a palavra existe para ligar os homens, para que eles entendam o que os carca e se entendam. Usar bem a faculdade de se exprimir em palavras, no entanto, é um desafio. Dizer o exato no momento em que deve ser dito é uma qualidade de poucos. E não expressar na hora devida o que deve ser revelado é uma fraqueza que nos leva à tristeza e ao vazio. O trato com as palavras é uma luta que não termina nunca e do bom embate que temos com elas vai depender nosso relacionamento com nossos semelhantes”.

Assim, além de “escrever palavras que falam de tudo o que interessa ao ser humano, do que toca a emoção dos que permanecem sensíveis, e casá-las com melodias, criando as canções”, que ganham Minas, o Brasil e o mundo na voz de Milton Nascimento, o Bituca, desde os tempos do Clube da Esquina, Brant se revela no livro um cronista afiado e afinado com seu tempo. Principalmente, em tempos onde “as práticas políticas, infelizmente, apontam para o desrespeito, a mentira, o marquetismo, a incompetência e a corrupção”, as pessoas com autêntico espírito público têm pouco espaço no mundo político brasileiro e mundial, ressalta o cronista.

Caldas, Diamantina, Belo Horizonte, Ouro Preto, Três Pontas, Barbacena, Juiz de Fora, Dublin, Porto, Lisboa, Auvers, Paris, Madri, Bagdá, Nova York, e muito mais de Minas e do mundo permeiam as crônicas do livro e convidam o leitor para um mergulho fundo nas histórias e nos causos escritos com emoção à flor da pele e no calor da hora. Sobre Juiz de Fora, mais que uma declaração de amor. Intitulada “Em Juiz de Fora, eu sou de dentro”, uma crônica atesta que Fernando Brant, já na primeira visita à Manchester Mineira, se mostra apaixonado pela cidade que possui a maior Rua Halfeld do mundo: “orgulhoso ponto de encontro do progresso com a cultura”. A terra de Pedro Nava, de Murilo Mendes, do professor de Brant, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, e do parceiro e amigo Tavinho Moura, passou a ser também afetivamente a terra do poeta, cidadão honorário.

E o próprio Fernando explica: “Sou de dentro por ter amigos, que moram em Juiz de Fora e em minha alma, e são para a vida inteira. Por me sentir em casa, certo de estar pisando um chão que também me pertence. Por ter agregado à minha existência pessoas belas e boas, competentes em várias atividades. Meus amigos de Juiz de Fora são boins poetas e compositores, ótimos médicos e políticos, administradores, professores e jornalistas. Aonde chegam se destacam”.


               Fernando Brant e MiltonNascimento no FIC (Maracanãzinho, 1967)
                   Foto: acervo Museu Clube da Esquina

A amizade com Milton Nascimento vem de longa data. No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, ao lado do parceiro Fernando Brant, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há quase 45 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e do início do século XXI e que se projetaria como um mestre do canto. No livro, Fernando Brant indaga: “Quem diria que o menino Milton de Três Pontas iria, passo a passo, canto a canto, conquistando degraus e, depois de deixar fascinados os seus amigos de Beagá, ser essa voz que comove o país?”.

Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.

Enfim, “Casa aberta” é um convite para se valorizar a vida, a afetividade, a companhia, a felicidade entre e para todos nós. Como um de seus muitos amigos juiz-foranos e mineiros, recomendo a leitura do livro uma vez que Fernando Brant confessa que escrever é um mergulho na prazerosa tarefa de buscar felicidade no universo das palavras.



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Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e produtor cultural. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil. E-mail: jorgesanglard@yahoo.com.br

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