MN: Lalo, nós poetas somos meio/ muito estranhos. Talvez tenhamos intensidades outras, onde para outros olhos sobram indiferenças. Talvez, vice-versa. A obra dos estranhos contagia alguém, ou ficamos a trocar estranhezas entre nós mesmos? Acredita na poesia, ainda, como antídoto contra a indiferença, ou a Indiferença [com sua imensa Bocarra] já [es]tragou a própria poesia? Em tempos tão rápido-visuais, qual o lugar ocupado por nossa incontornável oralidade, senão de uma das peculiares sub-estranhezas da Grande Indiferença da Era Veloz? Estar atento a tudo que passa, por poucos minutos, é estar interessado, ou um suporte móvel pra nossa inquietação-que-nunca-assenta-nem-se-detém-em-nada?
LA: O poeta é ele mesmo criador e criatura – uma coisa estranhíssima. É um sujeito com dois corações. Um dos corações é medíocre, demasiadamente humano. E o outro coração tem ritmo único, apartado da espécie humana. Creio que o poeta seja um transformista, que se transmuta sem que ele mesmo perceba. É um ser inadequado por excelência, que vive em dois mundos, nunca está em um nem no outro. De um mundo ele rouba os elementos para construir o outro mundo. Há também uma certa possibilidade de que o poeta seja um herói às avessas, daqueles que travam batalhas secretas enquanto descansa, uma batalha tão íntima que possivelmente nunca será exposta. E se for exposta, talvez nunca seja completamente compreendida como batalha.
Não creio que a poesia seja antídoto para nada. Talvez seja um remédio singular, que mata e ressuscita, cotidianamente. Mas ele, o poeta, no íntimo, espera que esse remédio, que ele manipula e toma, seja também ingerido por todos. É a Vaidade flertando com a Indiferença. Você consegue vislumbrar dois mundos mais distintos?
E aí você me traz, abruptamente, o assunto do Tempo, o inimaginável. Mas, mesmo assim, nosso companheiro de sonhos e de vigília. O Tempo deveria ser considerado apenas como uma metáfora, ao menos para o poeta. Que ele, o tempo, tenha se tornado veloz, é uma ilusão. A vinda da web e de novas tecnologias de comunicação diminuiu ainda mais nossa compreensão para isto que chamamos de tempo. Essa nova velocidade é apenas aparente, e é aí que aparece o consolo para o poeta: a oralidade, o compasso, o ritmo do outro coração, a profundeza da alma sendo dita e redita, recitada, mesmo que em silêncio. E quando você me pergunta sobre a necessidade do poeta estar atento, eu não consigo melhores palavras, então cito o vate: “o poeta é a antena da raça”. Se você não estiver atento, sinto muito, terá perdido, literalmente, o trem da História.
MN: Você é um bom ouvinte, ou a arte-de-dizer atrapalha a auscultação de outras vozes mais remotas?
LA: Ouvir é uma arte. Vamos envelhecendo e considerando cada vez mais essa arte. É sempre necessário ouvir, auscultar o coração do outro, perceber seu fôlego, sua voz e sua mudez. Mas é dificultoso. Tenho relido pausadamente alguns poetas que me acompanharam na juventude: o Drummond, o Pessoa, o Gullar. Hoje percebo muito mais o que eles não quiseram dizer do que aquilo que disseram, são pausas e silêncios extraordinários. Conseguir ouvir o entrefôlego do outro é um aprendizado. Tenho também tentado acompanhar os novos poetas pela web, são tantos e, muitos deles, excelentes. Mas tenho dificuldade de concentração, então preciso voltar e voltar a eles para alcançar a essência de cada um.
MN: O que é poesia, pra você, depois dos quarenta anos? Teu olhar para ela mudou? Poesia é um ensaio de Renascimento, é um segundo sopro, ou "deixemos de fazer poesia com esta pergunta, caro Novaes"?
LA: A Poesia e os poetas sempre foram e sempre serão assuntos para a minha poesia, são meus temas prediletos. Dizem que a poesia não serve pra nada, nem pra consolo. O que sei eu, mesmo com meu meio século e tantos anos de vida? Mas sinto que na maioria das vezes ela me traz um alívio, um alento. Tive oportunidades, tanto jovem quanto mais velho, de me sentir tão absolutamente perdido e exasperado até me lembrar que a poesia estava aqui, ao meu lado, sob qualquer condição, uma espécie de cão afetuoso e fiel que me acompanha e me guia. E também percebo que se algo mudou em relação à minha visão da poesia, não foi repentinamente, e que talvez meu entendimento de seu significado tenha apenas se aprofundado, aos pouquinhos, com o passar dos anos.
MN: A imagem do astronauta saindo da nave [talvez para fazer um reparo], tendo o Infinito por moldura, é o ápice da Vertigem e Agorafobia [o receio de vagar a esmo, sem termo, sem ponto de apoio, até o natural definhar da vida]. Você traz todas as conotações/ colorações para o silêncio de uma casa vazia. A solidão é nossa forma mais corriqueira de roçar [-e-fugir] do Infinito? Com o passar dos anos e o correr da vida, descobriu outras formas "menos vertiginosas de roçar o Sem-Fim"?
LA: O que é o viver senão uma sucessão de vertigens? Tenho o cinema – essa arte vertiginosa – como tema para alguns dos meus textos. Nesse poema, “o astronauta”, trago algumas sensações que tive dos filmes 2001, do Kubrick, e de Solaris, do Tarkovski: o infinito como alegoria da solidão do homem e também como guia para alcançar o entendimento dessa questão que é a aventura humana; uma ingênua tentativa de dar explicação para esse descompasso que é fazer parte e, ao mesmo tempo, de nos sentirmos constantemente separados da espécie e do espaço aos quais pertencemos. Mas não há conclusão, caro Marcelo. Quanto mais o tempo passa, menos compreendo o que representa este lugar que chamamos de Vida.
MN: No seu poema "eu e meu último cigarro" eu senti o balouçar das ondas [o verbo é este, por nostálgico que soa]. Perder vícios pelo caminho deixa saudades? Ampliando a pergunta, sabemos que bocas, becos, bares e botecos são boas universidades de artistas. Esse percurso te soa familiar? Como foi "o poeta alucinado Lalo", nas ruas de São Paulo: o poeta da primeira metade da vida?
LA: Esse poema, “eu e meu último cigarro”, é uma divagação - talvez como tudo aquilo que possa ser escrito em forma de poesia. É o sujeito a fumar seu último cigarro do maço. Ele sabe que terá que atravessar, talvez durante a madrugada, um universo inteiro para comprar uma outra carteira. Mas divaga, e aproveita seu último cigarro. E trafega. O tempo e a fumaça do tempo são seus aliados. E ele tem a maravilhosa e dolorida oportunidade de vislumbrar suas obsessões. Pode estar em Havana no ano de 1959, em Pequim em 1911; pode reencontrar seus velhos amigos que partiram e também tocar os poetas que habitam seu coração; pode até trazer para aquele momento os destroços das lembranças das mulheres que amou. É tanta realidade e é tanta ilusão... Essa é a dor do poeta, e também sua redenção. Seu maior vício é o uso da memória, e ela se desfaz, continuamente, como a fumaça de um último cigarro. É exatamente como você me sugere: o balouçar das ondas, as vagas ondas da lembrança e do esquecimento; aquilo que, relembrando e esquecendo, lhe traz o prazer e lhe traz também a dor.
Nunca consegui, ou não quis, abrir mão dos meus vícios. O que fiz foi depurá-los. Deixá-los mais desnecessários. Usá-los menos. E não sinto saudades do garoto Lalo, ele ainda está aqui. Trago todas as idades pelas quais passei dentro da idade que tenho hoje. Carrego também o Lalo alucinado da São Paulo dos anos 1960/70. Na realidade, os tempos é que eram alucinados. Um cara que nasce 10 anos após o final da 2ª Guerra; que aos 10 anos de idade vive num país sob o comando absurdo dos generais, coisa que ainda não compreenderia totalmente naquele momento; que com quinze anos – em 1968, ano do AI-5 – descobre os milicos mostrando realmente a quê vieram; os mestres desaparecendo, os irmãos mais velhos dos amigos partindo para o exílio: o que ele vê à sua volta é um mundo de desolação e destruição. Só resta mesmo a rebeldia. Se é perigoso usar cabelos longos, usaremos cabelos longos. Imagine você que até o modelo de calça que usavámos era vigiada. Os milicos nos paravam nas ruas e faziam o teste da laranja, aquele teste pelo qual nos introduziam uma laranja pelo cós da calça e se ela não descesse até o chão estaríamos em apuros. Se as calças eram justas demais, éramos encaminhados à delegacia, enquadrados por vadiagem e nos davam um prazo para cortar os cabelos e nos apresentarmos à delegacia “devidamente” trajados e com a carteira de trabalho “devidamente” preenchida por um empregador. E nós tínhamos 15, 16, 17 anos de idade. Os militares (ou quem quer que seja que sustentava aquela maluquice) tinham medo de rapagotes de 16 anos de idade? Quem não alucinaria? Eram os tempos das experimentações lisérgicas, do LSD, de Jimi Hendrix e The Who. Líamos Castañeda, buscávamos uma outra realidade, mas era impossível alcançá-la. Não havia para onde ir. As ruas eram estreitamente vigiadas, então íamos para o bar, nosso santuário. Era lá que trocávamos confidências, recebiamos notícias das pessoas desaparecidas, conhecíamos a mulher com quem nos casaríamos, e onde cantávamos as músicas proibidas. Era o lugar onde se reuniam os melhores amigos, onde destilávamos nossas emoções e ensaiávamos uma espécie de resistência mesmo que moral, mesmo que existencial. O bar era nossa universidade da vida. Com o tempo, esse lugar foi tomando uma forma diversa, os amigos se dispersando e os tempos de abertura democrática chegando. Mas foram esses anos do final dos 1960 e dos 70`s de uma incalculável riqueza cultural. Apesar da ditadura, havia uma obstinação em criar, ousar e romper com as estruturas tradicionais. Foi um período muito enriquecedor, apesar de dolorido. Foi nesse tempo, nesse ambiente, que eu dei meus primeiros passos em direção à poesia. Quando me chegou às mãos o exemplar do Poema Sujo do Gullar, escrito em 1975 em seu exílio na Argentina, eu já tinha plena certeza que seria poeta para o resto da vida.
MN: Na escrita [talvez na vida], tem horas que você sabe, tem horas que você não sabe rezar. É um movimento pendular [como o balouçar das ondas do navio]. Como é este aprendizado? Qual a relação entre a oração e a poesia para Lalo Arias?
LA: Na correspondência (essa maneira epistolar de manter laços de amizade, coisa já tão esquecida...) que mantenho com a Nydia Bonetti eu falo, num certo momento, desse meu desejo de inserir na minha poesia um ritmo de oração, com uma tentativa de sacralizar o cotidiano, a pequenez da condição humana tranformada em algo sagrado, mais próximo do sublime. Mas tenho minhas dúvidas que tenha alcançado isso. Dado à minha dispersão e à dificuldade de concentração que possuo, certos desejos literários vão desaparecendo ou, então, será necessário firmar projetos específicos para que eu possa pelo menos tentar atingir essa intenção. Mas ouso repetir: “eu que sequer sei rezar”...
MN: Quando leio teus textos, me vêm à mente "os prosadores das paisagens áridas" [sobretudo humanas]: William Faulkner, John Steinbeck e Cormac McCarthy. Você pode me dizer algo a respeito dessa minha associação, ou isso eu devo trabalhar com meu analista?
LA: Você está absolutamente certo, Marcelo, não é necessário levar este assunto ao seu analista... As paisagens áridas e a maneira como esses três escritores tocam na essência do desespero humano me atingem de forma extrema. Não há, em muitos dos textos desses autores, nada que traga algum alívio para a condição humana. Não há descanso para quem caminha pelo desfiladeiro da miséria, com a morte sempre à espreita, com a desolação e a falta de perspectivas. Se você reparar, esses três autores, em algum momento, trazem a figura de um personagem idiota a nortear todo o argumento, e aí a incompreensão da própria condição humana atinge seu ápice. Esses autores possuem obras impregnadas de lirismo mesmo quando tratam de temas tão devastadores. Em meu livro “Cartas para Naíma” procuro me aproveitar um pouco dessa instância literária: a devastação emocional e existencial associada ao lirismo – mesmo que, talvez de modo proposital, com um lirismo contido.
MN: Combustão é outra palavra que me vem, ao te ler. "As cores comburindo". E não penso só nas torres gêmeas e nas metamorfoses imagéticas daquelas colunas de fumaça, negras, negras. Penso no processo mitocondrial da vida, quais fôssemos fornalhas ou alambiques vivos [e também somos]. No entanto, formalmente, teu lirismo poderia ser considerado até relativamente contido. De onde eu tiro este fogo? Das tuas páginas, ou dos meus olhos? Talvez do encontro de ambos?
LA: Você cita o poema “11 de Setembro” de Cartas para Naíma - esse meu livro está totalmente impregnado de destruição. É o relato, através de cartas (ou seria o diário de um suicida?), de uma degradação psicológica. A partir do momento em que o personagem-narrador se desintegra emocionalmente, tudo ao seu redor também se desintegra. Num momento, na sua imaginação, ele volta ao ser primevo, isolado em sua caverna olhando para a sua fogueira, é lá que ele assa seu alimento. Noutro momento imagina um mundo em guerra permanente. É seu desespero sendo contaminado pelo crepitar da incessante batalha que o cerca – e vice-versa. Esse personagem acredita acompanhar momentos históricos a partir da vidraça de seu apartamento: o 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, o 11 de setembro de 1973 em Santiago do Chile. A pilha de crianças negras incineradas na Nigéria é uma alusão à mortandade lá ocorrida nesta década. Compreende ele, num lampejo, o sentido da vida e da morte. Mas do rescaldo desse incêndio de vida e de morte resta a sopa primordial - ou seja, a ilusão do renascimento da sua própria espécie. E se o lirismo desses poemas é contido, é por conta do estado mental do eu-lírico. Eu não conseguiria imaginar um sujeito naquela situação, adentrando na loucura, tendo arroubos de lirismo. É como se os sentimentos humanos estivessem sendo alijados da vida do personagem-narrador. Então a dor é contida, o desespero é contido, e seu timbre é contido, controlado. Talvez haja ali uma tentativa de iludir a loucura, quando é criado um ambiente onde a contenção esbarra o tempo todo na dispersão.
MN: Quando o poeta se encontra consigo? Ao fim da obra, ou no caminho? Dado este encontro, surgem as melhores obras ou o silêncio?
LA: É bem provável que o poeta se encontre no caminho, ou a caminho do final de sua obra. Mas, pensando melhor, o poeta encontra consigo mesmo é no silêncio, onde quer que os dois estejam, ele próprio e o silêncio. Agora surgiu outra pergunta a partir desta sua: onde encontrar o verdadeiro silêncio?
MN: Fale-me sobre os prazeres [e dores] de parir livros. Conte-me sobre estes filhos.
LA: Desde quase sempre eu pensava em editar um livro de poemas. Mas eu sentia que seria pretensioso demais ter como primeiro livro uma coletânea – essa maneira meio sem jeito e com feições de Frankenstein de nos mostrarmos ao mundo. Então fui adiando, por décadas, a edição do primeiro livro. Até que cometi um poema chamado “De Passagem”. Percebi, ao relê-lo, que havia mais palavras escondidas ali do que expostas. Então percebi o livro aparecendo, mostrando suas formas por trás daqueles poucos versos, e percebi a necessidade de ampliar aquela pequena fotografia um tanto desfocada – quem sabe eu pudesse assim enxergar outras paisagens através da ampliação. O livro Cartas para Naíma surgiu da mesma maneira, através e a partir de um só poema.
Não sei nomear que tipo de prazer e de dor surgem desse parto. Há uma necessidade sobrenatural de que o parto ocorra, apenas isto. Mas o maior trabalho não é escrever, o maior trabalho é jogar esse rebento ao mundo. Depois do livro escrito surgem as exigências das coisas práticas: as tratativas com as editoras, leiautes, revisões, pedidos de prefácio, redigir o texto das orelhas, os prazos, a produção das tardes e noites de autógrafos e as viagens para que estas aconteçam. É tudo muito cansativo e despropositado. A minha vontade era apenas escrever um livro... e quando fui ver já estava agindo como editor, diretor de arte, distribuidor, livreiro e marqueteiro. Filhos dão um trabalho dos diabos.
MN: Obrigado, Lalo.
LA: Marcelo, quero agradecer de coração a oportunidade. Espero ter alcançado, com minhas respostas, a altura de suas perguntas. Um grande abraço.
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Lalo Arias nasceu em São Paulo em 1953, é jornalista e atua na área de edição de arte. É autor do livro Cidade Desaparecida (Editora Scortecci, 2010, poesia). Tem 5 livros de poesia publicados na internet que podem ser lidos através dos links à disposição em seu blog:www.laloarias.blogspot.com Email: laloarias@uol.com.br
Marcelo Novaes nasceu em São Paulo, em 1961. Considera-se um psicanalista que escreve. Estudou música: Violão clássico e teoria musical. Publicou Cidade de Atys (Ateliê Editorial,1998). Tem um blog de poesia e outro de prosa poética, ambos já concluídos, segundo sua ideia de quatro anos atrás de fazer blogs finitos. Tem um blog-ensaio sobre ferimento narcísico e proscrição: O Olho Que Nos Olha Nos Olhos, a ser concluído em novembro deste ano. Não pretende mais publicar livros, pois está satisfeito com a escrita digital. Também colabora com a Revista Corsário. Blog de poesia: http://olugarqueimporta.blogspot.com.br/. E-mail: marcelodenovaes@gmail.com