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16/07/2012 23:29:00
Carnavália de Gabriel Pardal



Por Daniel Corrêa



                      Livro: Carnavália - Gabriel Pardal - Editora Oito e Meio - RJ


Daniel Corrêa -
Oi, Pardal. Eu te conheço há um certo tempo, mas para quem não te conhece, acho que vale a pena você dizer como surgiu a ideia de escrever o livro Carnavália.

Gabriel Pardal - Mas será que eu conto tudo? Porque é uma história tão longa, e tem uma versão que é um pouco complicada, tem uma versão que é radical e tem a versão bonitinha que poderia dar num outro livro. Mas a verdade é que o germe desse livro foi instalado em mim quando eu tinha uns dezesseis anos e estava no auge da minha descoberta da literatura e das artes em geral, e estava vivendo aquilo que quando jovem a gente pensa que a arte pode mudar o mundo, enfim, eu estava ouvindo muito Bob Dylan, e só pensava e prestava atenção em projetos culturais que tinham um certo comprometimento com a sociedade, com a realidade do mundo e tal. Eu acho que tô começando a contar a versão longa e complicada (risos).

DC - Não tem a história de que você se formou na faculdade e fez uma antimonografia?

GP - Sim, pois é. Fui fazer faculdade de Comunicação Social com especialização em Publicidade e Propaganda. No meio do curso eu tinha feito uma viagem para acampar e tive umas experiências e no meio do mato eu percebi que não estava estudando o que queria. Quando voltei pra Salvador continuei na faculdade mas com uma postura completamente diferente. Estava estudando publicidade para justamente fazer tudo ao contrário. Cada dica de como criar um plano de marketing para um produto eu usava ao contrário. Até que chegou o final do curso em que a gente tem que fazer uma monografia e tal, e quis escrever um texto que ia contra o mercado e a sociedade consumista, em especial, à indústria cultural. Essa monografia, ou antimonografia, foi o princípio do Carnavália.

DC - Aí você viajou novamente.

GP - E nessa segunda viagem, que foi no carnaval, eu comecei a formatar melhor o conceito, a narração do livro. Pensava em contar a história de um país que acabasse no carnaval. Seria um livro fragmentado, com discursos poéticos à respeito da mercantilização do mundo e de como as pessoas cegamente vão se transformando em produtos de si mesmas. Foi nessa viagem que eu cheguei no Rio e por aqui fiquei. Entre outros motivos, eu também fiquei porque senti que era aqui que esse livro deveria tomar forma.

DC - No livro você elabora mais de cem reflexões à respeito da sociedade de consumo. São reflexões, em geral, poéticas, às vezes dramáticas e outras bem humoradas. Porque a escolha do humor no texto?

GP - A resposta mais óbvia é que eu vejo as coisas com uma certo viés cômico. Então como o desafio que eu me propus foi ter o máximo de reflexões possíveis sobre esse tema, é claro que muitos dessas reflexões acabaram saindo assim. O livro todo é uma grande pergunta: por quê e pra quê comprar?

Questionar a busca incansável das pessoas por notoriedade e fama. A busca pelo sucesso. O que hoje nos faz pertencente à sociedade? Redes sociais, shopping centers, indústria cultural, quais testes fazer para ser aceito em seu círculo social, e qual o fim de quem escolhe pela exclusão disso daí?

DC - Por que Carnavália?

GP - É a brincadeira com o nome. Carne aval. Carne navalha. Carne valia. E porque eu sou baiano e curto muito o carnaval. Já corri e ainda corro muito atrás do trio elétrico.

DC - O livro foi publicado em 2011. Levou muito tempo escrevendo?

GP - Sem contar aquela história dos dezesseis anos, eu comecei a escrever com uns vinte e dois anos e terminei a última versão, a que foi publicada, com vinte e sete. Então foram cinco anos mergulhado nesse tema, sem escrever nada mais que não fosse desse universo. Foi muito cansativo. Eu senti que o livro tinha terminado quando eu não conseguia pensar em mais nada sobre ele.

DC - Você acha que a poesia, ou até a literatura, tem algum poder para criar uma discussão como essa nos dias de hoje?

GP - Eu não sei. Quer dizer, de certa forma eu escrevi esse livro para saber se isso é possível, e também porque é a ferramenta que eu tenho para poder me expressar e discutir o que estiver na minha cabeça. É claro que podemos pensar que a poesia é irrelevante como atividade crítica cultural em 2012. Poesia não encontra valor no sistema capitalista. O desafio está com os escritores. É preciso escrever um livro que seja mais viciante que o crack, mais sedutor que mulher pelada e mais necessário que dinheiro (risos). Eu estou afim dessa discussão.

DC - Você fez alguns vídeos e performances com trechos do livro. Foi estratégia publicitária?

GP - Não (risos). Até a anti publicidade é uma publicidade, não é mesmo? Mas os vídeos foram feitos antes de ter a certeza de que publicaria. É que foi assim, durante a composição eu fui mudando o projeto do que estava escrevendo. Teve uma hora que eu pensava que não era mais livro, que seria teatro, depois pensei que seria um filme, depois pensei que seria livro novamente, aí pensei que seria artes plásticas, então pensei que seria um site na internet, fui mudando de planos sobre o que estava escrevendo até que fechou como livro novamente.

DC - Eu vejo algumas coisas de teatro e cinema ali.

GP - Sim. Têm trechos que são monólogos, outros que são diálogos para serem filmados, outros que são mais como esquetes cômicas pra televisão.

DC - É como se você tivesse criado um mundo onde existe tudo aquilo escrito no livro.

GP - Exatamente. O país acabou e o que sobrou foi propaganda.

DC - Qual é o seu trecho favorito?

GP - Muito difícil escolher isso aí, cara.

DC - Mas tem algum que tenha alguma história especial?

GP - Tem um trecho que tem a personagem Juliana do telemarketing. Aí eu estava fazendo uma leitura do livro em Porto Alegre, e li esse texto. No final da leitura fui pegar uma cerveja no bar e uma menina chegou pra mim e disse que ela era a Juliana do telemarketing. No início eu achei que ela estivesse brincando, mas era verdade, ela se chamava Juliana e trabalhava no telemarketing. Ela estava toda encabulada com a história e sei lá, acho que eu fiquei mais encabulado que ela. Tem que ler o texto pra saber o que tô falando.

DC - Eu gosto muito daquele do patrão e do funcionário em que você cria duas versões para a mesma história, inclusive uma é em prosa e a outra em verso. Aquele texto do Neil Armstrong também é muito bonito.

GP - Essa do Neil Amstrong eu escrevi de uma só vez e foi como ficou. Na maior parte das vezes eu não reescrevi nada. E escrevia tudo à mão. O Carnavália foi escrito 95% em cadernos que eu mesmo faço, porque não consigo escrever em cadernos bonitos. Escrevia à mão depois passava pro computador e aí podia acontecer de reescrever e tal. Foi praticamente todo escrito em viagens de ônibus, em aulas, bares, lanchonetes, livrarias, na rua. Escutando muito Dylan, Tom Zé, Mundo Livre S/A, Pink Floyd, Raul Seixas, essa rapazeada.

DC - No seu portfólio, entre vídeos, filmes, zines e do seu livro a impressão que tive é que você se preocupa com os limites da literatura e se interessa em burlar ou avançar esses limites.

GP - Sim, também, mas sobretudo pensando em avançar os limites da literatura na própria literatura. Nem que pra isso eu falhe algumas vezes, ou muitas vezes, ou todas as vezes. Acho que hoje em dia o melhor comprometimento que um autor pode ter é de se arriscar ao erro.





                                                  * * *
 

Daniel Corrêa nasceu em Porto Alegre mas vive no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Trabalhou para o portal UOL e para o jornal O Globo. Atualmente está focado na conclusão de um livro de poemas, Quase, de uma novela, Complexo de tornado, e em cuidar de sua filha Amélia. E-mail: corredaniel0@yahoo.com.br

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