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24/9/2005 01:03:00
Roteiro da Bienal do Livro



Por Mayrant Gallo






             Mayrant Gallo, por Rafael Rodrigues






Sábado, 3 de setembro, depois de meia hora tentando entrar no Centro de Convenções, chego com minha esposa e uma amiga à Bienal do Livro. Nosso objetivo é um só: livros. Temos alguns em mente e esperamos encontrar outros que nos seduzam. Os eventos do dia, encontros com escritores e recitais poéticos, não nos atraem tanto. Mesmo assim, no Café Literário, a conversa com Luiz Vilela promete, e pretendemos aparecer para conferir.

O primeiro estande que visitamos é um especializado em livros de arte. Representa a Taschen e a CosacNaify. Entre os livros desta há alguns títulos de literatura, mas não O inédito de Kafka; e de Marçal Aquino só há um único exemplar do Família terrivelmente felizes. E ele é um dos convidados do Café Literário. Seguimos em frente e, conforme avançamos, percebemos a profusão de livros infanto-juvenis, e de brinquedos, miniaturas, jogos, bibelôs... Ora, não é uma Bienal de Livros? É o que dizem...

O estande seguinte afasta esta primeira impressão de logro e desorganização. É a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com livros relevantes, bonitos e baratos. A coleção Aplauso, dedicada à memória do cinema e da tevê no Brasil impressiona por sua abrangência e preços generosos. Há ainda livros sobre literatura, educação, futebol, história, além de volumes destinados ao humor, como o antológico Piracicaba, 30 anos de humor. Fizemos a festa.

Em seguida, reencontramos o Enaldo, da Sur Livro, conhecido de duas bienais anteriores. Ele não nos parece muito animado e, de fato, dias depois, na segunda-feira, revela-nos sua insatisfação: "Esta Bienal mais parece uma feira, na próxima não virei mais", e nos aponta o estande em frente, abarrotado de livros infantis, brinquedos, jogos e outras quinquilharias. Ao que disse Enaldo deve-se acrescentar que as grandes editoras não compareceram ao evento, no máximo se fizeram representar por seus distribuidores. Uma das poucas exceções é a Record, mas quando lá estive e perguntei por dois livros (A borra de café, de Mario Benedetti, e Décimo inferno/Luna Caliente, de Mempo Giardinelli), disseram que não havia, e o atendimento foi tão bom que o vendedor me deu as costas. Não entendo de comércio não, mas, se estivesse na pele daquele vendedor, eu anotava o nome do cliente, seu telefone e os títulos dos livros e tentaria providenciá-los, porque de que vale uma Bienal do Livro se os títulos trazidos são os mesmos que encontramos em qualquer birosca livresca da cidade? Se vou à Bienal, é sobretudo em busca daqueles livros que não encontro por aqui ou de preços mais em conta para livros que meu salário de professor não me permite comprar...

Depois de alguns encontros fortuitos com escritores e amigos, retomamos nossa turnê. No estande da Editora Positivo, havia literatura brasileira a fartar e a preços tentadores: Graciliano Ramos, Machado de Assis e Herberto Sales a R$5 cada. Minha amiga comprou os dois volumes de Memórias do Cárcere, de Graciliano, e Meus poemas preferidos, de Bandeira, tudo por R$15. Os três novinhos, ainda cheirando a tinta. No estande da Brasiliense, editora cara a todos nós por suas publicações controversas durante os anos 80, em coleções como a Encanto Radical (pequenas biografias de personalidades tão díspares quanto Jesus Cristo, Cruz e Sousa, Pancho Villa e Ho Chi Minh) e a Circo das Letras (responsável pela divulgação entre nós das obras do norte-americano John Fante), nos reconciliamos com o sonho. Revimos Paulo Leminski e seus poemas-pílulas, Baudrillard e títulos como O que é romance policial, O que é zen e O que é ficção científica, livros sempre úteis quando aplicados aos jovens leitores. Quanto aos preços, eram de fato atraentes, bons.

A parada seguinte foi na LDM, representante de diversas editoras ausentes da Bienal. O que havia de melhor ali era uma estante com inúmeros títulos a R$2, R$3 e R$4. No meio do bolo, a edição esgotada de Os sete loucos, de Roberto Arlt, o genial O marcador de página, de Sigismund Krzyzanowski, e o clássico policial Um crime de encomenda. Mal deixamos a LDM, nossa amiga teve que partir, pois tinha compromisso e não poderia se estender. Restamos eu e minha esposa. Ela, embora já cansada, me acompanhou com toda a paciência do mundo a um estande de nome obscuro, Outlet, onde, por acaso, encontramos vários livros do nosso interesse e a preços bem convidativos: Pedro Páramo/Chão em chamas (Juan Rulfo), Mistério à americana 1 (antologia de contos policiais), Noturnos de Hollywood (James Ellroy), Noir americano (outra antologia de contos policiais), o clássico O estrangeiro (Albert Camus), A retomada (Alain Robbe-Grillet), A casa do pesadelo (contos de horror de Algernon Blackwood), além de duas coletâneas de poemas de Manoel de Barros; livros que em outras circunstâncias custariam R$320, mas pelos quais pagamos menos de um terço deste valor.

Nossa última parada foi no Café Literário. Luiz Vilela acabara de chegar. De imediato, estranhamos a ausência da poetisa Ângela Vilma, que nos tinha garantido aparecer, pois desejava não apenas ouvir o Vilela como conversar com ele, de tanto que aprecia seus contos. Vilela estava à vontade e, com bom humor, discorreu sobre as dificuldades de se publicar, especialmente quando jovem; sobre a repercussão que seus contos tiveram e ainda têm; e sobre o mal-estar que um de seus livros promoveu junto a alguns escritores consagrados, ao vencer um concurso literário em Brasília. Segundo Vilela, José Condé chegou a se referir à decisão do júri como uma molecagem... Mas o fato que mais nos impressionou foi: estando o escritor ali, diante do público e de outros autores, e falando de sua obra, que, é óbvio, haveria de despertar algum interesse, seu principal livro no momento (A cabeça, São Paulo: CosacNaify, 2002), que pensamos comprar e oferecer à ausente Ângela Vilma com o valoroso autógrafo do autor, ainda não havia chegado... Isso no segundo dia da Bienal e a 15 minutos de se encerrar a entrevista. Francamente! E depois reclamam que não há leitores! Pois bem, quando pode haver, não há livros. Ou será que os organizadores da Bienal acham que o autor "prescinde" o livro?

Deixamos a Bienal convencidos de que, em meio a tantos brinquedos, jogos, bibelôs e descasos, há muita esperança, só não para os livros.

(Correio da Bahia, domingo, 11 de setembro de 2005)



 

 

Mayrant Gallo é professor de teoria literária, poeta, contista, além de cronista do Correio da Bahia. Autor dos livros de contos "O inédito de Kafka" (2003, Cosac&Naify) e "Dizer adeus" (2005, Edições K) entre outros.

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