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22/1/2006 22:51:00
Entre fatos e letras



Por Ariadne Lima









 

Divididos entre a arte literária e a técnica jornalística, “jornalistas escritores” habitam as redações desde os primórdios da imprensa nacional.

 

 

 

 

“Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.” O poema “Traduzir-se”, do jornalista e escritor Ferreira Gullar, foi concebido em plena redação. Ainda que não tenha sido esse o objetivo do poeta, o trecho destacado é capaz de simbolizar a posição de tantos profissionais que, desde os tempos de Machado de Assis, povoam as redações. São jornalistas escritores (ou escritores jornalistas?) que se dividem entre a sobriedade do jornalismo e o delírio da literatura.

 

Olavo Bilac, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues, Roberto Drummond, Carlos Heitor Cony e Rui Castro são poucos dos muitos nomes que passaram (alguns permanecem) pelo jornalismo brasileiro. Desde quando surgiu no país, em 1808, o jornalismo agrega personalidades das letras. O auge dessa tendência pode-se dizer, começou quando os jornais mais pareciam antologias, carregados de nomes da literatura, coincidiu com a chegada do folhetim, em meados de 1840.

 

Mais de um século e meio depois, jornalismo e literatura têm divisão melhor definida, mas a convivência das funções em um mesmo profissional permanece. Assim como no jornalismo há diversos segmentos a escolher, a literatura apresenta uma vasta gama de estilos, direcionada aos mais variados públicos. Não é difícil encontrar jornalistas atuando em cada um deles.


 

No mundo da imaginação

 

Intercalar a estressante realidade da cobertura diária e o mágico universo infantil foi a opção da repórter do Diário da Tarde, em Belo Horizonte, Fátima de Oliveira. Eleita melhor repórter de cidades no Prêmio PQN de Ouro 2005, ela teve a primeira edição de seu livro, “Boni : um cachorro real”, esgotado em cinco meses. A história também teve uma edição em braile, doada às instituições que atendem portadores de deficiência visual, como o Centro de Apoio Pedagógico (CAP), da Prefeitura, e o Instituto São Rafael, ambos na capital mineira. Agora, Fátima se prepara para lançar a segunda edição, enquanto se divide na redação de duas outras histórias infantis e duas adultas. “Amo o factual, mas às vezes ele frustra muito. A literatura é um encontro consigo. Nela, você pode refletir o seu sentimento”, diz a escritora.

 

Em “Boni”, Fátima relata a saga das mulheres caminhantes da Estrada Real e apresenta a história do percurso. Nesse caso, porém, em uma linguagem totalmente voltada para os pequeninos. “Gosto muito de crianças, é um público muito verdadeiro e, como sou uma pessoa que também se revela muito, tenho grande identidade com eles”, diz ela que começou criando histórias em casa para os filhos.

 

Para o público adulto, a jornalista prepara um livro de prosa erótico e outro que aborda detalhes a respeito da Estrada Real. O livro vai compilar uma pesquisa baseada em 12 autores e narra os episódios vividos pelo grupo, além de incluir matérias já publicadas no Diário da Tarde.

 

O jornalista e professor do UNI-BH, Leonardo Cunha, também optou por escrever para crianças. Desde seu primeiro livro, “Pela estrada a fora”, em 1993, foram publicados outros 28 títulos, dos quais 26 são especialmente direcionados ao público infanto-juvenil. Para breve, estão previstos outros dois livros, ambos de poesia infantil: “Profissonhos”, pela Editora Planeta, e outro, sem nome definido, que sairá pela FTD.

 

No caso de Cunha, a convivência durante a infância com os mais de 10 mil livros colecionados pela mãe foi fundamental para a escolha da carreira literária. Hoje o acervo passa dos 20 mil. “Além disso, minha mãe era dona da livraria infanto-juvenil ‘Miguilim’ e, por isso, tive a oportunidade de conhecer vários escritores durante minha adolescência, como Orígenes Lessa, Sylvia Orthof, Bartolomeu Campos de Queirós, Elvira Vigna e Ana Maria Machado”, conta.

        

O professor está entre os que acreditam na troca de benefícios entre jornalismo e literatura. Para ele, “o jornalismo pede uma preocupação em ‘contar uma história’ que muitas vezes o ajuda a não se perder nos jogos expressivos e esquecer a trama, o que é essencial na literatura infantil”. Por outro lado, diz ele, “o jornalismo não precisa abrir mão da narrativa envolvente, sedutora e com bons personagens, elementos que a literatura ajuda aprimorar”.





         A Sedução da Janela - Eloíse Frota - Papel Jornal/Jornal - 48x42x5 cm - 1998



 

A neta do folhetim

 

Além do trabalho voltado para crianças (que rendeu a ele mais de uma dezena de prêmios), Leo Cunha publicou dois livros de crônicas. São coletâneas de textos originalmente publicados nos jornais mineiros O Tempo e Hoje em Dia. O mais recente, “Manual de desculpas esfarrapadas”, foi lançado em 2004 e bastante elogiado pela crítica.

 

A crônica é tida como uma espécie de “descendente” do folhetim, seção dos jornais que, em meados do século 19 e início do 20, reunia textos literários. Para muitos estudiosos ela é considerada um gênero híbrido entre jornalismo e literatura. Na opinião de Leo Cunha é nas crônicas que a convergência entre os dois campos é mais perceptível. “Crônicas opinativas e dissertativas costumam se aproximar mais do olhar jornalístico enquanto que as crônicas narrativas podem se aproximar de contos, mas sempre há pitadas dos dois, ao mesmo tempo”, observa.

 

Assim como Cunha, o editor de cultura e cronista do jornal Hoje em Dia, Roberto Mendonça, publicou uma antologia de crônicas no ano passado. O livro “Crônicas do fim do tempo”, que já teve a primeira edição esgotada, conseguiu reunir, nas palavras do próprio autor, “uma equipe de craques das artes”, com integrantes como Marcelo Xavier, responsável pelo projeto gráfico, e o desenhista Mário Vale.

 

Mendonça decidiu estudar jornalismo exatamente pela possibilidade de aprimorar a escrita e a leitura. Segundo ele, no contato diário com o texto, o jornalismo proporciona um treinamento privilegiado ao escritor. “O texto jornalístico e os temas de que trata estão menos distantes da literatura”. Ele também acredita em uma relação mútua e benéfica entre arte e técnica. “O leitor quer ler e precisa ser arrebatado pela leitura; para ele, pouco importa o que seja um lead. Quando escrevemos, devemos pensar na maneira mais objetiva e honesta de merecer a atenção desse leitor. É assim que cultivamos nosso estilo. O estilo é o resultado de um processo de fundição inexorável”, diz.

 

Segundo Mendonça, que também escreve para a revista Pão de Queijo Notícias (PQN), em 2006 deve sair seu próximo livro de crônicas, uma nova coletânea de textos publicados no jornal Hoje em Dia. “Também tenho um romance quase pronto, mas acho que vou cozinhá-lo no meu computador até o fim de 2006”, conta o escritor, que também pretende retornar às artes gráficas em breve, como ilustrador.


 

“Quem conta um conto...”

 

Foi com um livro de contos que o jornalista Petrônio Souza Gonçalves ingressou na literatura. “Memórias da casa velha” é um livro no qual o escritor narra típicas histórias do interior, relembrando sua infância em Belo Oriente, cidade do leste de Minas. “São contos pequenos, bem pequenos, mas que falam de coisas grandiosas para mim”, observa.

 

Com o livro, Petrônio conquistou o reconhecimento de nomes importantes do jornalismo e da literatura. Dentre outros, a edição traz depoimentos de Pinheiro Júnior, Rubem Braga, Millôr Fernandes, Ivan Alves Filho e Carlos Lindenberg. O prefácio ficou a cargo do já falecido escritor e ex-ministro Celso Brant e a apresentação foi de José Aparecido de Oliveira, ex-ministro da cultura. “Cheguei ao mundo literário tocando pessoas importantes, que sempre admirei e que agora são meus grandes e queridos amigos”, diz Petrônio.

 

Recentemente, Petrônio publicou seu mais novo livro; desta vez, de poemas: “Quando a curva faz a vida do rio”, que tem prefácio do jornalista e escritor José Maria Rabelo e texto de abertura do também jornalista e escritor Sebastião Nery.

 

Atualmente Petrônio faz matérias especiais para a Editora Abril e mantém uma coluna semanal em mais de 40 jornais brasileiros. Para ele, é importante conciliar as duas funções, jornalista e escritor. “Quero viver exercendo sempre o jornalismo com literatura e a literatura com um olhar jornalístico”, diz ele, que ainda divaga: “A literatura é a forma que Deus me deu para falar com Ele, estar próximo Dele e de suas coisas. O jornalismo é a forma que os homens me deram para falar com eles, estar próximo deles e de suas coisas”.

 

Também dividido entre jornalismo e literatura, o goiano Luiz de Aquino trabalhou durante anos em jornais e publicou 12 livros, tendo conquistado, em 1997, uma cadeira na Academia Goiana de Letras (AGL). Como jornalista, fez de tudo, foi de repórter a editor geral, passando pela fotografia. Trabalhou em vários jornais de seu estado, como Folha de Goiás, Cinco de Março, O Estado de Goiás, Gazeta de Goiás, O Sucesso, dentre outros. Atualmente publica crônicas as segundas e quartas-feiras no Diário da Manhã. “O jornalismo nunca estremeceu minha vocação literária”, diz o escritor. “Trabalhava entre 10 e 14 horas por dia, levantando matérias, fotografando, revelando, escrevendo, editando, e, à noite, fazia poemas”, relata.

 

“O cerco e outros casos”, primeira publicação de Aquino, recebeu em 2003 uma edição comemorativa pelo jubileu de prata de seu lançamento. O livro reúne 16 contos, que abordam assuntos que vão da pura ficção a fatos baseados nos jornais. “Quando o lancei, era o tempo da ditadura e eu construía histórias de modo a mostrar que a vida não era só ‘Brasil tricampeão’, nem ‘praias ensolaradas’", comenta.

 

Após o primeiro livro, Aquino publicou diversos outros - oito de poemas, um de contos, um de crônicas e um de entrevistas. O mais recente, “As uvas, teus mamilos tenros”, reúne poemas eróticos e foi lançado entre os meses de novembro e dezembro de 2005 em quatro cidades: Goiânia, Belo Horizonte, Araxá e Rio de Janeiro. Outro livro de crônicas está sendo preparado pelo autor, mas, segundo ele, “aguardará momento próprio para vir a lume”.



 

Um dedo de verso

 

Assim como o goiano Luiz de Aquino, o jornalista e professor do UNI-BH Fabrício Marques passeia pela prosa, mas tem com a poesia a relação mais marcante. Até mesmo seu único livro em prosa trata de poesia. No ensaio “Aço em Flor: a poesia de Paulo Leminski”, o escritor faz uma análise detalhada sobre a obra do poeta paranaense. Além disso, seu primeiro livro de poemas, “Samplers”, já veio ao mundo sob a luz do Prêmio Cultural de Literatura do Estado da Bahia. Após os dois primeiros, vieram “Meu pequeno fim”, de poemas, e o mais recente, “Dez Conversas”, que reúne entrevistas com grandes poetas brasileiros, como Affonso Ávila, Millôr Fernandes, Antônio Risério e Sebastião Nunes.

 

No jornalismo, Fabrício Marques atuou em jornais e revistas, como Diário da Tarde, O Tempo, e Palavra, além de trabalhar como free-lancer para a Folha de S.Paulo e no Estado de Minas. De janeiro de 2004 a fevereiro de 2005, o poeta teve a oportunidade de conciliar, mais intimamente, seus lados escritor e jornalista. Durante esse período, ele foi editor do Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG), tradicional publicação mineira voltada principalmente para a literatura, fundada por Murilo Rubião, em 1966. “Foi uma experiência enriquecedora”, diz o ex-editor do SLMG. “Teve o lado de jornalista, o de escritor e o de administrador”, complementa.

 

É de Marques o posfácio de “Pavios Curtos”, lançado em 2004 pelo jornalista e escritor José Aloise Bahia. “O livro sofre uma nítida influência da visualidade, sobretudo das artes plásticas, pois sou um pequeno colecionador. Ele também trabalha a poética das imagens e, como bem aponta Fabrício Marques no posfácio, avança sobre a questão da ética das imagens”, conta José Aloise Bahia.

        

Depois do primeiro livro, o jornalista se dedica a dois outros trabalhos. Um deles, que avança para o campo das artes plásticas, é a compilação de uma série de depoimentos dos alunos da primeira e segunda gerações do pintor brasileiro Guignard, que viveu no século passado. Segundo palavras do próprio escritor, “para ser lançado em um futuro não muito longínquo”. Ele prepara também um livro, em forma de dissertação, sobre o programa “Linha Direta”, da Rede Globo de Televisão. “Fiz uma análise da linguagem imagética e discursiva do programa”, explica Aloise.

 

Para o poeta, o jornalismo é uma escola objetiva e técnica para os escritores. “Chega um momento em que a gente se pergunta o porquê de não de poder ir além na linguagem e na forma”, diz. “O jornalismo é um trampolim para a vida literária, uma janela que desperta, na maioria das vezes, a vocação para a criação. A literatura é a dimensão e o reino da liberdade para o jornalista”, complementa o escritor.

 

O carioca e também poeta Bruno Cattoni tem 30 anos de jornalismo, metade deles na Rede Globo de Televisão, onde é editor de telejornais. Iniciou-se na poesia quase ao mesmo tempo que no jornalismo. Publicou cinco livros de poemas, sendo o mais recente “Osso: na cabeceira das avalanches”. Para ele, as experiências como jornalista e escritor se auxiliam. “A poesia permite ao jornalista identificar a realidade de maneira mais poética; e vice-versa”, diz.

 

“O jornalismo é muito fértil para o poeta”, comenta Cattoni. Segundo ele, as situações pitorescas que o jornalista vive no dia-a-dia podem fomentar sua produção poética e contribuir para que o escritor aprenda a direcionar melhor suas idéias, a denunciar crimes, a defender as minorias e a apresentar temas de ordem ética e humana. “O jornalismo pode mudar o mundo e a poesia também”, divaga.

 

Segundo o poeta, a imposição dos grandes jornais por um jornalismo imediato e objetivo acaba abrindo espaço para que surjam recursos alternativos para a prática de um jornalismo mesclado à literatura. “Um bom exemplo é o Suplemento Literário de Minas Gerais, que tem mostrado um ótimo trabalho neste sentido”, observa.


 

Os “idiotas da objetividade”

 

Nelson Rodrigues foi defensor entusiasmado de um jornalismo escrito com a paixão da literatura. Crítico voraz do trabalho dos copidesques (a quem se referia como “os idiotas da objetividade”) era adepto do uso excessivo de adjetivos e exclamações. Como escritor, sua obra não se resumiu aos livros; ganhou os teatros brasileiros, transformando Nelson Rodrigues em um ícone da dramaturgia nacional.

 

A exemplo de Nelson, alguns jornalistas tornam-se não apenas representantes da literatura, mas escritores das artes dramáticas. Em outros casos, faz-se o caminho inverso, quando as páginas dos livros ganham os palcos ou as telas de cinema. Foi o que aconteceu com o jornalista e escritor mineiro Carlos Herculano Lopes, que em 1996 viu seu livro “Sombras de Julho” ser adaptado ao cinema. O autor também redigiu o romance que, em 2004, deu forma ao filme “O vestido”, inspirado no poema “Caso do Vestido”, de Carlos Drummond de Andrade. O filme “O invasor”, por sua vez, se originou do texto literário do jornalista e escritor Marçal Aquino, embora tenha sido lançado em 2001, antes do livro homônimo.

 

A jornalista campineira Ana Lúcia Vasconcelos também sempre teve uma forte relação com o teatro. Como atriz, atuou em programas da TV Cultura, participou de espetáculos premiados, fez turnês por várias capitais e trabalhou com profissionais como Eva Wilma e Cleide Yáconis. Em 1968, Ana Lúcia ganhou o Prêmio de Atriz Revelação, da Associação de Críticos do Estado de São Paulo, e foi indicada para o Prêmio Molière de Teatro. Hoje, aos 60 anos, ela deixou os palcos, mas não o interesse pela dramaturgia. Está escrevendo três peças e tem prontas a adaptação da novela “Kadosh”, de Hilda Hilst, e outros três textos direcionados ao público infantil. “Infelizmente todas estão inéditas porque ainda não consegui um grupo para montá-las”, conta.

 

Com uma sólida formação artística e cultural, no jornalismo, Ana Lúcia sempre cobriu arte, cultura e comportamento. Trabalhou como free-lancer para veículos como O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo, Fatos e Fotos, Gazeta Mercantil, Jornal da Tarde, Ele e Ela, Última Hora, Isto é e revista Manchete, dentre muitos outros. “Hoje não me vejo mais trabalhando em uma redação”, diz ela, que atualmente mantém dois blogs e um site no ar para publicar suas matérias.


 

O jornalismo literário

 

Quem visita as páginas de Ana Lúcia na internet (uma delas no www.saldaterraluzdomundo.blogger.com.br), logo percebe sua estreita relação com a escritora e poeta Hilda Hilst. É relacionado a ela, inclusive, o principal trabalho no qual a jornalista está atualmente envolvida: um livro sobre a escritora, ainda sem previsão de lançamento. Durante anos, Ana Lúcia conviveu com Hilda, de quem foi amiga e com quem fez várias entrevistas. A escritora chegou a presentear a amiga com os originais de “O caderno rosa de Lori Lamby”, um de seus mais famosos e polêmicos livros.

 

“Vou contar minha vivência com Hilda na Casa do Sol e com os amigos que a freqüentavam, e, ainda, conduzir o leitor para dentro da Casa e para dentro de sua obra”, diz a jornalista, que vai incluir no livro entrevistas feitas não apenas com Hilda, mas com atores e diretores que fizeram espetáculos baseados em seus romances. “Eu faço, na verdade, uma tentativa de ajudar o leitor a lê-la, decodificando seu processo criativo e falando como ela criava seus livros, considerados difíceis, intrincados, herméticos”, complementa.

 

Ana Lúcia pratica o que se pode chamar de “jornalismo literário”. Para alguns estudiosos, o termo define a prática de reportagens e ensaios jornalísticos a partir do uso de recursos literários de observação e redação. Pode ser aplicado em jornais e revistas, mas é mais comumente encontrado na forma de livro-reportagem. “Eu me considero apenas uma jornalista, não faço literatura, não faço ficção, faço jornalismo e uso para tal as técnicas jornalísticas de conseguir informação”, diz Ana Lúcia, que define: “Meu livro não é uma biografia, não é um ensaio crítico (já que não sou crítica literária); ele é um perfil, gênero jornalístico”.

 

Dos quatro livros lançados pelo jornalista mineiro Maurício Lara, dois podem ser considerados livros-reportagens. O primeiro, “Campanha de rua – a cobertura jornalística de uma eleição presidencial”, e o terceiro, “Com todas as letras – o estigma do câncer por quem enfrentou esse inimigo silencioso e cruel”. Lançado no princípio deste ano, “Com todas as letras” narra a experiência de Maurício como paciente de câncer, apresenta entrevistas com profissionais da oncologia, mostra uma pesquisa qualitativa sobre o tema, além de abordar a relação da sociedade com a doença.

 

“No livro-reportagem temos mais liberdade do que na cobertura diária”, diz o escritor, que em novembro publicou seu primeiro livro de ficção: “Em nome do bem”, no qual aborda as formas de relação com o poder e os bastidores da política. “Neste caso, pude fazer da realidade uma ficção, que é o que mais gosto de fazer”, comenta. Para ele, jornalismo e criatividade não são incompatíveis. “As técnicas jornalísticas ensinadas na faculdade não podem interferir na sensibilidade do aluno, nem podar a sua criatividade. Este é o grande desafio de um professor da área”, diz Maurício, que também dá aulas no curso de Comunicação da PUC Minas.


 

Viver de histórias

 

As dificuldades do mercado editorial brasileiro formam o principal empecilho para escritores, sejam jornalistas ou não. Maurício Lara lamenta o fato de não poder se dedicar exclusivamente a seus livros. “Viver de literatura, em um país de iletrados como o Brasil, é um sonho”, diz ele. “Conseguir uma editora é tarefa muito árdua. Se eu fosse narrar a busca de editoras para meus quatro livros, teria de contar quatro histórias diferentes”, desabafa.

 

A opinião de Maurício é comum a todos os que fazem parte ou tentam ingressar no universo literário. “Quantos vivem de literatura além dos gráficos, editores e comerciantes de livros?”, questiona o goiano Luiz de Aquino. O poeta Bruno Cattoni, embora também identifique as dificuldades do mercado editorial, observa a questão por outro ângulo. “Não se pode pensar em poesia nos termos de mercado”, diz ele. “A poesia é gesto, ato, instrumento de transformação e não um artigo de consumo”, complementa.

 

Mas, se as dificuldades são unânimes, entre jornalistas escritores (crias ou não da geração de Machado de Assis), também é unânime a satisfação em conciliar suas funções. Alívio aos leitores, que, nas bancas e nas livrarias, continuarão tendo acesso a boas histórias. Afinal, como bem disse Maurício Lara, “ser jornalista é isto: contar histórias”.


 

 

DICAS DE LEITURA:

 

Boni: um cachorro real

Fátima de Oliveira

60 páginas

Produção independente

2004

Edição esgotada

 

Manual de desculpas esfarrapadas

Leo Cunha

96 páginas

Editora FTD

2004

R$19,50

 

Crônicas do fim do tempo

Roberto Mendonça

146 páginas

Editora Manuscritos

2004

Edição esgotada

 

Dez conversas

Fabrício Marques

292 páginas

Editora Autêntica

2004

R$28,50

 

Pavios Curtos

José Aloise Bahia

100 páginas

Editora Anomelivros

2004

R$ 20

 

Em nome do bem

Maurício Lara

312 páginas

Editora Planeta

2005

R$35

 

Memórias da casa velha

Petrônio Gonçalves de Souza

28 páginas

Editora Europa

2004

R$ 20

 

As uvas, teus mamilos tenros

Luiz de Aquino

92 páginas

Editora Talento

2005

R$ 30

 

Osso: na cabeceira das avalanches

Bruno Cattoni

82 Páginas

Editora 7 Letras

2005

R$ 25

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ariadne Lima (Belo Horizonte/MG). Jornalista, poeta e estudiosa da relação entre jornalismo e literatura. Colabora regularmente com

a revista Pão de Queijo Notícias (PQN). Tem trabalhos publicados em outros veículos, como o Suplemento Literário de Minas Gerais.  E-mail: ariadnelima@Yahoo.com.br

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