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5/2/2006 00:30:00
Dossiê Índigo



Por Adrienne Myrtes





 

 


Era uma vez uma escritora de perfil

Índigo guarda seus diários da infância até hoje


Índigo antes de ser Índigo era Ana Cristina Ayer de Oliveira, nasceu em Campinas/SP, em 29/08/71, sob o signo de virgem e tem ascendente em aquário. Seu livro predileto é “olhos de gato” de Margaret Atwood, mas cita outros como: “Crime e castigo” de Dostoievski e “Lavoura arcaica” de Raduan Nassar. Tem como autores preferidos: Lígia Fagundes Telles, Machado de Assis, Monteiro Lobato, John Fante, Nick Hornby e Millôr Fernandes. Não ouve muita música, mas ultimamente tem ouvido Antonio Nóbrega. Sua cor preferida é rosa e sua casa atesta isso. A comida é esfiha aberta embora, quase sempre, faça a linha natureba. Odeia futebol e, depois de escrever, a coisa que mais gosta de fazer é jardinagem. As praias prediletas são: Juqueí e a Praia dos Aventureiros em Ilha Grande. Seu animal de estimação é uma gata, a Valentina. Julga-se metódica, racional e adora guardar coisas (guarda seus diários da infância até hoje) e, pasmem, não se chama Penélope nem nada, não o desfaz durante a noite, mas está fazendo um bordado há dez anos.


  

 

Diário, quinta-feira, dia de Júpiter

Não tomamos “gemada no lanche da tarde”, tomamos café com bolo de fubá recheado com goiabada.

“Evidentemente que eu não falo com um caderno, como você gostaria de acreditar. Sim, estou falando com você que veio até aqui futicar nas minhas coisas. Você sabe quem você é. Pois saiba que eu descobri e esta é minha vingança.” (Índigo)

Meu querido diário, hoje choveu a cântaros e eu havia marcado a conversa com Índigo. Foi assim. Armei a sombrinha a fui embora. Molhei toda a barra de minha calça, pois a água descia com força pela rua Purpurina. Índigo me recebeu com cheiro de incenso. A casa cheia de cor-de-rosa equilibrava-se em almofadas bordadas de miçangas e cortina de bonequinhas de borracha colorida. (Diário, ela tem uma Branca-de-neve na varanda do escritório). Não tomamos “gemada no lanche da tarde”, tomamos café com bolo de fubá recheado com goiabada. Conversamos. Já havíamos conversado outras vezes, mas agora era pra matéria e não poderíamos divagar muito porque, Diário, é impressionante como, sempre que conversamos o assunto tende a tomar rumos inexplicáveis. Transcendentes. Mas voltando à matéria, Índigo me falou de sua trajetória, de seu trabalho, sua vida enfim. Diário, querido, você não vai crer, mas não é que ela escreve diários desde criança? Ela também adora guardar coisas, tecer fios, tramar histórias. Parcas? Não! Muitas histórias, tem imaginação fértil. Eu poderia até supor que isso é coisa de quem não teve infância, mas ao contrário disso a infância dela foi bastante “intensa” e ela não sabe bem se por isso, tem os pés tão fincados na literatura infanto-juvenil. A conversa com Índigo entrou pela noite e até a Valentina, a gata de estimação dela, deu o ar de sua graça no final, embora tenha ficado meio de lado, apenas observando.

 

  

A incrível festa


No livro “Festa da mexerica” (Hedra, 2003) Índigo retoma a criatividade e o bom humor já explorados nos livros anteriores.





Encontrar um ET no quarto parece uma situação prosaica? E se o referido ET estiver folheando um livro de Moacyr Scliar? É logo no primeiro conto que Índigo no livro “Festa da Mexerica” (Hedra, 2003) diz a que veio. Reafirmando a criatividade e o bom humor já explorado nos livros anteriores, “Saga Animal” (Hedra, 2001) e “Caixinha de Madeira” (Altana, 2003) como marcas de seu texto, no “Festa da Mexerica” ela mescla o cotidiano de personagens comuns com situações exóticas como, por exemplo, o recurso da tradução inglês-portugês da conversa entre a personagem e o ET, no conto “ET de cozinha” que funciona como a azeitona na empada desse conto.

“Peguei o alienígena dentro do meu quarto, parado em frente à estante. Segurava um livro do Moacyr Scliar, “Contos Reunidos”. Um alienígena mesmo, braços finos, baixinho, olhão, cabeção, branquelo _ padrão básico. Virou-se para mim e franziu a testa.
_ Curte? Like him? _ Perguntou, levantando o livro.”

No conto “Marido acidental” a personagem está às voltas com a possibilidade de seu namorado, um tatuador que usa piercing e curte pegar onda, ter se transformado num marido. Nesse conto Índigo brinca, de maneira competente, com os esteriótipos do marido convencional e da mulher moderna que tentando fugir do padrão de casamento cai na armadilha de acreditar que enquanto seres humanos, podemos fugir dos “padrões” indefinidamente. O trecho no qual a personagem se defronta com o fato é bem bom.

“Eu aproveitaria o dia para arrumar o armário. Ele para assistir televisão. Até aí, também não vi problema algum. Eis que ouvi o grito.
_ Gooooooooooooooooooooool!
Ele assistia um jogo de futebol. Eu corri até a sala. Sim. Era futebol.
Parei em frente à televisão, atônita.
_ Ô lindinha, dá um pulo lá na padaria e traz mais seis cervejas pra mim, vai?
Alcancei a carteira, tomei o elevador, segui pela rua e parei no primeiro orelhão.
_ Ju, tem um marido no meu apartamento.”

Outros contos como “Muro marrom, portão cinza, gemada no lanche da tarde”, “Em memória do pequenino Shoyu” e “E se....”, têm o encanto dos contos infantis. Tratam de um universo mágico e lúdico próprio das crianças.

“Márjore morava numa casa de esquina, com muro marrom e portão cinza. Quando pequena os pais se mudaram para o exterior e deixaram-na com a avó. Até aí, tudo bem, ninguém estranhou, pois coisas muito mais estranhas havia naquela casa. [...] O pior mesmo era o homem. Não se sabia se o homem era parente. Seria fácil afirmar pelo típico nariz pontudo da família. O problema é que o homem nunca foi visto, muito menos o seu nariz. Ele morava no quarto no fundo do corredor, que estava sempre com a porta trancada. Sabia-se que ele voava. Até aí tudo bem, porque na casa de Márjore viviam alguns fantasmas.”

Mas é no conto “Uma breve história de amor carnal” que a autora leva a extremos sua capacidade de brincar com situações insólitas. É desse conto, também, as frases mais poéticas do livro.

“ O amor mais verdadeiro é este que se sente por um estranho. Soube que a ele eu pertencia mesmo antes de saber seu nome.”

E ela vai por aí, nos iludindo quanto ao teor da narrativa.

“Não sei o que esperava de mim, talvez as palavras que eu nunca disse. Tantas frases prontas, diálogos ensaiados, todos censurados na sua presença. E dos versos que para ele compus, catas que lhe escrevi, nenhuma palavra ele conheceu.”

Mas logo em seguida vem a revelação do absurdo.

“Eu apenas esperava. Eu na fila, ele atrás do balcão. Agora só me resta escrever esta triste e breve história de amor que eu não vivi com o açougueiro do Carrefour.”

No último conto, “Meu querido diário”, nos surpreendemos invadindo um diário e aí ela nos aplica um xeque-mate conversando conosco e deixando claro que fomos “descobertos” enquanto invasores da privacidade alheia.

“Sim, estou falando com você que veio até aqui futicar nas minhas coisas. Você sabe quem é, pois saiba que eu o descobri e esta é minha vingança.”

Para em seguida comentar acerca da curiosidade humana.

“A parte que lhe interessa, eu sei muito bem, são meus sentimentos e estes estão espalhados pelos meus poros, eu os distribuo entre as unhas dos pés e o dente do siso. Você teria que me abraçar para entender...”

Porque no final, talvez, a nossa mais íntima intenção ao ler um livro seja invadir o “diário do escritor”, tentar extrair das entrelinhas os sentimentos dele. Abraça-lo de alguma forma.
É isso aí.
Um grande abraço pra você também.

 

 

 

  

Assunto para psicólogo


O livro Caixinha de madeira (Altana, 2003) de Índigo, trata da correspondência secreta entre as personagens Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida e traz à tona uma visão bem humorada da vida delas.


 



E
ra uma vez trës contos infantis.
Depois de aberta uma certa "Caixinha de Madeira" nunca mais a Cinderela, a Branca de Neve e a Bela Adormecida serão as mesmas.
O livro "Caixinha de Madeira" (Altana, 2003) de Índigo, trata da correspondência secreta entre essas três personagens dos contos de fadas e traz à tona outra visáo da vida delas. Com senso de humor apurado Índigo passeia pelas entrelinhas das histórias desvirtuando, entre outras coisas, o romantismo característico das mesmas, como no trecho da carta enviada para Branca de Neve por Talia, a Bela Adormecida.

"Que tipo de príncipe você acha que se interessaria por uma mulher adornecida há cem anos. Nada menos que um pervertido com um péssimo senso de humor.[...] E mesmo que este príncipe seja do gênero que me atrai, e este gênero como você sabe, é bastante vasto _ mesmo que haja esta feliz coincidência, peço que considere a minha aparência: o hálito, o comprimento das unhas, o estado do meu cabelo, o vestido já fora de moda, as grossas remelas nos olhos. Se este é o tal final feliz, eu dispenso. "

Talia, a Bela Adormecida, é apresentada como uma pessoa revoltada com sua maldição e disposta a tudo para evitá-la.
Annette, a Cinderela, após ter sido relegada à condição de serviçal, entregou-se a este destino e está em profunda decadência, esmerando-se em ser a pior das serviçais. Em carta enviada a Branca de Neve, ela lhe dá conselhos de como tratar os anões.

"Toda criada que se preze deve colocar o patrão no seu devido lugar. Eles estão sob o seu cuidado e nunca o contrário. Quanto mais disposta uma criada, mais seus patrões abusarão dela. Deve-se fechar a cara e resmungar a cada ordem dada. [...] O habito de balbuciar à toa tem por conseqüencia criar uma muralha intransponível ao seu redor. "

Branca de Neve a princípio, é mostrada como uma criatura sonhadora e um tanto aluada, que mesmo após expulsa do castelo e confinada à floresta, se mantém alegre e confiante no futuro.
Fala com pássaros e só escreve em versos. O final do livro guarda uma surpresa em torno de sua personalidade.

"Mesmo no meio do mato não perco a esperança.
Canto, enquanto limpo a casa.
Um príncipe que passeia ou caça,
fascinado por linda voz desconhecida
é atraído até meus braços.
Apaixona-se e propõe casamento,
fugimos daqui.
Ponho fim ao meu tormento!

Contigo não será diferente,
o príncipe vem e leva a gente.”

E não pára por aí. Ainda há espaço para especulações femininas (coisa impensável nos tais contos). Talia faz a seguinte observação numa carta para Annette:

"... e nos leva a um terceiro problema. Talvez um eterno problema: Homens! Não homens no sentido de humanos, mas homens como opostos de mulheres, [...] E aqui me corrijo quando digo que por serem homens, são nossos opostos. Talvez melhor seria se fossem nossos complementos. Não, retiro essa última afirmação, pois classificá-los como complementos implica que estamos incompletas sem eles, o que seria uma maneira perigosa de enxergá-los. "

É dessa forma, com humor e perspicácia que Índigo trata as três personagens e vai esmiuçando curiosidades da "alma feminina".
Depois desse livro, deixo a cargo dos psicólogos de plantão a invenção de mais uma síndrome feminina (essa bem saudável) a síndrome de Índigo.



 

 

 

Primeira entrevista com a escritora Índigo

Ou de como a incrível história de vida de um tatu-bola deixou de ser escrita



Percebi então que o tatu-bola era mil vezes melhor que qualquer coisa que tinha acontecido no meu dia
Comecei a escrever num domingo. Aos onze anos de idade ganhei um diário cor de rosa com cadeado. Comecei com "meu querido diário". Fiz meu primeiro registro sentada no degrau da escada, no quintal de casa e observava as formigas que passavam por ali. Havia também um tatu-bola. Percebi então que o tatu-bola era mil vezes melhor que qualquer coisa que tinha acontecido no meu dia. Mas eu achava que não podia escrever sobre ele. Aquele diário era para ser a respeito da MINHA vida e não sobre a vida de um tatu-bola. Assim, escrevi um relato do meu dia. Um texto bem sem graça, mas pelo menos eu tinha feito a coisa certa. Não sucumbi ao tatu-bola. Nunca mais parei de escrever. Mantenho um diário até hoje. Agora sim, mais sobre insetos e menos sobre meus dias.

“Brumas de Avalon” foi um dos livros mais importantes pra mim.. Eu o li numa época que estava decidindo o que fazer da vida. Estava em dúvida entre História ou Arqueologia. Acabei fazendo jornalismo, mas o passado sempre me fascinou, sendo que tenho uma paixão especial pela Idade Média. Eu queria viver dentro daquele livro.

Fiz jornalismo porque queria salvar o mundo. Mas algo aconteceu no meio do caminho. Nunca trabalhei como jornalista. Me aventurei um pouco na publicidade, mas também logo caí fora. Hoje vivo de frilas dos mais variados sabores.

Depois que o sol se põe eu não escrevo
Eu tenho uma rotina de escrita que funciona assim: acordo bem cedo, tomo café e vou para o computador, ainda de pijama e sem ter penteado o cabelo. Escrevo até 10:30, daí tomo banho, penteio o cabelo e volto a escrever até meio-dia. No entanto, depois do banho a escrita é mais de ajustes e desenvolvimento de textos escritos no dia anterior. Volto a escrever às 17h e vou até 19h. Depois que o sol se põe eu não escrevo.

O que dizer dos livros
"Saga Animal", meu livro de estréia, foi feito em cima de um narrador muito forte, o Ígor. Depois que eu descobri a voz dele a história foi se desenrolando de um jeito muito tranqüilo e divertido.

"Caixinha de Madeira" foi escrito cinco vezes, sendo que só com o que eu joguei fora dava para fazer outro livro. Eu nunca sofri tanto para escrever um livro. As personagens exigiam muita cautela. Eu saí na rua e lá estavam, em lancheiras, em almofadas, em bolo de aniversário. Cheguei a ficar intimidada, mas fui em frente. O que Walt Disney fez com essas personagens é vergonhoso. Elas não eram as idiotas que hoje aparentam ser. Aliás, acho que esse é o maior mérito do livro. Consegui dar voz às princesas. Não chega a ser uma obra feminista, mas de certa forma o livro tem um acerto de contas.

No começo eu achava que para fazer "Festa da Mexerica" era só pegar 13 contos do meu site e pronto. Mas não foi tão simples. Achava que alguns já tinham perdido prazo de validade, que era uma escrita antiga... Essas crises. Mas daí meu editor falou para eu parar de frescura, passar o texto e ir cuidar da vida.

Literatura Contemporânea: Talvez seja um surto
Pra mim, um dos maiores prazeres da leitura é descobrir novos autores bacanas. Ultimamente, com a superprodução literária eu tenho descoberto coisas ótimas. Apesar de preferir romances a livros de contos, acho que a nova literatura brasileira riquíssima. Os estilos são os mais diversos, por isso não acho que é um movimento. Talvez seja um surto. Faço questão também de divulgar novos autores, até para tirar a prova. Pego livros de colegas escritores e passo para meu pai, minha mãe, amigos de outras áreas, pessoas neutras. A não ser minha mãe que não se identificou com os Livros do Mal, as reações são as melhores possíveis.

Quem eu leio
Eu vou lendo de tudo sem a menor lógica. Agora estou lendo Joca Reiners Terron e Carlos Castaneda ao mesmo tempo. Nem deve fazer bem pra saúde.

Eu podia mostrar o texto sem mostrar a cara
Era o ano de 1997 e eu trabalhava com internet. Escrevia alguns contos, mas morria de vergonha. Mostrava só para amigos. Sou muito tímida para fazer fanzine e sair distribuindo. Mas a internet permite uma exibição controlada. Eu podia mostrar o texto sem mostrar a cara. Era a solução perfeita.

Mas isso é projeto para o futuro
Em 2002 eu herdei os diários do meu bisavô, João de Oliveira, nascido em 1896 e falecido em 1986. Tem um período em que nossos diários se intercalam. Ele escreveu até o último dia de vida e como eu comecei a escrever em 81, eu apareço no diário dele e ele no meu. Ele era militar, viajou pelo Brasil inteiro e tem relatos fantásticos. Era também um católico fervoroso. Tem um caderno dedicado às suas visões religiosas. Juntando os cadernos dele com os meus dá 108 anos de história. Mas isso é projeto para o futuro, para quando eu tiver mais idade. Daí a coisa fica mais polpuda.

Minha relação com o universo infantil fica cada vez mais forte
Quando eu terminei "Caixinha de Madeira" ganhei uma estátua da Branca de Neve. Ela está no meu jardim. Vi aquilo como uma lápide. Achava que com esse livro eu podia enterrar um tema que me perturbava há muitos anos. Mas não é tão simples assim. Minha relação com o universo infantil fica cada vez mais forte. Hoje, por exemplo, meu apartamento foi invadido por um menininhozinho do terceiro andar. Quando vi ele já estava aqui dentro. Outro dia, precisava saber se as meninas ainda jogam queimada na escola. Não pensei duas vezes, fui para uma escola aqui perto de casa. Esperei dar a hora da saída e segui duas meninas. E sobre o que elas conversavam? Sobre o jogo de queimada! É sério. Esse tipo de coisa acontece comigo. É karma.

Minha mãe já achava que eu era retardada mental
Minha infância foi pautada por viagens. Meu pai vivia sendo transferido de um país para outro. Quando finalmente aprendi a falar, aos 3 anos de idade, comecei falando alemão. Minha mãe já achava que eu era retardada mental. Fui alfabetizada na Inglaterra. Cheguei lá sem falar uma palavra em inglês. Mas foi bom porque me jogaram numa classe com um monte de inglesinhos e eu aprendi na marra, falar e escrever. Quando eu chegava em casa minha mãe me dava aulas de alfabetização em português.
Essa
temporada na Inglaterra foi ótima. Eu vivia numa rua sem saída. Havia uma casinha onde os meninos aprisionavam as meninas. Houve também um assassinato na rua, o marido matou a mulher. E como se isso não bastasse, lá pelas tantas minha mãe começou a desconfiar que nossa casa era assombrada. Então, sim: foi uma infância marcante. Gostaria de ter continuado nela.


Parênteses para uma pergunta idiota: (O que você achou de ser citada pelos escritores como revelação de 2003?)
Estou incrível até agora.




 

 

 

 

 

 

  

PERNAS PRA QUE TE QUERO?

 

 

“Eu sabia pouca coisa nesse dia. Sabia que toda lagarta, em algum ponto de sua vida, vai passar por uma metamorfose. Ela deixa de ter dezenas de perninhas, ganha duas asas coloridas e se transforma numa linda borboleta. Mas nessa manhã eu não queria ser linda e sair voando por aí. Eu trocaria duas lindas asas coloridas por dezenas de perninhas. É mais seguro.”

 

Com quantas pernas se faz uma adolescência? Ágata se sente perdida no limbo entre a infância e a adolescência. As referências antigas já não cabem em sua nova vida e as novas ela ainda não sabe onde procurar.

 

“Como uma lagarta que chega ao ponto de metamorfose, eu sabia que era hora de me enfiar num casulo, me dissolver numa sopa de DNA e me reorganizar, essa era minha situação. Com a única diferença que, no meu caso, não havia casulo onde eu pudesse me enfiar. Nesse primeiro dia de quinta séria eu me sentia como uma sopa e o futuro era incerto.”

 

No livro Perdendo Perninhas (Editora Hedra, 2006), Índigo fala dessa fase em que a pessoa não é mais criança, mas ainda não é adolescente. A personagem Ágata narra sua dificuldade em descobrir novos limites e assumir responsabilidades, representada pela mudança da quarta para a quinta série escolar.

 

“Em menos de cinco minutos eu estaria oficialmente no segundo ciclo e isto muda tudo na vida de uma pessoa, eu teria muitas professoras, uma para cada matéria e nenhuma  delas seria responsável pela nossa classe, em menos de cinco minutos ninguém mais seria responsável por nós, pois em menos de cinco minutos seríamos responsáveis por nós mesmas.”

 

Da mesma maneira que nos livros anteriores Saga Animal (Hedra), Festa da Mexerica (Hedra), Caixinha de Madeira (Altana) o tema é tratado com bom humor. A personagem Mirela, uma das amigas de Ágata, é o estereótipo da emergente da adolescência, desde o começo do livro é ela quem se preocupa em estabelecer as novas regras.

 

“No final da quarta série, quando estávamos mais para a quinta do que para a quarta, Mirela engatou uma ladainha que durou até o último dia de aula. Era a ladainha sobre os certos e errados das alunas da quinta série.[...]

Entre os itens a serem abandonados estavam: lancheiras, bonecas, tiaras na cabeça, capa de chuva, papel contact, cola líquida [...]

Dos itens a serem incorporados: fichário, estilete, chave de casa, cola de bastão...”

 

Da nova maneira de se relacionar com as amigas e do jogo de poder que surge, cria-se o ponto de tensão que permeia o livro. Ágata, por diversas vezes, é comandada pelo que acredita serem as novas regras e acaba negando solidariedade à melhor amiga, Cíntia.

 

“Toda classe virou-se para encarar minha melhor amiga, como se ela fosse a única culpada. Como se todos os outros tivessem passado esse breve intervalo de troca de professores sentados em suas carteiras, preparando-se para a aula seguinte, tive ódio de toda a classe, mas como eles, mantive os olhos em Cíntia.”

 

A dificuldade de lidar com o processo necessário ao crescimento, o aprendizado de que não há distância entre o bem e mal e de que o preço de cada escolha é lidar com seus demônios e deuses são tratados de maneira leve à medida que Ágata descobre os deuses nas aulas de religião e conversa com seu amigo imaginário, um demônio verde.

 

“A pergunta veio de uma criatura de pele verde, chifres na cabeça, rabo pontudo, olhos vermelhos, cavanhaque e bigodinho mexicano. Vestia terno e fumava cigarro cravo. Estava longe de ser um amiginho imaginário. Por dois motivos. Primeiro, porque eu não tinha mais idade para amiguinhos imaginários. Segundo porque quando eu os tive, eles nunca fumaram cigarro cravo.”

 

Em meio às mudanças Ágata aprende, junto com geografia e matemática, a respeito de valores, amizade e independência e descobre que as perninhas da lagarta já não garantem segurança numa fase em que se perde o chão.

 

“Ouvi a buzina de última chamada. Lembrei-me do primeiro dia de quinta série, quando escondida atrás da banca de jornal, passando frio, deixei que Mirela decidisse o que fazer com minha franja, com minha camiseta, com minha blusa de lã. Agora Mirela pouco se importava comigo. Eu pouco me importava com minha franja. Eu não me sentia mais como uma gosma de lagarta que deixou de ser lagarta e tem que se reorganizar numa sopa de DNA para virar borboleta. Eu havia finalmente me livrado daquele monte de perninhas. [...]

Desdobrei minhas novas asas coloridas e voei até a perua.”

 

 

 

3 Perguntas e Suas Respostas para Cronópios

Índigo - janeiro de 2006

 

 

Uma vez, brincando de voltar no tempo, percebi que, de todos os lugares, gostaria de voltar para o canto da quadra, na quinta série.

 

Gostaria de voltar para o Dom Barreto e passar por tudo aquilo novamente. No "Perdendo Perninhas" faço isso. Não sei se fui exatamente feliz naquela época. Mas o que existia era uma sensação de novidade e poder, como se o mundo inteiro tivesse existido até então somente para a nossa entrada em cena. Começávamos a expressar opiniões próprias e criar nossas verdades e mandamentos.  Enfim, adolescentes superpoderosas botando as asinhas de fora. Este é o tema do livro: a relação de poder entre quatro amigas.

 

O negócio era blog.

 

Desde 1997 mantenho um site, mas nos últimos dois anos me dei conta que ele vinha perdendo visitação. O negócio era blog. O problema é que eu tinha um tremendo bode contra blogs, que na minha visão era sinônimo de diário. Eu não queria manter um diário virtual. Até que um dia a Andréa Delfuego me telefonou dizendo que sonhou que eu tinha escrito um livro chamado "As 360 Obsessões da Senhorita Tupiniquim". Pronto. No mesmo dia comecei a escrever textos curtos que fui nomeando de obsessão um, obsessão dois.... O fato de eu ser um pouquinho obsessiva ajudou. Até que eu percebi: aquilo era um blog!

Quanto aos "73 bichos", foi um efeito colateral. Vira e mexe eu me pego escrevendo sobre bichos. Comecei com "Saga Animal" e recentemente terminei "O Pingüim Tupiniquim".

 

O próximo projeto, ou ainda, sobre o Pingüim Tupiniquim

 

Normalmente meus livros partem de um personagem. Foi assim com "Caixinha de Madeira", que começou com uma carta da Branca de Neve. O pingüim surgiu porque eu queria escrever uma história ambientada em algum lugar muito inóspito. Pólo Sul seria!

Eu só não imaginava que meu narrador já começaria o livro reclamando que queria fugir. Então ele pega carona no veleiro do Amyr Klink e vai pra Argentina. Lá, o pingüim conhece um pavão e os dois fogem para o Uruguai. E assim vai, como numa versão avícola de "Diários da Motocicleta". Em breve, nas livrarias, espero eu.





 

 

  

CONVITE

Lançamento "Perdendo Perninhas"

Quando: 7 de fevereiro, terça-feira
Onde: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho - 915
Vl Madalena - São Paulo
Horário: 19h às 22h
Haverá sessão de autógrafos com a autora
Não precisa de convite para entrar

Pós-lançamento: Mercearia São Pedro
Onde: R. Rodésia, 34
Vl Madalena - São Paulo
Horário: 22:30 até...
















Adrienne Myrtes é escritora e artista plástica pernambucana, residente em São Paulo. E-mail: adriennemyrtes@hotmail.com

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Publicações de um autor no Cronópios
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Martins Fontes - A livraria do Cronópios