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27/2/2006 23:57:00 
Nam June Paik, pioneiro da videoarte


Por José Aloise Bahia








                Nam June Paik – Olimpo de Gouges – 1989 – MAM – Paris – França







Agora no começo de 2006 faleceu aos 74 anos o sul-coreano Nam June Paik, pioneiro da videoarte. Participou da comunidade Fluxus, considerada pelos seus próprios membros uma extensão do movimento neodadaísta das décadas de 1950/60. Aqui no Brasil, as idéias e intervenções de Paik influenciaram um bocado de gente. Dentre os quais, podemos citar Lucas Bambozzi, Eder Santos, Giselle Beiguelman, Tadeu Jungle e Walter Silveira.

 

Foi um cigano da arte contemporânea. Nasceu em Seul em 1932, estudou em Tóquio, e ensinou em Nova Iorque, Munique e Düsseldorf. Participou quatro vezes da Bienal de São Paulo. Trabalhou o vídeo e as assemblages dos monitores com primazia, desconstruindo a técnica aos extremos da criação e expandido os domínios da linguagem artística.

 

Na década de 1960, Marshall McLuhan afirma no Understanding Media (Os meios de Comunicação Como Extensões do Homem, Editora Cutrix, São Paulo, Tradução de Décio Pignatari) que “o meio é a mensagem”, “o espectador é a tela” e a televisão delineia um novo espaço/tempo estético, em que “o contorno plástico resulta da luz que atravessa e não da luz que ilumina, formando uma imagem que tem a qualidade da escultura e do ícone, mais do que a pintura”.

 

Na outra extremidade, os articuladores da Pop Art introduziam o imaginário da cultura de massa nas galerias e as tecnologias do movimento e do som estavam sendo exploradas pelos grupos da Arte Cinética e Sound Art. E, no centro, no limiar de diálogos e influências do  autor/ator de happenings John Cage e os artistas da comunidade Fluxus, emerge a carreira de Paik.

 

“Assim como a colagem substituiu a pintura a óleo, o raio catódico substituirá a tela”, afirmou Paik, ao apropria-se da linguagem e o suporte da televisão com a intenção de denunciar os perigos de um meio de comunicação tão poderoso culturalmente. “Eu uso a técnica para poder odiá-la melhor”, sentenciou em 1973.

 

A primeira produção artística do pioneiro da videoarte foi em 1963 na cidade de Weisbaden, Alemanha. Sob o emblema da antiarte – legado dos dadaístas – e em parceria de Joseph Beuys elabora a instalação “Exposição de Música, Televisão Eletrônica”, manipulando os elementos eletrônicos e a tecnologia. Subvertendo os efeitos das imagens recebidas e questionando os procedimentos comerciais dos meios de comunicação de massa.

 

Posteriormente, muda-se para Nova Iorque. Produz o vídeo “Marshall MacLuhan Enjaulado” (1967), homenageando o autor canadense.  Desenvolve trabalhos com a violoncelista de vanguarda Charlotte Moorman. Em “Sutiã Televisivo para Escultura Viva” (1969), Moorman executa partituras de Paik e de outros artistas utilizando um “sutiã” feito com dois aparelhos de televisão em miniaturas, nos quais as imagens mudavam de acordo com a variação dos tons musicais.  No mesmo ano, a Howard Wise Gallery, de Nova Iorque, recebe “Sutiã Televisivo para Escultura Viva”, a primeira exposição de videoarte em galeria comercial.

 

Em 1973 cria o vídeo “Tributo a John Cage”, mais uma homenagem para  outra pessoa importante na sua trajetória. Na 13a. Bienal de São Paulo, em 1975, apresenta “Jardim de TV”, em que mistura plantas em meio a TVs ligadas, transformando os aparelhos em fontes luminosas. Em 1988, nos Jogos Olímpicos em Seul - sua cidade natal -, os écrans, dispostos às centenas, produzem imagens e luzes, e inventa novos estandartes semelhantes a uma Torre de Babel.

 

Os trabalhos de Paik não utilizaram somente a televisão como suporte. Com o tempo, incorpora vídeo-esculturas com aparência de robôs, fios, metais e aparelhos de rádios. Na década de 1990, integra o laser em suas obras. Em 1996, sofre um derrame que o deixa parcialmente paralisado.

 

Na contemporaneidade, a ousadia, a antiarte, a invenção a partir da técnica e os meios de comunicação de massa para em seguida questioná-los, ampliaram e influenciaram o uso de uma série de recursos para o desenvolvimento da web art.

 

Trata-se de um artista que abriu portas e deixou a sua marca. É referência nas principais escolas de artes, internet, museus e galerias do mundo. Paik dissolveu os limites da representação, realizou interfaces objetivas e num desdobramento poético pode-se dizer que transmutou os versos de Carlos Drummond de Andrade de maneira genial: no meio do caminho tinha uma imagem, tinha uma imagem no meio do caminho...

 

 

 

 

 









 

 

José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor e colecionador de artes plásticas. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004) e Em Linha Direta (no prelo). E-mail: josealoise@terra.com.br 

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