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30/03/2006 17:27:00 
Blog de viagem (“Leaves of weed”)


Por Italo Moriconi






 

Como um zumbi, peguei o trem para Amsterdam. Como um zumbi, resolvi querer imitar os holandeses numa hora do dia em que isso se revelou absurdo. O torpor tomaria conta de mim. Eram duas horas da tarde. Nos bolsos imensos do meu impermeável, diversas opções de leitura para os trinta minutos da viagem– o Time Out Amsterdam, o Le Monde e um jornal local, que eu obviamente não posso ler, mas gosto de olhar e folhear. Zumbi no trem perfurando os brancos de neve. Os campos brancos, desertos de branco. Feito cartas que o mundo manda ao Brasil na forma de filmes. Resolvi fazer a refeição no trem, como eles. Almoço de holandês: fishburguer smulmenu (mais barato), muitas batatas fritas com maionese. A bebida é que nada tinha a ver com o que os holandeses tomam na hora do almoço: leite ou iogurte. Não quero laticínios.  Quero coca. Não quero leite. Quero cola. Quero? -- O zumbi está nervoso de tanto trabalhar, ele precisa de sua ração diária, ele precisa de sua substância de manutenção física e psíquica, da coca-cola, a coca, a cola. O torpor tomaria conta de mim. Esse skunk de Amsterdam deixa a gente muito chapado. É chapa quente. Tudo depende de saber dosar a quantidade.. Quero? Sim, quero. A coca, a cola, o aditivo, o adesivo. Entrei no trem às duas da tarde de uma sexta-feira. Lotado. Constatei que seria impossível conseguir um lugar junto à estantezinha ao lado da janela, que os holandeses usam para colocar o almoço. Almoçam seu sanduba com leitinho na viagem de trem daqui prali. -- Em duas horas e meia se pode atravessar a Holanda inteira de carro. Haarlem, Delft, Leyde – sensações de idade média nesses nomes de cidades. Apenas ecos, ilusão, pois o passado lembrado pelos holandeses não vai mais além que o século 17. Todas essas casas antigas, essas “gabled brown stones”, são do século 17,  testemunham o tempo de ruptura com o medievalismo católico, o início do tempo pragmático, racionalista, moralista, coletivista. Na Holanda, só existe arquitetura moderna. Arquitetura moderna antiga, dos séculos 17 ao 19. Arquitetura moderna moderna, do século 20. A arquitetura moderna antiga, antes de ser moderna, é nórdica.

 

 

*     *     *

 

 Feito zumbi, tive que me sentar na escadinha do compartimento de entrada do vagão do trem. Dispus meu almoço no chão e mandei ver. Viajante farejador, cão sem dono. Ração diária, substância. Neve cobertor. Embalado por seu torpor, eu fora invadido por sonhos, na noite invernal da véspera, que durara 12 horas, recebi a visita de minha vozinha. Agora eu era zumbi, zangão, enterrado em roupas e neve, neve por todos os lados, eu era o próprio homem vestido execrado por Oswald de Andrade. Às vezes escrevendo na net desconfio estar fazendo plágio de vozes fantasmáticas. Não tenho tempo de voltar ao dicionário. Não tenho mais tempo de revisar minhas próprias fontes. -- Depois de uma rápida visita à notável livraria Athanaeum, tomei o tramway de volta para a Centraal Station. Eles dizem: staciôn. O on de Station e o am de Amsterdam serão dois dos poucos sons nasais da língua holandesa? Soam belos. Rotterdam. Comprei gramáticas do holandês para turistas. Mas não. Não quero leite. Quero logo o aditivo. A pele (vc me entende?) de um amsterdamerer desses, um desses, gigantescos e singularmente charmosos, com jeitão de labutador nórdico. -- O coletivismo holandês mixa capitalismo e socialismo. Este último dado na Holanda é histórico, é modernamente arcaico, um arcaico moderno, combinação de calvinismo e monarquia. Nada tem a ver com marxismo ou socialismo real. Há quem diga que os traços despojados do modo de ser holandês, as antigas pulsões igualitárias e mais o que ficou das pulsões ripongas, vêm de certa forma declinando na virada pós-moderna do século 20 para 21. Nem os holandeses resistiram aos encantos do consumo e ao prazer-poder de ter um carro, apesar das estradas congestionadas. Preferem aposentar a bicicleta, porque não podem resistir ao motor da globalização, que eles ajudaram a criar, no fatídico século 17. -- O nórdico e nobre distributivismo igualitário da mini-aristocracia hiper-modernizadora holandesa era regido pelo princípio da riqueza: riqueza para todos. Isso é fácil sustentar num pequeno país de vanguarda com população menor que das regiões metropolitanas de São Paulo ou México City. Mas vai pra lá pra ver, holanda, vai pisar na chapa quente pra ver se é mole ou quer mais. Os holandeses que estou conhecendo aqui são os que adoram a chapa quente. No mapa do mundo, escolheram a América Latina como objeto de desejo. Destaque para Cuba, Venezuela e Brasil petista. -- Zumbi, zangão. Tive que desistir de aventuras ulteriores, até mesmo do Museu Van Gogh. Fiquei com medo que voltasse a nevar e que acontecesse o mesmo que na véspera: tramways parados em Amsterdam, tumultos e mudanças de horário nos trens para Leiden. Em dia de nevasca, o melhor programa é ficar em casa, com provisões asseguradas. Lembrei-me da fábula da formiga e da cigarra. Viajar pela Europa é encontrar os fundamentos dos contos de fada que ouvi na minha infância deslocada. O mundo desfocado pelas lentes do alhures que é o Brasil.  Melhor ser formiga e ter o que comer, que ser cigarra de amsterdamerer e morrer de inanição, no frio, no chão. Vai curtir tua solidão em casa, zumbi farejador, gato de sofá cama. O torpor tomaria conta de mim. Afundei no abismo do eu, abraçando o país dos sonhos, cercado de branco. Quero o branco. Quero? Quero o quero. Minha vozinha de chapéu vermelho sumiu na névoa.

 

 

13/03/05

 

Preciso preparar minha viagem de meio de temporada. Afastar-me um pouco desse sufoco da universidade, dessa prisão entre quatro paredes, dessa holanda-brasil. Ver alguns museus de Amsterdam só serviu para me acender o desejo de sair correndo para as grandes capitais – Paris, Londres. Circuito Elizabeth Arden. Opto por Paris por me parecer mais fácil de organizar, em meio ao desassossego trazido pelos compromissos acadêmicos. Londres fica para outro dia. Será que Paris é um destino muito brega hoje em dia? Vejamos o que ela tem a me oferecer no próximo fim de semana. Uma expo de Sartre na Bibliothèque Nationale. Mas eu quero os museus. Quero rever o Orsay, que foi uma grande emoção na minha primeira e rápida visita à cidade, três anos atrás. Quero conhecer o Beaubourg, que fiquei com preguiça de conhecer naquela vez, preferi a rua e the clubs. -- The clubs. -- Minhas retinas são placas de memória. -- Jamais te esquecerei, soldado israelense, dançando as cadeiras para mim no clube de afro reggae, sem saber que para mim. Agora eu te pergunto, imaginando um olho no olho. Era desconhecimento ou indiferença? Meu olhar vagava e focava, vogava, e vagava de novo e focava novamente, movimento em ondas, arabesco gelatinoso de fotos tornadas imersão, realidade. Confesso que invejei aquela tua alegria dançante, a camaradagem guerreira que se estabeleceu na roda dos homens, esfuziantes, esse estar na vida depois da morte, cercados de negros por todos os lados, negros africanos e negros latinos. Mas não vou procurar o lugar. Numa decisão talvez fadada ao fracasso, descarto a  cena gay como móvel principal de minha curiosidade turística nesta volta a Paris. Assim abro mais tempo para mais coisas, mais hamburguers no McDonald’s por exemplo. – [ ... ] No máximo em Paris vai rolar um básico rápido com mostarda francesa. No Le Monde de sábado vendido na Holanda há um suplemento em inglês, uma edição francesa do NY Times. Paris acabou? Do jeito que a Condoleezza Rice fez xixi no Panthéon se poderia crer. E o Colin Powell que andou rebolando comedido num desses lugares do globo. Será que ele senta e rebola num obelisco branco?  Bem que eu podia ir ao Centre Michel Foucault. Isso seria mais eu, talvez. Que Sartre. Nada contra Sartre. Tudo muito bonito em Sartre. Atualidade de Sartre, claro, sempre. Mas F e FF. -- Esse careca de dois metros esfregando a cabeça em mim parece um clone de Foucault. [ ... ] Aí, mané punk skin head viado branco passivão machão, a tua careca grisalha e a minha barba cerrada, escura, do sul: desenvolvendo padrões de entrelaçamento abstrato. Sigo meu rumo a esmo, entre cão e zangão. Ao vento! Aos casacos! Aos frios cossacos do mar do Norte! Paris ainda é uma festa?

 

 

27/03/05

 

23:30

 

         Domingo de Páscoa. Inteiramente sozinho num apartamento de Leiden, Holanda. [...] Paris foi uma festa. [...] se fez primaveril. Tive sorte. E revivi a emoção do sublime, emoção provocada pela grandiosidade bem planejada. Segundo Kant, o sublime é a emoção de constatar que a cultura suplanta a natureza e que ela, cultura, é que é natureza. Você não concorda? Pelo menos é assim que eu traduzo Kant para o nosso vocabulário. Por que não transferem logo a ONU para Paris? Redescobri a pretensão-mundo dos franceses, eu que vinha tão siderado pelas belezas de Washington, DC. Mas agora acabou a colher de chá para DC. Grandiosidades, há muitas. Há outras. Nem na esfera do sublime se pode falar em absoluto. Há chispas de absoluto. Pena que c’est sublime seja uma expressão banal em francês.

 

 

*     *     *

 

O mundo tem encontro marcado em Paris. E os americanos estão lá, aos magotes. Ainda bem, apesar do pipi da Condoleezza. Meu deslumbre é sublime prêt à porter, faço compras na C&A. Dentre a massa babélica de turistas deslumbrados, os americanos parecem ser os mais preocupados em vestir jeans alinhados. Ecoando Baudelaire, a aparência geral dos homens europeus nas ruas permanece lúgubre, noventa por cento deles usam jeans escuros e surrados, sem nenhum estilo. Por cima, o casaco escuro do todo-dia. Em Amsterdam é mais sombrio que em Paris. A Centraal Station passa um cenário de coisa-pobre. Tanto jeans surrado sem face a barba a fazer e os cabelos, cortar.  Já o metrô de Paris tem dudes que procuram fazer estilo. E há o “elas”, o mundo delas. Nunca a moda feminina foi tão sexual quanto agora. Elas todas, do Rio a Paris e de Leiden a Amsterdam, colocam jeans apertados, uma segunda pele, dentro de botas imperativas, galopadeiras, e no corpo os casaquinhos de couro até a cintura, que é para o realce da bunda. Bunda, bunda. Imagino para você um versinho modernista. Rainha bunda a bambolar-se / gostosamente / pelas calçadas, / je vous aime, /  ma petite putaine / du boulevard.

 

 

*     *     *

 

Está rolando o ano Brasil na França. Fui ver a expo da Adriana Varejão, para conhecer o espaço da Fondation Cartier. Dali, já noite, caminhando pelas ruas infindáveis de Paris, me vi repentinamente em Montparnasse. E de repente apareceram diante de mim as famosas, as faladas Galeries Lafayette. Elas ficam debaixo de um prédio altíssimo que é uma monstruosidade arquitetônica só comparável a coisas que se vê nas Américas.  Sabe quando uma monumentalidade modernista barata fica encardida? OK, OK,  eu sei que existe o beautiful pobre e sei também que de dentro do pobre sempre haverá de emergir a rica flor da cultura. -- Turistear é sintonizar um estado permanente de estesia. Delícia excitante do multilingüismo. Os canais de TV iguais e diferentes. Fiquei num hotel na République, perto do Marais e do Centro Georges Pompidou. Visitei finalmente o Beaubourg. Achei medíocre a coleção de arte contemporânea. Depois, num dia de primavera e bouquinistes por sobre as margens do Sena, mais espasmos de grandiosidade: Tour Eiffel, parque, le cygne, os passarinhos tomando banho na fonte. O sublime vem por espasmos, é uma emoção dinâmica, um pathos, um algo dentro que vai e vem. Como ondas, aquáticas mesmo, não elétricas nem radiestésicas. Sou tomado pelo modo look ecolier bien gardé type philo e definitivamente elejo para favorito o pacote anos 50 de Sartre e Simone. Assim como os americanos em Paris, decreto que gosto mesmo é do Quartier Latin e de Saint-German. Adoraria ficar num hotel desses, os hotéis em Paris podem não ser caros, a hospedagem em Paris é bem menos cara que em Nova Iorque, Londres, Milão. Amsterdam é barata, Roma pode ser barata. – Ocorre que o zumbi-zangão busca vantagens mais palpáveis, sacumé. O hotel em que fiquei me permitia voltar a pé para casa depois da balada errante pelos espaços esparsos do Marais. A excitação está no ar. No céu, por sobre os telhados, boiava gorda uma lua cheia. Eu paguei meu pedágio e por duas noites consecutivas escarafunchei o calvário doce dos dark rooms, em atitude de pesquisa, o el dorado negro do sangue grosso escorrendo pelas paredes, meu esperma e teu sangue, teu sangue e meu esperma, meu esperma é meu sangue, o esperma rarefeito do cinqüentão disfarçado de quarentão jorra sangue vivo, sangue negro, traçando arabescos de explosão esfuziante pelas paredes labirínticas, ó paredes de mel, babélicas e babilônicas, infindáveis, espuma sendo produzida em quase segredo e total silêncio pelos abismos da grande cidade, secreção branca da grande colméia, corre, clandestino, zumbi zangão cachorro louco israelense sem limites safado matador de palestinos em legítima defesa, você quer mel, quer leite, quer substância, quer os olhos negros e profundos do assírio imaginário. Que venha lá um segundo hamburger básico, um terceiro. Faço coisas que disse de mim para mim que não faria.

 

2:30

 

         [...] Chegar a Paris vindo da Holanda foi como ser jogado de súbito num mar de latinidade. Engraçado que da outra vez eu vinha de Roma, então a sensação foi inversa, tive a impressão de estar sendo jogado de supetão num mundo nórdico sem gables nem brown stones. Paris é a cidade arquétipo da primeira modernidade urbana in South America. No abismo da noite, depois da balada, amo as infindáveis ruas. Estou cansado, estou satisfeito, as calçadas duras sob meus passos sapateados preludiam o leito. Leito final, leito sem mãe, leito da mãe, leito solitário do depois do gozo, preparação para as jornadas. Essas ruas infindáveis. Nem toda cidade é de ruas infindáveis. As cidades brasileiras não são de infindáveis. Há sempre o mato, a favela, a terra devastada. Nova Iorque também não, mas por outro motivo. De um lado, o East River, de outro o Hudson. Infindáveis são as rotas do metrô nova-iorquino. O abismo infindável do urbano ameaçador. El dorado negro. Mas o que importa é o depois da balada. Preciso sair correndo feito cinderela suburbana para pegar o trem de Amsterdam para Leiden.

 

3:30

 

Da minha ilha, busco informação, recebo centelhas esparsas de informação. Tenho visto as referências ao caso Schiavo, o caso de eutanásia nos Estados Unidos. Meu deus, será que em algum canal de televisão alguém já disse o que eu gostaria tanto tanto de dizer o que eu gostaria tanto tanto que todos que todos que todos ouvissem. A minha idéia genial. A minha contribuição pessoal. O meu grito. A minha face tomando o lugar da minha assinatura, a qual duplico em ato de nascimento neste texto, neste diário revisado pelo trabalho da memória light. Meu diário, minha certidão. O passado e o futuro imediato. Meu testemunho de morte, no sapateado alegre do gozo cego, seja na hora da juventude, seja na hora da maturidade, seja na hora da velhice. -- Logo, logo. Logo nos encontraremos meu lobo amsterdamerer, não seja tão apressado, não importa quem você seja, desde que seja forte, cabeludo e maduro. Estou cego, não consigo ver teu rosto, pouco me importa teu rosto. Vamos com calma. Nossa meta é to have fun. To have fun is our goal.  Me pergunto se alguém levantou a questão do direito a não sofrer no caso dessa mulher Schiavo. Me pergunto se nesse caso o Estado não teria  ultrapassado a fronteira entre a eutanásia e o simples assassinato. Estão matando essa mulher de fome. Essa mulher vai sofrer pra burro na hora da morte. Será que eles não sabem que a eutanásia enquanto direito humano e valor a ser defendido deve trazer como corolário o compromisso de uma morte feliz? Agora vou rodar a baiana, vou fazer o gênero indignado, vou gritar histérico na esfera pública. Não sou o grito num rosto, sou o rosto do grito, quero ser como a mulher que desconcerta a razão com seus movimentos inesperados, seios e bunda para lá e para cá, seu discurso difícil de entender, difícil de entender nessas horas. Vou postar um blog na Grande Rede declarando inadmissível que se use na eutanásia o método de ir matando aos poucos, através do desligamento dos aparelhos de nutrição. Vão matar a mulher de fome. Morte cruel, eutanásia cruel. Assim não. Quem fala pelaTerri? Quem fala pela Terri no direito e na vontade de morrer? Quem grita por ela, por seu direito de não sofrer? Pois é claro que com o circo armado em torno da disputa entre o marido e os pais a primeira a ser esquecida foi justamente a paciente Terri Schiavo.

 

 

*     *     *

 

Está em pauta a  morte administrada. Nessa temporada holandesa, vi dois filmes sobre o assunto: Mar Adentro e Million Dollar Baby. Os hispanos são narradores supimpas, mas gostei mais do filme do Clint. Belo e grandioso, dentro do seu clima camerístico e sombrio, todo trabalhado em cima das regras mais que consagradas do clichê hollywoodiano. O clichê é uma base sobre a qual se pode exercer a novidade da criação. A criação é o exercício da ousadia. O que chamam de sublime talvez seja a ousadia contida pelas regras do clichê, cuja grandiosidade vem da emoção-em-cifrões. É sublime no filme de Clint o momento da eutanásia. -- Sou teu amigo até morrer, te estendo a mão, te dou a morte, te dou a morte que é sinônimo de te dar a vida. Minha mão benfazeja te garante a dignidade, da qual só você mesma é fiadora e proprietária. Amiga, amiga, eu te perco agora, aqui, para sempre. E te reencontro na memória, no teu nome que escrevi no caderninho há já tanto tempo. Aos anjos e seus açoites e espadas queimantes, mensageiros desse céu-maldito sem lua-lobo o terminal sideral, que venham calmos, cúmplices do deus-contra. Que venham doces, no tumulto do viver, ai angústia da passagem, uma parada súbita. E então estamos direitos.

 

 

 

 

 

 

 

Nota: A versão integral do texto acima foi publicada na Revista GRUMO (número 4), periódico impresso bilingüe dedicado às letras-imagens-culturas, editado no Rio e Buenos Aires por um grupo de jovens da geração 2000. O texto é assinado italomori, heterônimo criado por mim para poesia fantasiosa e proesia confessional. “Blog de viagem” é certidão de nascimento de italomori, autor. Interessante que a Paris por mim visitada no ano passado estava linda e calma, coalhada de turistas felizes com o retorno súbito da primavera. Quem poderia imaginar que meses depois a cidade se veria sacudida pelos incêndios de carros por garotos da periferia e que viríamos a assistir a presente convulsão estudantil e sindical. Mas naquele momento, na imprensa e na mídia, Paris já estava em polvorosa, imersa num intenso debate político, fazendo ruflar os tambores do protesto social pelo voto, num processo que desembocou no NÃO dos franceses à proposta de Constituição européia. Sintoma, o não. Na França, vem ocorrendo uma transmutação alquímica interessante. O que antigamente era “social-democracia” agora virou caráter nacional. Os franceses defendem seu sistema de proteção social não em nome de uma ideologia. Eles o defendem como sendo a essência do modo de ser francês, em oposição ao que seria o modo de ser anglo-saxônico, que eles não querem que domine a Europa. Portanto, o inimigo do povo francês inteiro (embora não de parte de suas elites – há o racha entre povo e elite política acontecendo veemente na França) já não é denominado de capitalismo, neoliberalismo ou mondialisation. O inimigo é o que julgam ser o ethos anglo-americano, as idéias de competitividade social e privatização da economia. No entanto, nunca é demais lembrar que há nas periferias  toda uma juventude francesa, negra e  mestiça, de religião  muçulmana, que se encontra, desde o berço,  parcialmente excluída do sistema de proteção social. No texto acima, buscando talvez objetividade e foco, ou por entrega a obssessões, italomori omite algo que me impressionou vivamente em minha temporada européia (a trabalho) no ano passado: a presença dos véus, a beleza dos véus, as belas madonas alvas, turcas, florindo as ruas da Holanda, a sensualidade  seminua delas, sob transparência de panos. O mundo muçulmano, o outro lado, um outro lado que quase inexiste no Brasil, mas que faz do cotidiano europeu um constante laboratório multilingüe e multiracial de experimentação social. (Italo Moriconi – 26/03/2006)



















 

 

 



Italo Moriconi – escritor e professor. Autor de A Provocação Pós-Moderna (ensaio acadêmico, 1994), Ana Cristina César – O Sangue de uma Poeta (perfil biográfico, 1996) e Como e Por Que Ler A Poesia Brasileira do Século XX (ed. Objetiva, 2002). Organizou as antologias Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2000) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2001). Editou Cartas de Caio Fernando Abreu (ed. Aeroplano, 2002). Publicou 3 plaquetes de poesia: Léu (1988), Quase Sertão (1996) e História do Peixe (2001). Recentemente teve trabalhos publicados nas revistas Grumo (Rio/Buenos Aires) e Margens (Belo Horizonte/Salvador/Buenos Aires). E-mail: italomori@alternex.com.br

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