Falar sobre o projeto, os membros, o nome, a intenção, o pé no chão, a sola, a contemporaneidade, a vanguarda, tradição, cummingpoundismos concretíveis, riscos em Leminsk Stravinsk Serra na borda da língua, beira da beirada Rosa-de-ninguém, die niemandsroset cetera, etílico a bomba estilistica a poesia não pode explode.
A falha do som, da cor cacofônica, polifônica, desgrafada. Ide aborrecer a outro, Milton, Diabo John, epopéticos ou péicos, preferivelmente, ide abolir a morte da morte da morte de tudo que já se foi morte, já se morre quase por pouco por nada. Por vários heterônimos, ortônimos, antônimos, anônimos, gerônimos.
Nadas: das maravilhas do mundo uma delas se perdeu, pelo menos. Pelo menos uma se perdeu. Uma, pelo menos, se. E outras mil possibilidades espelham para cada intenção. O princípio paraíso, a língua antes do desígnio, a primeira palavra, o balbucio a que se prestam. Dizer a primeira palavra e preencher o silêncio a seguir, à espera do rompimento. Perceber, na dúvida, em dúvida, a dúvida de cada palavra sobre a próxima palavra, sob a próxima palavra, a dúvida da linguagem, da vida, da linguávidavida.
Nadas: os musistas inspirados, os parnasos acatados na fôrma, os ataques rebeldes à brancura branda da página em branco, esta écume, vierge vers. Diálogo atrás para frente, de frente para baixo, todos os lados, uma esfera, que é sempre presente. Vácuo negativo, antinatural, abstração como antítese, por ela, nela.
Sem menos um, diria desconsiderando todas as permeabilidades líricas, e habilidades de quinta, das categorias, teorias, tematizações de temas, retemas, rema rema remador, anátemas retidos, tecidos tidos til. Mas resume-se em catar feijão: o erro à toa, sem força sem guia; atenção a toda: prima importância. Sutil se gerúndio sido, ligação onde não ser aparecida.
Com certeza não, vazio não, senão leer, empty vacío vide vazio. A página em branco, aqui outro se a falo de novo, a página em branco outra, renova. Desdosdados, desdhá muito: experiência, fratura, fissura, sinonimia, neologia, animia, disritmia: a maria poesia, a vazia poesia, haveria poesia. Sem instituição, isso é isso, isso é a pen isso is so pen as is a bell.
Gritaria variada, desvairada poética possível, arqui-ética, antepós antepôs prépós póspós propôs: póscontemporânea impossível pois ainda; pluricontemporânea, acontemporânea, incontemp. Viver o próprio tempo, a priori, enquanto é tempo; saber ser sendo. Deslocar.
Pós a nós: das pessoas existindo, algumas poucas têm conosco, são-nos uns, todavia, todesfuge. Em cada canto um canto há, vida, poesia. De um súbito convocamos, por fim, com vocábulos, partículas, retalhos, vossa senhoria, vosso desgosto que esboroa, vos convosco, os as lhes, me mim comigo.
Sem voz: toda sombra que se plena, toda água que se verte, toda pedra que se pedra.
[Algaravária segundo Thiago Ponce]
ANGÉLICA FREITAS
sashimi
sushiman, sushiman por que mãos tão frias sushiman
pra retalhar melhor o peixe sushiman
com facas afiadas sushiman
no sentido da corrente sushiman
ocupação tão masculina sushiman
chora só suntory whisky sushiman
sushiman, sushiman quando deita a cama é um leito de arroz
e a noite é uma gata que engole até a cabeça
sushiman
february mon amour
janeiro não disse a que veio. mas fevereiro bateu na porta e prometeu altas coisas. `como o carnaval`, ele disse. (fevereiro é baixinho, tem 1,60m e usa costeletas. faria melhor propaganda do festival de glastonbury.) pisquei ligeira nas almofadas: `nem tô, fevereiro. abandonei o calendário. ``você é um saco`, ele disse. e foi cheirar no banheiro
Angélica Freitas nasceu no dia 8 de abril de 1973 em Pelotas, RS. Estudou jornalismo na UFRGS, trabalhou como repórter em são paulo (estadão, informática hoje) durante seis anos. Integra a coletânea "cuatro poetas recientes de brasil" (editora black & vermelho, argentina, 2006). Entre suas principais influências estão Rita Lee e o "manual do secretário moderno". No mês de abril, volta para Pelotas pra concluir o primeiro livro de poesia e freqüentar o café aquário.
meu ninho. o teci- do davenida Epitácio. fi- o de pára-choques. paralele- pí- pedos. pedaços de papel e placas.
Daniel Sampaio, pré-bacharel em Direito por uma universidade particular, largado no curso de Letras por uma Pública, estagiário, pesquisador bolsista, frustrado por não ser um funcionário público (e patrimonialista), quase casado, caetanamente proliferado nos rumos desta vida, brasileiro, cidadão (quase esqueci), interessado em cultura política, petista de extrema direita, covarde familiar, sectário da poesia concreta e poeta (sem brincadeira!).
Thiago Ponce de Moraes é graduando em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Poeta-sendo, há algum tempo tenho caminhado em direção a um aprofundamento na plasticidade literária e no cenário contemporâneo de poesia. A busca é a de completar o que de híbrido já se dá na tentativa das várias vozes que se entrelaçam e interpelam atualmente. Tento, assim, enquanto utensílio-utilizador das palavras, fazê-las duvidar de si e subverter pela não-completude, falha, que alcançam; tangem.
A grande confusão é que eu só um personagem que sabe disso, sobre aquilo de viver e se resenhar. Quem mais poderia saber como eu tomo banho, assistindo o azul beira de noite engolindo o que se vê? Gosto da água e espio pelas frestas. Quando eu era criança, nunca me quebrei, mas de tão branca, eu nasci pra viver manchada.
Moonsong telling me the time
Alterar os horários do corpo e almoçar à meia noite vira poesia quando deixa de ser uma metáfora. Às vezes, a melhor brincadeira é agir num domingo.
Francieli Spohr, aka fran, phrann, suelen. Aka, tati, sara lee, guerta, lorelai, fred, any zero, oreana. Antes de nascer, se chamaria carlos artur. Com tantos nomes nas costas fica pesado e sério demais se definir. Odeio crises de ciúmes, por isso aos poucos vou me vestindo de mim mesma, ainda que isso signifique tatuar nomes. As coisas deixam de pertencer umas às outras quando se transformam numa só contendo todas as possíveis coordenadas. Vinte e sete anos e funcionária pública federal há quase nove. Pode ser banal e fantástico ao mesmo tempo. Por enquanto vivendo em Lajeado no interior do Rio Grande do Sul, uma vida boa e confortável, perto de todos os amores, problemas, festas e bonitezas de que precisa. Mas dentro em breve, numa cidade que não conhece nem ninguém.
O que não posso suturar: a vida mói. O que está saturado: não tem costura.
Existo aberto e corrompido.
2.
Me precipito sem leveza.
A satura cresce o acre nos lábios,
e continua insolúvel mesmo que eu os dissolva.
3.
Vida farta, eu me aborreço.
E por mais que remoa a fatura, não posso liquidar minha prestação.
4.
Mesmo prestes aos ossos, mantenho a liga do esqueleto.
Apesar do fruto maduro como farelo, a vida engenha o fio da cosedura.
5.
Comprar vida fiada, desconfio:
ela cobra a conta.
Não me endivido, não indivíduo, logo alegro:
frio como agulha, eu me desfio.
Caligrafia do avesso
1.
Minha biografia me faz em meu lugar.
Não sei ter uma árvore, não sei plantar um livro, não sei escrever um filho.
Meus gestos me refratam, as folhas se vergam na rasura.
2.
Ao me poupar, eu me abandonei.
Minha herança corrige o vacilo do pulso, me recorda ao contrário, me inventa sem revide.
Meu desprezo próprio cavou a gruta de minha figura, desenterrou as rugas de meu personagem.
3.
Ser palpável não é ter a polpa diluída na terra.
Polpa é o filho com um livro na árvore a decifrar a velhice do pai nos veios do caule.
Abraço os galhos, tento perdoar o desperdício.
4.
Póstumo, não me queixo à caligrafia das chagas:
o que um filho fere, uma árvore cicatriza.
Minha biografia me cura em meu lugar.
Carlos Besen nasceu e vive em Porto Alegre desde 1980. É bacharel em filosofia pela UFRGS, onde também realiza pós-graduação. Dá a cara à poesia desde 1997 e tem prêmios literários irrelevantes. Já apareceu em algumas revistas, reais e virtuais. Tem um blog pessoal, exclusivamente poético, e edita o blog O Mel do Melhor.
Aqui é palavra que forma e qualquer que seja, a girl crying everyday, perhaps die bitteren trënen.
É tudo desenho daquilo que seria: uma moça que chora todo dia talvez lágrimas amargas porque não consegue se separar da outra ou uma jovem muito ocupada que ama um exilado.
Daniela Ramos nasceu em Alegrete-RS em 1973. Mora em São Paulo desde 1997. É jornalista e professora de novas tecnologias da comunicação. Escreve no Caderno V e traduz poemas de Henri Michaux.
Onde estão os começos das coisas Na terra dos começos Na terra onde se diz que tempo Nunca se acha nem nunca se perde A terra alva clara pura Dos começos Dos rostos em lua em olhos verdes imensos Do povo feliz da lama prima Donde se arranca chão Donde se produz não sombra (Mas coisa antes de coisa que se projeta) Donde se faz bulbo o dentro o fecundo o duro o envolto A terra dos começoscontornadornosprimazes
Quadrado de Raiz
Os pés sertanejos também são belos também são de cavar ............caminhos de flor os pés sertanejos sabem chegar onde precisam ............as nascentes sem asas mas escamas escaras
da raiz forte ............planta pé
não cobre os veios não esconde as hachuras nem o quadrado perfeito na firmeza triste de ............um couro novo
os pés sertanejos esses pés seus tão fortes levem nossos corpos para ............outras profusões
cavar caminho de flor e sim tornar o dois quatro
Carol Custódio nasceu em 1978, em Salvador. Aprecia pimenta e coisas antigas. Reflete mais do que o tempo permitido. Gostaria de preferir não se meter, mas é quase impossível. Tem mania de ler trechos de livros para as pessoas e algumas gostam, a maioria não. Tem problemas em dizer não e seus ombros são largos. Todos os dias ela fica entre ilustrações, revisões de textos, traduções e alguma produção literária. Tem os ouvidos irritados e só funciona a partir das três da tarde. Prefere gatos. Odeia decidir e fechar sentidos. Desova - quase - tudo no blog O Dia da Noite.
esses anjos mudos esses anjos tenros esses anjos que velam esses anjos que me guardam e que me protegem deixa-os aqui.
pai,deixa-os aqui, os anjos deixa-os aqui, comigo
pois lá fora as auroras já sonharam e eu preciso de um pouco de paz.
***
as memórias
- em prece -
vasculhando-nos a mudez estanque
dos ossos
[ontem éramos meninos brincando na rua;
hoje esquecemos a cor da chuva]
- fugiram-nos os segredos do sol poente -
Nasci inventando memórias eram dez e meia da manhã de um certo vinte e três de setembro de mil novecentos e sessenta e sete, primavera, Belém, Pará. Lembro fazer um calor infernal e úmido, típico dos lados de cá. Meus ossos e músculos carregam-me sob a forma de professor universitário federal mera bobagem. Vomito imagens. Exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. Coleciono vinis. Empilho cds. Tenho estantes transbordando livros. Habito um mundo pequeno por vezes desocupado de mim. Tenho olhos castanhos e tristes. Sou sublunar.
treze planetas alinhados na frente de batalha nenhum outro instante senão este : somente o gesto decisivo todavia o sim que diz não e quase tudo recomeça do zero persiste continua a preparação dos trabalhos repartidos entre não e não dentro e fora alguém dor beleza intratável cicatriz extrema
igualzinho a tal da rubrica do inventor do primeiro mito
***
para inspirar a língua do poeta de nada valem o encanto das musas heliconíadas
as leituras diletas românticas clássicas concretas que o poeta preza tanto
agora apenas conta para o canto do poeta aquilo que sabe a buceta
***
um sol pálido cresta o nada
nu me apresto a secar a alma
no varal funesto desta paisagem
má: horizonte inútil sempre eivado de nuvens
Paulo de Toledo (Santos/SP, 1970) é poeta. Publicou poemas, contos, traduções e ensaios em vários sites de literatura e nas revistas Babel, Sítio (Portugal), Cult e no jornal Correio das Artes. Participou da edição crítica de "Catatau" (ed. Travessa dos Editores), obra de Paulo Leminski.