Café Literário Cronópios




Padre Pinto e as Tradições da Bahia
por Eduardo Calazans




 
ALGARAVÁRIA


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Algaravária?
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ALGARAVÁRIA?
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Marcelo Barbão


Cláudio Soares


Alfredo Suppia
      
9/4/2006 21:32:00 
ALGARAVÁRIA?


Vários autores


Falar sobre o projeto, os membros, o nome, a intenção, o pé no chão, a sola, a contemporaneidade, a vanguarda, tradição, cummingpoundismos concretíveis, riscos em Leminsk Stravinsk Serra na borda da língua, beira da beirada Rosa-de-ninguém, die niemandsroset cetera, etílico a bomba estilistica a poesia não pode explode.


A falha do som, da cor cacofônica, polifônica, desgrafada. Ide aborrecer a outro, Milton, Diabo John, epopéticos ou péicos, preferivelmente, ide abolir a morte da morte da morte de tudo que já se foi morte, já se morre quase por pouco por nada. Por vários heterônimos, ortônimos, antônimos, anônimos, gerônimos.


Nadas: das maravilhas do mundo uma delas se perdeu, pelo menos. Pelo menos uma se perdeu. Uma, pelo menos, se. E outras mil possibilidades espelham para cada intenção. O princípio paraíso, a língua antes do desígnio, a primeira palavra, o balbucio a que se prestam. Dizer a primeira palavra e preencher o silêncio a seguir, à espera do rompimento. Perceber, na dúvida, em dúvida, a dúvida de cada palavra sobre a próxima palavra, sob a próxima palavra, a dúvida da linguagem, da vida, da linguávidavida.


Nadas: os musistas inspirados, os parnasos acatados na fôrma, os ataques rebeldes à brancura branda da página em branco, esta écume, vierge vers. Diálogo atrás para frente, de frente para baixo, todos os lados, uma esfera, que é sempre presente. Vácuo negativo, antinatural, abstração como antítese, por ela, nela.


Sem menos um, diria desconsiderando todas as permeabilidades líricas, e habilidades de quinta, das categorias, teorias, tematizações de temas, retemas, rema rema remador, anátemas retidos, tecidos tidos til. Mas resume-se em catar feijão: o erro à toa, sem força sem guia; atenção a toda: prima importância. Sutil se gerúndio sido, ligação onde não ser aparecida.


Com certeza não, vazio não, senão leer, empty vacío vide vazio. A página em branco, aqui outro se a falo de novo, a página em branco outra, renova. Desdosdados, desdhá muito: experiência, fratura, fissura, sinonimia, neologia, animia, disritmia: a maria poesia, a vazia poesia, haveria poesia. Sem instituição, isso é isso, isso é a pen isso is so pen as is a bell.


Gritaria variada, desvairada poética possível, arqui-ética, antepós antepôs prépós póspós propôs: póscontemporânea impossível pois ainda; pluricontemporânea, acontemporânea, incontemp. Viver o próprio tempo, a priori, enquanto é tempo; saber ser sendo. Deslocar.


Pós a nós: das pessoas existindo, algumas poucas têm conosco, são-nos uns, todavia, todesfuge. Em cada canto um canto há, vida, poesia. De um súbito convocamos, por fim, com vocábulos, partículas, retalhos, vossa senhoria, vosso desgosto que esboroa, vos convosco, os as lhes, me mim comigo.


Sem voz: toda sombra que se plena, toda água que se verte, toda pedra que se pedra.

[Algaravária segundo Thiago Ponce]

 

 

 

 

 

 

 

 

ANGÉLICA FREITAS



sashimi

sushiman, sushiman
por que mãos tão frias
sushiman

pra retalhar melhor
o peixe
sushiman

com facas
afiadas
sushiman

no sentido da
corrente
sushiman

ocupação tão masculina
sushiman

chora só suntory
whisky
sushiman

sushiman, sushiman
quando deita a cama
é um leito de arroz

e a noite é uma gata
que engole até a cabeça

sushiman

 



february mon amour

janeiro não disse a que veio.
mas fevereiro bateu na porta
e prometeu altas coisas.
`como o carnaval`, ele disse.
(fevereiro é baixinho,
tem 1,60m e usa costeletas.
faria melhor propaganda
do festival de glastonbury.)
pisquei ligeira nas almofadas:
`nem tô, fevereiro.
abandonei o calendário.
``você é um saco`, ele disse.
e foi cheirar no banheiro

 

 

 

Angélica Freitas nasceu no dia 8 de abril de 1973 em Pelotas, RS. Estudou jornalismo na UFRGS, trabalhou como repórter em são paulo (estadão, informática hoje) durante seis anos. Integra a coletânea "cuatro poetas recientes de brasil" (editora black & vermelho, argentina, 2006). Entre suas principais influências estão Rita Lee e o "manual do secretário moderno". No mês de abril, volta para Pelotas pra concluir o primeiro livro de poesia e freqüentar o café aquário.

Angélica Freitas possui o blog loop e escreve semanalmente às segundas no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

DANIEL SAMPAIO - NINGUAGEM

 

 

Mundo estranho


para a alma e para o corpo

posto

.............como as as de um corvo
nunca mas

 



homeless


meu ninho. o teci-
do davenida Epitácio. fi-
o de pára-choques.
paralele-
pí-
pedos. pedaços de
papel e placas.

 

 

 

 

Daniel Sampaio, pré-bacharel em Direito por uma universidade particular, largado no curso de Letras por uma Pública, estagiário, pesquisador bolsista, frustrado por não ser um funcionário público (e patrimonialista), quase casado, caetanamente proliferado nos rumos desta vida, brasileiro, cidadão (quase esqueci), interessado em cultura política, petista de extrema direita, covarde familiar, sectário da poesia concreta e poeta (sem brincadeira!).

Daniel Sampaio (João Pessoa - PB) possui o blog Ninguagem e escreve semanalmente no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

 

THIAGO PONCE DE MORAES: IMP.

 

 

 

Arsenal


Acordes d`accord
Escultura de tintas
Dissonante antinatural


Cantares de polilíngües personae
Pau-brasil
Frag
Hermetismo contundente


Citação, réplica
Recipe


Barbárie assimilada
............Ou nada


 




............................Defletir


............................................Tique Tique


........................................................Tique


............................................Dique de palavras

............................................Caco...et
.................................................fo
.......................................................nia

............................................Paragem
............................................Condição sine qua non para

............................................Pára
..............................................Tec......Tec

....................................................Tec


............................................Para gen-
............................................Te galgando
............................................Dicção

 

 

 

 

 

Thiago Ponce de Moraes é graduando em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Poeta-sendo, há algum tempo tenho caminhado em direção a um aprofundamento na plasticidade literária e no cenário contemporâneo de poesia. A busca é a de completar o que de híbrido já se dá na tentativa das várias vozes que se entrelaçam e interpelam atualmente. Tento, assim, enquanto utensílio-utilizador das palavras, fazê-las duvidar de si e subverter pela não-completude, falha, que alcançam; tangem.

Thiago Ponce possui um blog pessoal e escreve semanalmente às terças no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

FRANCIELI SPOHR: saraIvada




A grande confusão

A grande confusão é que eu só um personagem que sabe disso,
sobre aquilo de viver
e se resenhar.
Quem mais poderia saber como eu tomo banho,
assistindo o azul beira de noite engolindo o que se vê?
Gosto da água e espio pelas frestas.
Quando eu era criança, nunca me quebrei,
mas de tão branca, eu nasci pra viver manchada.

 



Moonsong telling me the time

Alterar os horários do corpo
e almoçar à meia noite vira poesia quando deixa de ser uma metáfora.
Às vezes, a melhor brincadeira é agir num domingo.

 

 

 

 

Francieli Spohr, aka fran, phrann, suelen. Aka, tati, sara lee, guerta, lorelai, fred, any zero, oreana. Antes de nascer, se chamaria carlos artur. Com tantos nomes nas costas fica pesado e sério demais se definir. Odeio crises de ciúmes, por isso aos poucos vou me vestindo de mim mesma, ainda que isso signifique tatuar nomes. As coisas deixam de pertencer umas às outras quando se transformam numa só contendo todas as possíveis coordenadas. Vinte e sete anos e funcionária pública federal há quase nove. Pode ser banal e fantástico ao mesmo tempo. Por enquanto vivendo em Lajeado no interior do Rio Grande do Sul, uma vida boa e confortável, perto de todos os amores, problemas, festas e bonitezas de que precisa. Mas dentro em breve, numa cidade que não conhece nem ninguém.

Francieli Spohr possui o blog Eu queria que ser bob dylan valesse a pena e escreve semanalmente às terças no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Besen: FAZER ÁGUA

 



Agulhar



1.

O que não posso suturar:
a vida mói.
O que está saturado:
não tem costura.

Existo aberto
e corrompido.


2.

Me precipito sem leveza.

A satura cresce o acre
nos lábios,

e continua insolúvel
mesmo que eu os dissolva.


3.

Vida farta, eu me aborreço.

E por mais que remoa a fatura,
não posso liquidar minha prestação.


4.

Mesmo prestes aos ossos,
mantenho a liga do esqueleto.

Apesar do fruto
maduro como farelo,
a vida engenha
o fio da cosedura.


5.

Comprar vida fiada,
desconfio:

ela cobra a conta.

Não me endivido,
não indivíduo,
logo alegro:

frio como agulha,
eu me desfio.

 



Caligrafia do avesso


1.

Minha biografia me faz em meu lugar.

Não sei ter uma árvore,
não sei plantar um livro,
não sei escrever um filho.

Meus gestos me refratam,
as folhas se vergam na rasura.


2.

Ao me poupar,
eu me abandonei.

Minha herança corrige
o vacilo do pulso,
me recorda ao contrário,
me inventa sem revide.

Meu desprezo próprio
cavou a gruta de minha figura,
desenterrou as rugas
de meu personagem.


3.

Ser palpável não é ter
a polpa diluída na terra.

Polpa é o filho
com um livro na árvore
a decifrar a velhice do pai
nos veios do caule.

Abraço os galhos,
tento perdoar o desperdício.


4.

Póstumo, não me queixo
à caligrafia das chagas:

o que um filho fere,
uma árvore cicatriza.

Minha biografia me cura
em meu lugar.

 

 

 

 

Carlos Besen nasceu e vive em Porto Alegre desde 1980. É bacharel em filosofia pela UFRGS, onde também realiza pós-graduação. Dá a cara à poesia desde 1997 e tem prêmios literários irrelevantes. Já apareceu em algumas revistas, reais e virtuais. Tem um blog pessoal, exclusivamente poético, e edita o blog O Mel do Melhor.

Carlos Besen escreve semanalmente às quartas no Algaravária.

 

 

 

 

 

DANIELA RAMOS: RISCOS



Estava de pileque


É

claro:

nobody knows nothing

- em compensação -

sabe-se de tudo

always

 

****



Aqui é palavra que forma
e qualquer que seja,
a girl crying everyday,
perhaps
die bitteren trënen.

É tudo desenho daquilo que seria:
uma moça que chora todo dia
talvez
lágrimas amargas porque não consegue se separar da outra
ou
uma jovem muito ocupada que ama um exilado.

 

 

 

Daniela Ramos nasceu em Alegrete-RS em 1973. Mora em São Paulo desde 1997. É jornalista e professora de novas tecnologias da comunicação. Escreve no Caderno V e traduz poemas de Henri Michaux.

Daniela Ramos publica semanalmente às quartas no Algaravária

 

 

 

 

 

 

CAROL CUSTÓDIO: O DIA DA NOITE

 



O nada

Onde estão os começos das coisas
Na terra dos começos
Na terra onde se diz que tempo
Nunca se acha nem nunca se perde
A terra alva clara pura
Dos começos
Dos rostos em lua em olhos verdes imensos
Do povo feliz da lama prima
Donde se arranca chão
Donde se produz não sombra
(Mas coisa antes de coisa que se projeta)
Donde se faz bulbo o dentro o fecundo o duro o envolto
A terra dos começoscontornadornosprimazes

 



Quadrado de Raiz

Os pés sertanejos
também são belos
também são de cavar
............caminhos de flor
os pés sertanejos
sabem chegar onde precisam
............as nascentes
sem asas
mas escamas
escaras

da raiz forte
............planta pé

não cobre os veios
não esconde as hachuras
nem o quadrado perfeito
na firmeza triste de
............um couro novo

os pés sertanejos
esses pés seus tão fortes
levem nossos corpos para
............outras profusões

cavar caminho
de flor e sim
tornar
o dois
quatro

 

 

 

 

Carol Custódio nasceu em 1978, em Salvador. Aprecia pimenta e coisas antigas. Reflete mais do que o tempo permitido. Gostaria de preferir não se meter, mas é quase impossível. Tem mania de ler trechos de livros para as pessoas e algumas gostam, a maioria não. Tem problemas em dizer não e seus ombros são largos. Todos os dias ela fica entre ilustrações, revisões de textos, traduções e alguma produção literária. Tem os ouvidos irritados e só funciona a partir das três da tarde. Prefere gatos. Odeia decidir e fechar sentidos. Desova - quase - tudo no blog O Dia da Noite.

Carol Custódio escreve semanalmente às quintas no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

 

 

DOUGLAS DIAS: ESVAZIANDO GAVETAS

 

 

pai,
esses anjos tão lúcidos,
deixa-os aqui.

esses anjos tão limpos, deixa-os aqui.

esses anjos mudos
esses anjos tenros
esses anjos que velam
esses anjos que me guardam
e que me protegem
deixa-os aqui.

pai,deixa-os aqui, os anjos
deixa-os aqui, comigo

pois lá fora as auroras já sonharam
e eu preciso de um pouco de paz.

***


as memórias

- em prece -

vasculhando-nos a mudez estanque

dos ossos

[ontem
éramos meninos brincando na rua;

hoje
esquecemos a cor da chuva]

- fugiram-nos os segredos do sol poente -

 

 

 

 

Nasci inventando memórias eram dez e meia da manhã de um certo vinte e três de setembro de mil novecentos e sessenta e sete, primavera, Belém, Pará. Lembro fazer um calor infernal e úmido, típico dos lados de cá. Meus ossos e músculos carregam-me sob a forma de professor universitário federal mera bobagem. Vomito imagens. Exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. Coleciono vinis. Empilho cds. Tenho estantes transbordando livros. Habito um mundo pequeno por vezes desocupado de mim. Tenho olhos castanhos e tristes. Sou sublunar.



Douglas Dias possui vários blogs, com estilos diferentes, e escreve semanalmente às quintas no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

PABLO ARAUJO: ENQUANTO



 

 

dia
a
dia
o
dia
ainda
adia
e
diz

poetry
why
try
thy
poverty
or
power

 

***

 

CICLO

treze planetas alinhados
na frente de batalha
nenhum outro instante
senão este
:
somente o gesto decisivo
todavia o sim que diz não
e quase
tudo recomeça do zero
persiste continua
a preparação dos trabalhos
repartidos entre não e não
dentro e fora alguém
dor
beleza intratável cicatriz extrema

 

 

 

Pablo Araujo vive no Rio de Janeiro desde 1981. Está cursando medicina. Escreve no Fatal Beco Sem Saída.

Quatorzenalmente às sextas no Algaravária.

 

 

 

 

PAULO DE TOLEDO

 


querer tão-somente o impossível

espernear como a criança
que grita pelo pirulito

criar um poema ilegível

igualzinho a tal da rubrica
do inventor do primeiro mito

***


para inspirar a língua do poeta
de nada valem o encanto
das musas heliconíadas

as leituras diletas
românticas clássicas concretas
que o poeta preza tanto

agora apenas conta
para o canto do poeta
aquilo que sabe a buceta

***


um sol pálido
cresta o nada

nu me apresto a
secar a alma

no varal funesto
desta paisagem

má: horizonte inútil
sempre eivado de nuvens

 

 

 

 

 

Paulo de Toledo (Santos/SP, 1970) é poeta. Publicou poemas, contos, traduções e ensaios em vários sites de literatura e nas revistas Babel, Sítio (Portugal), Cult e no jornal Correio das Artes. Participou da edição crítica de "Catatau" (ed. Travessa dos Editores), obra de Paulo Leminski.

Paulo de Toledo tem um blog pessoal e escreve quatorzenalmente às sextas no Algaravária.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

N.E.: Mensalmente teremos, por aqui, o sumo do projeto. Visite ALGARAVÁRIA: http://algaravaria.blogspot.com    

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