- Glauco, experimenta esta poltrona. O encosto é capitonado, sente só.
Olha a maciez do couro.
- Melhor que colo de mãe! Onde achou isto, Bia?
- No mesmo brechó onde comprei aquele espelho rococó pra combinar com os pingentes do lustre. Agora sim, estou conseguindo acabar de montar o apê do jeito que queria. Só pra morreres de inveja, Glauco.
- O pior de tudo é que nem posso me olhar naquele espelho, só tatear a moldura. Malvada, você, hem?
- Mas pra compensar comprei um gorgonzola importado que está derretendo de gostoso. Vem, vamos pra mesa, que eu te sirvo.
- Gorgonzola mesmo, ou roqueforte?
- Roqueforte dinamarquês. O italiano legítimo tu só achas nos Jardins.
Mas aqui pertinho, na Vieira de Carvalho, consegui este pedação que parece um mármore, de tão rajadinho! Vou pôr no pão pra ti, segura.
- Hum, di-vi-no! Melhor que isto, só seus bolinhos.
- Tu nunca enjoas de bolinho, hem?
- E você, continua enjoada da ficção recente? Não achou nada que valha a pena comentarmos?
- Ah, achei sim: dois ou três contos naquela antologia da "Folha", que vem junto com o CD.
- "Aquela canção", né? Quais contos você destacaria?
- Me chamou a atenção aquele do Marçal Aquino, "A exata distância da vulva ao coração".
- Nada pessoal, claro.
- Magina! Só por causa da vulva? Que idéia, Glauquito!
- O Marçal vai gostar de saber que você curtiu. Sei de gente que morre de medo de saber o que você achou das obras deles.
- Exagerado! A música também é daquelas que eu adoro: "Último desejo", do Noel. Mas não foi só a personagem da acadêmica que me falou de perto, nem a semelhança com a acadêmica do Paulo Henriques Britto no conto dos sonetos: é que o Marçal não escamoteia as coisas de comer.
- De fato: sai um sanduíche de queijo aqui, uma pizza ali, um estrogonofe acolá... Só não rola bolinho.
- Pára com essa mania de bolinho, Glauco! Falo sério. Se prestares atenção, notarás que o cardápio vai evoluindo à medida que a professora se afeiçoa ao mendigo. Primeiro são sobras de sopa e pizza...
- Eu a-do-ro pizza amanhecida!
- ...depois vem o sanduba de queijo branco, depois o pão com geléia, os ovos, até que a relação é coroada com o estrogonofe regado a vinho, à luz de velas. Viste como a comida é essencial à trama desenrolada?
- Você é que devia adotar um mendigo daqueles, Bia. Sua coroação seria o café com bolinhos, lógico.
- Vontade não falta, Glauco. Aqui embaixo, na praça da República, o passeio tá cheio deles, aos magotes. Cada um mais carente e encarado que o outro. Mas cadê coragem de exercitar a caridade cristã?
- É, o instinto de sobrevivência fala mais alto que o furor uterino, eu sei. Que outro conto faria jus ao nosso apetite?
- Um do Milton Hatoum, feito praquela música do Chico, "Atrás da porta"...
- Outra do seu cancioneiro particular, já sei. Deixe ver se recordo o nome do conto: "Bárbara no inverno", é isso?
- Exato. Ali o prato do dia é uma feijoada à brasileira em plena Paris. Com mandioca frita e tudo. Só faltou o torresmo, que tu não dispensas...
- Bem lembrado. Mas o Milton foi feliz na solução: quer coisa mais simbólica e melancólica pra brasileiros no exílio que uma feijoada improvisada num apezinho europeu?
- Por sinal bem menor que este meu, né?
- E bota menor nisso! O seu parece o palácio de Versalhes comparado com o meu dois-quartinhos. O da Bárbara cabe no seu armário embutido. Mas você reparou, Bia, que os dois contos têm coisa em comum além das comidas?
- Falas de quê? Da cidadania errante? Do exílio social?
- Não. Algo mais violento: a mulher ciumenta. Não me diga que isso não lhe tilintou nenhum sininho...
- Ah, mas tá na cara! Só que eu não faria o que fez a Marilu, nem a Bárbara! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
- Em todo caso, acho que você endossaria aquele meu soneto "Desleal", não é mesmo?
- Tenho amigas casadas que se enquadrariam na tua personagem. Espera aí, vou pegar teu soneto. Pronto, achei:
Amava tanto, e tanto era o ciúme,
que via no marido algo suspeito
em tudo! Foi seu único defeito,
no mais era mulher de bom costume.
Astuta, desconfia do perfume,
da agenda, dum horário mais estreito,
ou quando ele, ranzinza e contrafeito,
reclama que ela perto dele fume.
Revista faz nos bolsos do casaco
assim que ele se afasta, e, se não acha
um fio de cabelo, diz: "Velhaco!"
"Pensando que me engana?" Até na graxa
brilhando no sapato ela um malaco
enxerga nele, que de tola a tacha.
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Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br