01/05/2006 19:51:00
Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
Por Maurício Paroni de Castro
Em Milão, ano 1997, uma atriz machucou-se seriamente no dia da estréia de um espetáculo meu. Gravei suas falas com a voz dela, ela recebeu o seu salário integralmente e mais um prêmio de seguro (seguro, contrato, salário: os artistas e não-artistas de minha companhia tinham o que o Governo Italiano obriga a ter). Achava indigno substituir o seu corpo, queria uma marca daquela atriz.
Introduzi no espetáculo uma loira (de verdade), amante (de verdade), e não-atriz (de verdade). Ela repetia todos os seus movimentos. Inventei uma personagem muda que usava o gravador para dizer as próprias falas.
Houve revolta de parte do elenco. Moralismos, Hypocrisias e sindicalismos emergiram. Na verdade, eles sentiram o emprego deles ameaçado, mesmo que eu respeitasse o trabalho deles.
Protestos não conseguiram sufocar o fato incontestável: ela era o melhor de tudo o que o espetáculo oferecia e o público o reconhecia através de aplausos evidentes. A sua tocante opção obrigada pela sinceridade me fez rever muita coisa e repensar a lição de Pirandello.
Mais fatos: ela casou-se com um milionário alemão (e milionário na Alemanha tem mais que simples dez milhões de Reais que muito “rico” se orgulha de possuir por aqui); a parte indócil do elenco casou-se e faz pouco teatro; três ou quatro que continuaram a trabalhar são hoje conhecidíssimos atores; eu trabalho ainda internacionalmente, mas, por ser malvado, voltei a morar no Brasil.
Além de chato e mentiroso, sou malvado.
Maurício Paroni de Castro, 44, é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana. E-mail: paronidecastro@hotmail.com |