22/10/2006 22:01:00
Silviano Santiago, 70 anos: homenagem, evocação [1]
Por Italo Moriconi
Em 29 de setembro, o escritor e professor (mestre de gerações) Silviano Santiago completou 70 anos de idade. O mundo acadêmico dedicou-lhe homenagens. Na UFMG, as homenagens fizeram parte do Seminário Internacional Passagens da Modernidade e aconteceram entre 27 e 29 de setembro. Foi lá que li o presente texto, escrito especiamente para a ocasião e que agora partilho com os leitores de Cronopios. Na semana seguinte, realizou-se no Rio, organizado pela Casa de Rui Barbosa, o Seminário sobre Crítica e Valor, reunindo um grande número de ex-alunos, discípulos e amigos de Silviano, vindos de todo o Brasil e também do exterior.
Para Silviano Santiago chegando aos 70 anos se pode utilizar o mesmo bordão tantas vezes repetido quando Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros astros pop nacionais e internacionais atingiram a marca dos 60. Que parecia incrível terem eles chegado a tal patamar. Que parecia intempestivo ver naqueles eternos jovens concretizar-se tanta idade. Para efeitos de contigüidade e por afinidade, pincemos Caetano, dentre os mitos (no sentido barthesiano) da contemporaneidade brasileira. Durante muito tempo, no imaginário de seu círculo de fãs sempre em expansão, Caetano e juventude foram expressões sinônimas. Juventude adulta, palavras frescas, aberturas de janelas, renovação permanente – de temas, de modulação. Fascinação das coisas e dos fatos inéditos. Mas o Brasil contemporâneo está deixando de ser contemporâneo, transformando-se em moderno canônico. Ao escrever contemporâneo, falo de nosso ou meu contemporâneo, o possessivo (que é também sinônimo de “estar possuído”) referindo-se a um recorte geracional. Como defini-lo aqui? Primeiro como tribo ou turma ampliada. Fãs de Caetano desde a primeira hora. Aos treze anos, ouvi no rádio e vi na TV “Alegria, Alegria”, que considero o ato de batismo de minha vida intelectual, da minha vida como ser pensante da arte, da política, da cultura como política. Naquele mesmo ano, meus pais me deram uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 22. Desde então estava selado o pacto entre o escrever e a técnica, o escrever e o narcisismo do objeto, o escrever e o público tipográfico, o mercado. O escrever e a eterna adolescência.
Não é por combustão espontânea nem fiat exclusivo que opto por começar minha homenagem a Silviano através de um jogo de máscaras, buscando efeito de contigüidade com o poeta superastro. Afinal, foi Silviano mesmo quem introduziu ou ajudou a introduzir no debate universitário em nossa área o tema do poeta performer, a partir de suas memoráveis leituras, nos anos 70, de acontecimentos como Caetano, Chacal, estética udigrudi, nos ensaios seminais que depois foram reunidos no livro Uma Literatura nos Trópicos. Somos todos fãs, eu sou um fã. A tribo de fãs de Silviano Santiago: seus alunos, seus discípulos, amigos, auxiliares, colaboradores, companheiros de viagem. Tantas viagens. Impressões de viagem. A viagem com a canção de Caetano na algibeira. A viagem profissional, existencial, intelectual que tem sido a convivência com Silviano.
Nos anos 80, mestre e bruxo of sorts, Silviano tornou-se uma espécie de superastro da área universitária de Letras, com ensaios e intervenções que repercutiam em Comunicação, História, Ciências Sociais. Aqueles eram anos eletrizantes, em que o ensaísmo literário acadêmico no Brasil atingiu um momento de apogeu. Silviano Santiago estava na vanguarda do processo. Seu estrelato acadêmico adquiria alcance nacional e ultrapassava a fronteira universitária. Para além do ensaísmo, havia sua ação pedagógica. Por meio de escritos, falas, iniciativas, Silviano estimulava e engrossava a radical revisão – pode-se dizer, relativização - a que durante os anos 80 foi submetido o conceito de “modernismo brasileiro”, por obra e graça de uma nova historiografia literária forjada em centros como a Casa de Rui Barbosa, no Rio, e a Unicamp, em S. Paulo, além de contribuições individuais de vinculação uspiana, como no caso de Nicolau Sevcenko. Orientados pelo ensaísmo de Silviano, relíamos o moderno. Mas havia mais. Assim como Otília Arantes em S. Paulo e Heloísa Buarque de Holanda e Eduardo Portella no Rio, Silviano introduzia no Brasil o debate pós-moderno, que Sérgio Paulo Rouanet e José Gulherme Merquior fustigavam a partir de uma posição extra-universitária, a posição dos “intelectuais-diplomatas”. É também dos anos 80 o aprofundamento do elo vital entre Silviano e sua antiga alma mater, a UFMG. Depois de ter lá ter recebido sua primeira formação universitária, isso no tempo – anos 50 - que para minha geração 70 é pré-histórico, Silviano nunca assumiu um posto regular de professor nessa instituição, mas a partir de suas visitas e suas iniciativas em colaboração com Wander Melo Miranda, Eneida de Souza, Ana Maria Gazzola e outros, praticamente redirecionou o perfil acadêmico da pluralista e diversificada pós-graduação em Letras da grande universidade federal mineira.
Nos anos 80, o campo literário da vida intelectual reorganizava-se, consolidando-se a centralidade da universidade como seu circuito principal de produção e circulação. Hoje, creio que a relação entre a instituição universitária e os espaços extra-universitários modificou-se, indo a contrapelo do que se podia prever naquela época. Desde fins dos anos 90, os espaços extra-universitários a meu ver se ampliaram e se complexificaram, tanto pelo realce do papel do mercado e da linguagem best-seller (inclusive nos debates estritamente intelectuais), quanto pela nova força adquirida por instituições tradicionais, como a Academia Brasileira de Letras e a Biblioteca Nacional, para não falar nos circuitos proliferantes da vida literária no suporte virtual da Internet. Feita a distinção entre os dois momentos, cabe assinalar que o salto em termos de alcance nacional da palavra e da performance de Silviano nos anos 80 no domínio da ação, deu-se também pela participação na criação e depois pelo exercício da presidência da Associação Brasileira de Literatura Comparada, cuja existência representou um fator de descentramento e nacionalização do poder institucional literário no momento mesmo em que este se consolidava em torno do eixo Rio/S.Paulo/Campinas. Assinale-se ainda que o projeto de reinterpretação do modernismo, que conduz tematicamente a ensaística de Silviano nos anos 80, reunida em Vale Quanto Pesa (de 1982) e de Nas Malhas da Letra (de 1989) em muito se beneficiou do frutífero diálogo que naquele tempo Silviano manteve com a intelectualidade uspiana. Tudo que se escreve é resposta, é replicação, é afirmação por negação ou rearrumação de dados. O ensaísmo de Silviano nos anos 80 replica, matiza e desloca a interpretação uspiana do modernismo, dominante na academia brasileira desde os anos 60/70. “Deve-se sempre procurar a que doxa se opõe um autor”, postulava como princípio primeiro de metodologia de leitura crítica o Barthes do início e de meados dos anos 70, que Silviano tanto admirava e dava a ler em suas aulas. A doxa em relação à qual os escritos e a ação de Silviano mostravam tensão eram as leituras canônicas do modernismo então vigentes, todas de certo modo bastante descontextualizadoras. O esforço de Silviano era o de situar o modernismo (principalmente o paulista) em seu contexto, liberando o conceito de modernidade estética no Brasil de sua clausura na Semana de 22. Silviano nos anos 80 foi pioneiro no estudo das cartas de Mário de Andrade como texto histórico fundamental para uma compreensão mais fina não só do significado mais geral do modernismo paulista (com suas redes de relação mineiras), mas do próprio sentido da obra de Mário.
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O que chamei anteriormente de ultrapassagem da fronteira universitária na trajetória de Silviano veio com a repercussão dos dois romances por ele publicados no período: Em Liberdade (1982) e Stella Manhattan (1985). Por ultrapassagem da fronteira universitária entendo não somente a capacidade de comunicar-se com um público não-especializado mas também a incorporação ao texto de elementos não inteiramente domesticados pela disciplinarização das instituições de saber. Neste ponto, interrompo o tom objetivo e descritivo dos dois parágrafos anteriores e retomo a evocação subjetiva, lembrando que esta se modula sempre simultaneamente nas primeiras pessoas do singular e do plural, já que no mínimo há um lugar-de-leitor previsto em qualquer cena de escrita. O eu é parte de um nós, mas o nós só faz sentido enquanto recorte preciso, o “nós” também é uma singularidade, é o nós de uma tribo, de uma turma ampliada. Nem o Lula pode falar, no plano das questões históricas, em nome da humanidade toda. O nós, na dimensão em que está sendo visto aqui, nada mais é senão a relação pragmática e histórica entre “eu”, “você” e mais alguns e algumas, definidos por identificação e por engate na interlocução instituída pelo texto/fala. O narcisismo do eu, tão detestado pelos detentores de poder, hoje se legitima quando, ao inventar, expressa ou dá voz ao narcisismo de um nós. O “nós” (we/nous/nosotros) é a primeira pessoa dos “nós” (knots/noeuds/ nudos ) que formam circuitos ou redes sociais.
Antes da performance nacional de Silviano, da qual nunca mais ele retrocedeu, e é um dos motivos pelos quais o homenageamos publicamente agora, misturando afeto e dever, dever do afeto e dever da cidadania, nós do Rio já conhecíamos o brilho da sua estrela desde os anos 70. Aquele frisson que antecede a entrada dos grandes professores no recinto dos auditórios onde daí a minutos proferirão conferências que se tornarão seminais logo ao serem publicadas, nós conhecíamos da sala de aula. Tivéramos uma prévia do potencial nacional de sua performance no histórico Congresso da SBPC de 1977, que marcou o início do processo de reorganização da sociedade civil brasileira, ocupando os espaços abertos pela “distensão” e depois “abertura” do regime militar, na seqüência dos governos dos generais Geisel e Figueiredo. A palestra ali proferida por Silviano, perante um público efervescente de mil pessoas ou mais, foi depois incluída em Vale Quanto Pesa, tendo por título “Repressão e censura no campo das artes na década de 70”.
Um relato de auto-formação deveria incorporar o instante luminoso em que, quando alunos, descobrimos de cara, numa primeira aula, que aquele professor, ou aquela professora, são, simplesmente, tudo para nós. Aquele professor, aquela professora, estão fora do romance familiar, por isso a aula universitária com ela ou ele é sempre uma experiência renovada de liberação. Mas por meio dessa liberação e das revelações de saber que nos traz, devidamente ritualizadas pela instituição pedagógica, nos vemos instaurados noutro romance familiar. Nos vemos surpreendidos, presos como moscas felizes no açúcar de uma ordem discursiva, personalizando aqui o conceito de Foucault.
O mais engraçado é que alguns dos professores naquele tempo e naquele lugar (curso de Letras da Puc-Rio, anos 70), principalmente Silviano, nos davam os materiais teóricos, os textos de pensamento, então muito recentes, escritos em francês por intelectuais de alcance global como Barthes, Foucault, Derrida, Kristeva, Bourdieu, que abriam a possibilidade de criticar e desconstruir a autoridade do mestre. Autoridade que nós, alunos fascinados, e de maneira um pouco inconsciente, queríamos, na verdade, diuturnamente, renovar. A sala de aula naquela circunstância existia num momento paradoxal em que não apenas o país, mas o próprio saber acadêmico universal, encontravam-se em pleno processo de transformação. Ninguém encarnava melhor os paradoxos da situação do que Silviano Santiago, que nos aparecia como mestre e anti-mestre, professor e escritor, intelectual e artista. Sua desconstrução dos modernismos oficiais (havia o uspiano, mas havia também o concretista) baseava-se num impulso mais amplo, e, como vemos, paradoxal, de desconstruir discursos mestres em geral.
Acompanhar as transformações na escrita e no pensamento de Silviano tem sido uma experiência vital para seus leitores de primeira hora, aquela hora. É o ritmo não só da escrita mas da produção dessa escrita que mimetiza seu tempo e lugar históricos. E eu avançaria a hipótese de que num certo sentido não há “transformação evolutiva” na escrita de Silviano, e sim a contínua experimentação com formas novas, cada forma nova explorando novos aspectos de preocupações que funcionam como fios condutores presentes em toda a obra. Isso com uma coerência muito grande que por um lado beira um pouco a obssessão, mas uma obssessão puramente, cortantemente intelectual, onde o acréscimo de bits de informação e conhecimento se dá mais no plano da extensão articulada que de uma suposta profundidade. É o que venho chamando de “polimorfismo perverso” como princípio formal e semântico decisivo para apreender o sentido desta escrita, deste projeto. Creio que se pode também caracterizar tal polimorfismo pela lógica derridiana do suplemento, conceito estratégico tão prezado por Silviano. Nesse sentido, a obra de Silviano, principalmente a ficcional, onde a auto-reflexividade da forma é ainda mais determinante que no gênero ensaio, avança por acréscimos, por etapas de formulação, mais do que propriamente pelo que seria uma evolução imanente, num sentido por assim dizer “biológico” ou organicista. De pouco servem metáforas orgânicas para caracterizar o regime da escrita de Silviano. A escrita é prótese. Prótese é engate.
Mas há também elementos de evolução diacrônica em horizonte orgânico (horizonte de vida) na trajetória dessa escrita. Creio que podemos verificar que vários – senão a maioria – dos textos ficcionais de Silviano depois de Stella, com exceção talvez de Viagem ao México, navegam nas águas de uma contínua reflexão sobre amadurecimento, envelhecimento, morte, a escrita assumindo-se como exercício estóico da memória nos contos excepcionais (e incrivelmente antenados ao momento estético-mental dos anos 90/00) de Keith Jarrett (1996) e de Histórias Mal Contadas (2004). Creio também ser relevante levantar relações de aprofundamento ou radicalização estética entre uma e outra obra, como entre Keith Jarrett e o anterior Stella Manhattan, em que o parâmetro do improviso jazzístico no primeiro solta de vez as amarras que tinham sido questionadas pelo narrador auto-reflexivo no romance mais antigo.
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Se a ambivalência fundamental e passional no romance familiar oscila entre amor e ódio, entre desejo incestuoso e instinto homicida ou suicida, no romance da vida intelectual ela é feita de escolhas e não escolhas. Como realçava recentemente Raúl Antelo, num encontro em Buenos Aires em que ele próprio se viu motivado a evocar sua formação uspiana e depois sua busca de uma deriva carioca, atraído pelo pólo Silviano, o romance familiar intelectual, que nos compreende, nos abarca, nos marca, é construído por gestos deliberados de escolha, desescolha, não escolha, nova escolha, por parte do discípulo. Nesse sentido, na relação vivida da transmissão do saber, o mestre pode ser muito mais dependente afetivo do discípulo que vice-versa. O mestre só existe enquanto tal na palavra enunciada pelo discípulo, ele próprio também um mestre, na cadeia institucional da transmissão do saber. Só existe um discurso-mestre na medida em que se encarna em mestres mais jovens que o retomam, relançam, derivam, deformam, negam, invertem. Mútua devoração, adoração, assassinato e ressurreição simbólicos do nome, antes que da imagem. Materializemos a ordem do discurso: professores e intelectuais só existem na relação dialógica com interlocutores, engates nos suportes da fala e da escrita. Teias rizomáticas da circulação do saber. Arrisquemos sociologia. Seriam então três os tipos básicos de grupos de interlocução nas redes ou circuitos de transmissão da vida intelectual e do saber disciplinar: (1) o grupo dos sêniores, ou seja, dos mestres dos mestres, grupo de difícil configuração na história de uma tradição universitária tão recente quanto a brasileira; (2) os pares coetâneos, ou seja, as redes corporativas horizontais; (3) os alunos discípulos. Aluno que não vira discípulo (leia-se: orientando) passa como nuvem, traço, não se metamorfoseia em mosca feliz nas tramas de um enredo intelectual coletivo.
Dito isso, passo do “nós” para o singular e evoco a primeira vez na vida que vi Silviano Santiago, eu como bolsista da Capes, recém-formado em Ciências Sociais pela UnB, lugar, por sua vez, onde tinha recebido minhas primeiras doses do sublime indelével que é o encontro do mestre. Destaco, dentre todos os outros (sim, todos, pois minha graduação na UnB foi um tempo edênico de contínua proteína pura), nomes como os de Barbara Freitag, Fernando Correia Dias, Maurício Vinhas de Queiroz e, neste momento, não posso deixar de mencionar, com emoção, o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, recentemente falecido. Este me fez sair em campo, foi por ele e para ele que fiz uma etnografia dos japoneses agricultores do cinturão verde de Brasília. Uma diferença entre o aluno e o potencial discípulo é que este faz seu trabalho não primordialmente pela nota ou pela aquisição de um bit de informação, mas como investimento simultaneamente intelectual e afetivo, simultaneamente em busca de aprovação e em deriva de apropriação. Idéiafeto, imagem-idéia, escrita-espelho, escrita-palco.
Das estrelas da Puc em meados dos anos 70, a mais enigmática para o recém-chegado de Brasília era Silviano Santiago, por total desconhecimento. Eu optara pelo Rio e pela Puc atraído pelos nomes de Affonso Romano de Sant’Anna e Luiz Costa Lima. Depois, descobriria Wilma Arêas e Jorge Silveira. De Silviano sabia-se que era o professor de literatura brasileira vindo dos Estados Unidos poucos anos antes, depois de lá ter iniciado uma carreira de sucesso. Affonso era a figura mítica que organizara a Expoesia em 1973 e divulgara os novos poetas dos anos 70 em sua página no Jornal do Brasil. Além disso, ele carregava a aura de ser alguém pessoalmente ligado ao mundo encantado da “literatura mineira”. Era um mineiro no campus. Silviano também era mineiro. Me parecia um bom sinal. Ele e Affonso tinham em comum essa coisa que na minha cabeça, não sei bem por quê, associo aos anos 60/70: a coisa do mineiro que passa pelos Estados Unidos, que lá faz estágios de estudo ou que para lá se transfere. Belo tema para romances e para contos. Silviano escreveu vários nessa tópica. Na Brasília classe média de minha adolescência e juventude universitária, havia sempre algum conhecido mineiro indo para ou voltando dos Estados Unidos. Eu poderia estender o tema e evocar uma triangulação imaginária pertinente no mapa de minha memória afetiva literária. Na época, um herói nacional dos jovens sequiosos por coisas letradas era o Sérgio Sant’Anna, aquele promissor “escritor mineiro” que foi aos States no Programa de Escritores de Iowa e quando voltou, virou carioca. De Minas para o Rio, via Estados Unidos: um percurso formativo. (Sérgio Sant’Anna na verdade é um carioca que apenas passou por Minas o tempo suficiente para se beneficiar durante um certo tempo da aura de “escritor mineiro”. )
Devo dizer que nenhum dos demais professores de meu mestrado na Puc me decepcionou. Fazer seu perfil ou a evocação fica como tarefa auto-imposta para um futuro que espero não distante, retomando algumas impressões registradas no primeiro capítulo de meu livro sobre Ana Cristina Cesar. Contudo, jamais esquecerei a profunda impressão sobre mim causada pela primeira aula que assisti de Silviano. Já não me lembro sobre o que era a aula. Pode ter sido uma leitura da Pharmacie de Platon, de Derrida, que estudávamos no original em francês. Pode ter sido uma aula sobre os textos memorialistas dos grandes escritores modernistas, no já mencionado viés de abordagem que propositalmente replicava e desviava as visões de Antonio Candido e Alfredo Bosi. Pode ter sido uma leitura de poemas de Drummond e Murilo Mendes, que Silviano tinha o dom de transformar em textos inteiramente novos e surpreendentes diante das leituras já existentes e por demais conhecidas. Esses foram, creio, os 3 cursos que fiz com Silviano em meu mestrado. Quase dez anos depois, quando fui cursar o Doutorado, novamente na Puc-RJ, em plenos anos 80, a impressão provocada pelas aulas do Silviano permanecia a mesma. Aí já eram tempos de pós-modernismo e do estudo aprofundado das cartas de Mário de Andrade.
O que fazia (e faz, creio) uma aula de Silviano melhor do que qualquer programa de praia ou qualquer concerto de rock era o dinamismo de sua performance pedagógica, garantido pela preparação exaustiva, rigorosa e meticulosa da matéria do dia, algo que exalava por todos os seus poros quando começava a falar, o que ele fazia de pé e andando de um lado para o outro, interpelando com o olhar cada aluno alternativamente. Sem nunca ter sido professor secundário, mas trazendo a bagagem de ter sido professor de língua estrangeira, Silviano detinha (e detém) todos os segredos da expertise técnica, incluindo o imprescindível uso do quadro de giz, onde ele lançava todas aquelas formalizações e esquemas que tanto marcaram o ensino da literatura de sua geração de mestres formados pelas metodologias estruturalistas e pós-estruturalistas. Hoje há uma nova geração de professores que se acostumou a dar aulas com apoio de transparências e datashows. Mas o charme arcaico do uso do giz vem da simultaneidade entre a produção do ato gráfico (caligráfico) pelo professor e a apreensão do signo pelo aluno. Essa simultaneidade entre produção e recepção da escrita no sentido material da grafia fortalece, na verdade podemos dizer que cria, o elo vital entre professor e aluno.
Mas o elo vital que se criou desde aquele momento inaugural nos anos 70 tinha também a ver com o fato de que Silviano falava de literatura não apenas como objeto de conhecimento. Sua aula era parte não só da teoria, mas da própria vida literária, naqueles tempos de poesia marginal e boom ficcional. O discurso universitário, na boca de Silviano, mudava de figura, estava dentro dos interesses da criação. Para mim, isso foi sublime, pois quando me transferi de Brasília para o Rio, de Ciências Sociais para Letras, o que eu perseguia era muito mais vida que teoria literária, uma vida que no entanto eu não queria ou não podia viver sem conceito, sem a intelectualização rigorosa e fundamentada que só a Universidade dá. Silviano não era um escritor dando aula acidentalmente. Ele era integralmente, exemplarmente professor (inclusive na proverbial generosidade), porém o escritor, e escritor interessado pela cultura em transformação, se fazia presente por contigüidade em cada frase e cada gesto de sua performance. O espaço-tempo deste texto-fala está chegando ao fim. Nos últimos anos, como pesquisador universitário, tenho me interessado pelos estudos sobre vida literária, sem querer em nenhum momento que estes venham a desbancar os estudos críticos sobre o texto literário em si. O foco na vida literária nos obriga a deslocar o olhar da figura do narrador para a realidade do autor e do escritor. Ao fazer isso, não inovo nada, apenas levo à frente um projeto que já era o de Silviano nos anos 80, quando batalhava pela reintrodução da questão biográfica-contextual nos estudos literários, dentro de uma perspectiva que devia incorporar as conquistas do pensamento do século 20, com sua crítica e desconstrução das causalidades simplórias. É o texto que determina a vida do escritor, mais do que esta aquele. Dentro dessa ordem de preocupações, como proposta de reflexão sobre a trajetória biográfica de Silviano Santiago, sugeri recentemente que sua palavra-chave entrelugar seja também lida como o espaço ambivalente entre as personas do professor (enquanto intelectual universitário) e do escritor (enquanto criador artístico). Não seria o conceito-imagem de entrelugar (senha que serve de ligação vital entre o mestre Silviano e nós, seus discípulos que o encontramos e o escolhemos nos anos 70) uma projeção da própria situação existencial de Silviano enquanto bruxo, enquanto mago das palavras?
Rio-BH, setembro de 2006
Italo Moriconi – escritor e professor. Autor de A Provocação Pós-Moderna (ensaio acadêmico, 1994), Ana Cristina César – O Sangue de uma Poeta (perfil biográfico, 1996) e Como e Por Que Ler A Poesia Brasileira do Século XX (ed. Objetiva, 2002). Organizou as antologias Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2000) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2001). Editou Cartas de Caio Fernando Abreu (ed. Aeroplano, 2002). Publicou 3 plaquetes de poesia: Léu (1988), Quase Sertão (1996) e História do Peixe (2001). Recentemente teve trabalhos publicados nas revistas Grumo (Rio/Buenos Aires) e Margens (Belo Horizonte/Salvador/Buenos Aires). E-mail: italomori@alternex.com.br |