1/2/2007 23:12:00 A voz que era o espássaro em caracol de água
Por Carlos Emílio C. Lima
No dia 28 de janeiro deste ano, 1995, tive um sonho. Um livro meio transparente que eu abria num jardim suspenso de um edifício, numa cobertura branca - assim eram os ladrilhos sempre meio cantantes ao redor - apartamento da filha de um velho e famoso escritor brasileiro. Ela me dava para folhear sua primeira obra literária, uma novela gráfica no forma de um caracol, um romance-design úmido, uma novela-desenho, viva, pulsante, miniatura com letras genéticas ritmadas cujo título talvez tenha sido gerado para nunca por mim ou por ninguém ser lembrado. Para tanto, no impossível, aperto os tufos com força, as pastas, os filetes narrativos, linfas, orvalhos embutidos, brilhantes brancos, pérolas zunidoras. Começo a ler as frases propriamente tipográficas, ainda é a tarde, antes do jantar também transparente onde nos alimentamos de gargalhadas giratórias colhidas vindas de todas as partes em giração celebratória de tontas euforias e vejo o seguinte filete saltar na antihora da leitura no celofane orgânico do sonho (“amassa-mentos construtivos” rebuscam uma espécie de voz líquida em fio que diz em cintilância nas folhas dobráveis do rítmico papel de amido, pólens congregados de diferentes distâncias, fatias de asas e lâminas de barro veloscente uma secreção de lamparina de ostras tão súbitas de tão claras que escorre imprimindo-se num fio de prata sonora de pérola de mil e dois lados e se desenrola lunescente minando miniático ao redor da corola acesa do perceptível do escrito em que atua em rol de sucessâncias mínimas) dizendo assim em corolação vagante: cor e manhã, “ nítidos coqueirais auditivos de cristal”, “curvos recebimentos de eu ser a baía que escuta, acolhe, colhe, estremecente, luzes e baques longes de luz percussiva da costa, acender abafado e distante de tambores cada ilha, escutando em tremores de galhos e de águas, côncava baía, ouvido terrestre, templo recôncavo - este o curvo e encaracolado quase alado livro de frêmitos transaspáginas cadências de sopros sustos ouros puros que eu tinha diante dos meus olhos pelos quais o mar via as coisas mais altas da terra entre as antenas brancas parabólicas do condomínio meio que sem fim - histórias quentes, mornas, desconhecidas, em meu rosto escutador, recebendo mentes de lá e de longe, “ maio, luz e gradativas palmeiras antenas da Terra em mim”, um talo ali soando quebradiço entre trechos de águas paralelas e cruzando-se naquelas páginas de murmúrios. Em tela viva diante de meus olhos embebidos pelo sonho o perfil de dezenas e outros nem tantos de edifícios de cores e formatos meio desemelhantes por sobre os quais em toda a quantidade vista de cima uma voz como uma retícula um pássaro ali sobre-respirado ali em vôo de voz visível dissesse também o que eu lia aqui naquele instante entre minhas mãos cambiantes, vasto que escrevia um romance gráfico que agora vinha com nuvens nucas e rebôos, um romance como um y, um torno modelador de sons, um engate hídrico entre três fluxos, uma bifurcação doce no princípio, ímã para o mar, seus plasmas da letra o das simultâneas essências, sua litorânea magia azul, sua caligrafia interminável, suculenta de oscilações e ramos finos de plantas de multiplicação para pousos de aromas transmutantes, uma voz que ultrapassava o sibilante som imenso espumoso do sim que jamais cessa de ressoar, uma voz que escrevia um romance densificado nas alturas baixas agora tinha que escrevê-lo ali, ela dizia, a filha do escritor, ali, naquela cobertura, naquele prédio depresenças duplas como órbitas arredias, isolada e que dizia mesmo encaixada quando assim começava que escrevia aquele romance ali porque era quando - era essa a mensagem vocal mais nítida do sonho - ressurgindo das ramagens da imagens então AGORAque A NAÇÃO DEIXARA DE EXISTIR E SEUS POETAS ESTAVAM MORTOS, ou melhor, para ser mais poeticamente mais em nuvem sobre os edifícios mais precisa, a nação que era esta à mão da qual falava já não tinha mais poetas, e repetia de outro modo, agora areia que desabava muito molhada de peso pois quase mesmo em vez de chuvas gasto céu quente e vasto repetia a Nação estava morta porque NÃO TINHA MAIS POETAS, QUE POESIA NÃO ERA APENAS ESCREVER e jogos, QUE AEDO SIGNIFICA O QUE RECEBE DA LUZ
(em versos ritmava-se)
A peregrinação é com o povo (ouvíamos outra voz soprar com vogais de ar) e...
frase em spray folheada numa placa no final ventoso do aeroporto
cenas de cinema para ouvir entre os deslocamentos as turbinas de sentidos
imensas janelas de avião
no campo de pouso desbastado ainda assim para novas coisas
bebo com as mãos em meios aos sons às correntes aéreas ventanias
também soltaram os balões oões o sol e a
manhã escuta os vôos
a montanha começou mesmo a andar
foram tantos os tãn-tãns
tantos hoje de manhã...
Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances A cachoeira das eras;Além, Jericoacoarae pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. Este conto faz parte de seu livro O romance que explodiu. E-mail: carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br
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