Café Literário Cronópios

Passeando por Andara
por Vicente Franz Cecim



 


Lúcidos delírios
por Ray Silveira




Essa essa é do Eça
por Ray Silveira




Os vendedores de humilhações
por Ray Silveira




“Printed Newspapers Are Dead!” Will books be the next ones?
por Ray Silveira




Adoro corações femininos
por Ray Silveira




Vaso vazio
por Ray Silveira




O último dia
por Ray Silveira




Check-Up
por Ray Silveira




Compulsão
por Ray Silveira




Sede
por Ray Silveira




O fabricante de espelhos
por Ray Silveira




A possuída
por Ray Silveira




Xadrez
por Ray Silveira




Amadadama
por Ray Silveira




Sete Dias Como Outros
por Ray Silveira







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
13/02/2007 21:38:00 
Deplorável Véu


Por Ray Silveira


 

Nu, caminho pelas ruas. Extemporânea consciência da nudez; constrangimento súbito. Perplexidade ante a indiferença de transeuntes e circunstantes. Nada com que comparar. Um fantasma de alguém que ainda desconhece se já morreu talvez fosse a idéia menos absurda. Cobri os genitais com as mãos e me encolhi com o ímpeto de quem se protege de uma ameaça fatal. Implorava angustiado para as pessoas me ocultarem amontoando-se em meu redor; ninguém prestava a menor atenção. Nem me olhavam. De cócoras durante algum tempo sem me mexer, nem saber o que fazer. Desesperação. Já era muito tarde quando levantei e caminhei entre as pessoas; continuavam a me ignorar. A rua uma extensa esteira rolando e nos transportando. Não sentia falta do vestuário pelas razões factuais que levam a se precisar dele. Também não sentia frio, pois um sol só meu soprava raios sobre mim. Embora um vento frio escurecesse o caminho. Confrangimento cada vez maior. Desejo louco de me vestir de embriaguez. Mas havia apenas aquela procissão de espectros. Assombrações sobrepondo-se ao desassossego. Não percebia, mas pressentia estar sendo seguido. De repente, assolado por um sentimento penoso de inferioridade indecência indignidade... A vergonha que sentia dos outros se amplificou e se modificou. E passou a me esmagar sob a forma de uma dolorida vergonha de mim próprio. Repulsa da nueza. Asco do meu corpo. Medo, desamparo, amargura, tristura, e abandono. Nenhum indício de motivação, alento ou desejo... Uma nuvem escura confundia-me as idéias. Restava apenas um oceano vazio onde me afogava forçado por uma tempestade de desesperanças. Ao anoitecer, um vasto manto me encobriu. Não via nada nem era visto. Ou pelo menos assim acreditei. Passei a caminhar às cegas, mas desapareceram os suplícios. Ao amanhecer, descobri que o manto, em verdade, era um véu. E então todos olhavam. Alguns riam, outros choravam. Nenhuma idéia do que acontecera. Continuei perambulando, ora nu, ora seminu. Estranho me sentir vestido quando, de fato, estava recoberto apenas pelo tecido transparente da mantilha. Progressivo flagelo. Num tempo rígido, uma rija conclusão: o manto de desespero só me escondia de mim mesmo. Encobria-me cada vez mais. E maior tormento estava de volta quando me via completamente nu outra vez. Angústias sucessivas; náuseas físicas e emocionais continuadas. O jeito de encarar o tudo à minha volta era diferente. Quando despido, embora sem ser olhado sequer de soslaio, o semblante dos passantes injuriava; sentia pavor de tudo e de todos; a nudez me transformava num réu em desespero pela culpa de um crime que ignorava ter cometido e sem sequer suspeitar qual teria sido. Devia a todos não-sei-o-quê e tinha de pagar sem saber a quem, nem com o quê; uma escuridez de noite entrevecia os dias e uma claridez de dia encandeava as noites; tudo o quanto deveria ser diáfano era opaco; a aparência das pessoas em feitio de tédio; a ramagem das plantas continha pigmentos, que iam do castanho escuro ao amarelo ocre; do verde-musgo ao verde-negro de bile da atrabílis; lutava para ouvir o badalar dos sete sinos e só escutava De Profundis. Então tentava desesperadamente me proteger sempre mais para aliviar aquele inferno, ao menos por alguns instantes. Bastava me encobertar com o véu, para cuidar que o mundo teria avessado para todo mundo e não somente para mim; eu era, sem ser, um potentado. E começava, sem mais nem menos, a perceber falsas clarinadas, seguidas de sonatas mozartianas, tocatas e cantatas bachianas, cavalgatas wagnerianas e sambatas noelroseanas...  Os odores também se modificavam. Qualquer cheiro sabia a natureza, aroma de terra amanhando, fumaça de sândalo queimando, de mato verde florindo, de madressilvas se abrindo... cheiro de nunca-termine. À própria dor moral reagia com um Grito que, tal qual o da tela famosa, parecia conter mais beleza que tragédia. Pura fantasia. Trágico teatro transfigurado em realidade. Mal erguia a fímbria do falso indumento, tudo ruía quais castelos de areia ao mar abeirados. Depois de muito padecer decidi andar sempre nu. Lutando para esconder a vergonha, mergulhando num riacho de palavras, sem importar a ordem, a velocidade, nem a fúria da correnteza. Frases são águas rolando e indo despencar mais além em formato de cachoeiras, cuja sonoridade não possui a grandiosidade das obras primas dos mestres da música. Todavia é real. Enquanto isso, fluxos de idéias se movem lá embaixo, serpenteando sem rumo definido. E sem que eu pense por um só instante aonde irão afinal desaguar...

 

 

 

 

 

 

 

 

 









 

 

 

 

Ray Silveira é médico e escritor cearense. Faz parte do "Grupo de Contistas de São Paulo".
E-mail:
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