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Coluna:
O LAPÃO NA HILÉIA
Caetano Waldrigues Galindo


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É definitivamente
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FODEU
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Pirex sed lex
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Manifesto lapônico
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Ética para a Beatriz
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Soltando os cachorros
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Ou restaure-se o bonsenso ou surtemos todos
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Unsex me here!
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Funções corpóreas
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Caetano Waldrigues Galindo


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Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
09/10/2007 19:25:00 
É definitivamente


Por Caetano Waldrigues Galindo

 

Absurdo...

Fiquei tipo meses sem escrever aqui pra esse prestigioso espaço.

E o podcast então..?

Ô vida.

Só informo como mínimas excusas que eu andei assumindo umas responsabilidades burocráticas aqui na universidade e o tempo tem-me sido escasso paca.

Ave vita ducis, vale vita dulcis...

Mas, no fim de contas, a melhor explicação pra minha sumiçância é uma paráfrase do grande Dr. Johnson, que, quando uma senhora lhe perguntou por que havia escrito uma determinada palavra (em seu Dicionário) de forma divergente da ortografia padrão, respondeu singelamente:

Ignorance, madam; pure ignorance..

Semos toscos e-lo admitamos.

(e o que fazer com o fato de que o Word queria transformar minha elegante citação do século das luzes em um purê...?)

 

Enfim.

Absurdemo-nos todos.

 

(Aliás, vale lembrar que uma colega do meu irmão usava com alguma freqüência o adjetivo absurdada. E por que não?

E, falando em moças, fique aí o registro de que, não fossem as instações da grande patroa Sandra e, agora, da Luana e da Mariana, duas alunas que conseguem me suportar durante o semestre e ainda ter a bondade de dizer que querem ler o Lapão, eu provavelmente ia ficar era na minha mais uns anos...)

 

 

E sabe de onde que vem esse absurdo todo?

Já parou pra pensar se ele tem algo que ver com os surdos?

E que por que que os números ditos irracionais (tipo raiz quadrada de 2) em inglês são chamados surds?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas..

Pois bem. Surdus, no latim, era mesmo surdo. Queném conóis.

Mas e o AB? Pois bem.

O prefixo originalmente marcava distanciamento de. Afastamento. Nesse caso no entanto é mais interessante pensar nele (no que é uma distorção minimíssima) com um sentido de proveniência. Logo, ab surdo é o que vem de um surdo. E pense agora minimamente em termos musicais e me diga o que é que pode provir de um surdo.

Ruído.

Discordância.

Caos.

O sem-sentido, portanto, era mais próximo do sentido original da palavra do que a mera incongruência. E daí o uso que os existencialistas puderam fazer do termo.

O absurdo é o caos. Tipo a mínima entropia.

Mas, peraí, na hora de exemplificar eu fui usar justamente usar discordância como exemplo. E, caro leitor do pérfido Lapão, não foi em vão! Pois que discordar tem a mesma raiz do acorde musical de hoje. A discórdia era a dissonância, entre os músicos.

(Mas nunca é demais lembrar que, aqui, o movimento foi de vaivém. Pois que na base daquele acorde está o conhecido cor que nos deu coração, bem como “saber de cor”. Ou seja, discordar era originalmente ter sentimentos diferentes (ou idéias: lembre que a filosofia clássica atribuía ao coração a responsabilidade pelos pensamentos).

Daí passou a significar o conflito de sons desarmônicos..)

Absurdo!

Coisa de louco!

Coisa de surdo!

Mas e aqueles números mesmo?

Ah, os irracionais..

Pois é divertido de saída pensar que a cultura ocidental tivesse atribuído a esses números a mesma palavra usada para denominar o indivíduo desprovido de palavra. Como se o sentido estivesse ligado (e não está?) a palavras. Quem não fala não faz sentido. Não é compreensível.

Se somos animais lingüísticos, podemos compreender que, por mais que preconceituosa, tenha surgido a idéia de chamar números impossíveis de irracionais aqui e de surdos lá.

Mas o mais curioso é que a coisa toda, como muito do que nos vem de números, veio do árabe.

No século IX, o matemático al-Khowarizmi (alcunha gentílica de um fulano chamdo Ibn-Musa, de quem, diga-se de passagem, a gente ganhou a palavra algarismo..) chamou de audíveis e inaudíveis, provavelmente no sentido de concretos e abstratos, números racionais e irracionais (e não esqueçamos que existem ainda os números transcendentais!) e isso foi posteriormente traduzido para o latim como surdo.

Pense que algo óbvio, concreto, nós ainda podemos chamar de sonoro. Bem como algo intangível podemos chamar de tácito, ou seja, calado. Do latim tacere, calar.. sabe..?

Quer mais? (em um texto que já está ficando comprido para os clássicos padrões lapônicos..)

Em inglês, de novo, pode-se usar o termo surd para se referir ao mal original, incompreensível. Mais ou menos como os latinos falavam em dias nefastos, ou seja, inefáveis, impronunciáveis, literalmente.

Aiai..

Se tudo der certo eu ainda venho com mais absurdices tipo em breve!

 

Saúdes

Té pra próxima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

Caetano Waldrigues Galindo é professor de lingüística histórica na Universidade Federal do Paraná. Já publicou traduções do romeno (Lucian Blaga), do inglês (Djuna Barnes, Charles Darwin e John Gay. No prelo: Saul Bellow e Christopher Marlowe, com Luís Bueno) e do italiano (Il comico, D’angeli e Paduano). É o pierremenárdico autor de uma tradução inédita do Ulysses, de James Joyce. Contato: olapaonahileia@hotmail.com

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