E então é isso. Morreu Alberto da Cunha Melo. Poeta pernambucano que o Brasil não conheceu e azar do Brasil, pois Alberto era grande, imenso, maior do que as leis que regem o que está na moda midiática de editoras e adaptações para o cinema e a tv, dos carrosséis das homenagens sem sentido.
Não conheci Alberto pessoalmente. Conheci sim, sua poesia intensa, capaz de comover, incomodar, capaz de provocar outros poemas. Durante esse ano, acompanhei seu calvário e juro que acreditei que o poeta enganaria a morte. Não enganou. Noves fora, fica Alberto em sua poesia, sua poesia em nós e fica também a imensa falta dos poemas que ele ainda faria.
O poema que se segue é um dos que chamo poema-amigo. Me acompanha há tanto tempo que às vezes acho que está comigo desde que nasci. Para vocês, o presente de Alberto.
O Presente
Alberto da Cunha Melo
O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estás com ele na multidão
e não o escondes dos mutilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não vêem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
não pode ser devolvido.
Micheliny Verunschk, poeta pernambucana radicada em São Paulo. Lançou Geografia Íntima do Deserto, Landy, 2003. Mantém o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com/