Café Literário Cronópios

Viagem sem volta
por Solange Rebuzzi





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
16/01/2008 17:40:00 
A mão do gato


Por Maurício Paroni de Castro

 

Ressalto três espetáculos – dos que vi em 2007 - onde a operação do diretor e do dramaturgista foram de rara competência - essencial para a criação do espetáculo. Não vai aqui qualquer juízo em relação à qualidade ou mensagem destes; não pretendo minimamente fazer o papel de crítico.


 

                                      ***

 

Além da Mágica”, do mágico Célio Amino, é um show que inverte o sinal aparentemente convencional do gênero: não propõe ao público só o desafio de descobrir o truque – a alma da prestidigitação. Propõe uma comunhão de intentos com os espectadores, através da exposição das – poucas - limitações do mago, de modo a induzir o público a uma prática direta da Filosofia.

Magia com abordagem oriental, nesse espetáculo o tempo é o mestre. Uma lanterna, um pinheiro bonsai e uma ampulheta são os principais signos por onde o mago passeia e divaga. Ele executa seus truques, diz que são truques que parecem mágica somente pelo tempo em que perseverou atrás do resultado da ilusão. Vira raciocínio circular. Isso é extraordinário, numa arte pragmática por excelência como o ilusionismo. O pensamento circular empregado nas artes cênicas é muito difícil para o público ocidental, Jean Claude Carrière e Peter Brook que o digam. É o que tenta a maioria no Butoh brasileiro, mas este pressupõe uma preparação “oriental” que o nosso público não tem (e não é obrigado a ter). A analogia feita pelo Mago Célio entre a corda e o coração supera essa barreira.

 

                                      ***

 

Em “Rossini Hits”, o diretor Alvise Camozzi manteve vivo o espírito de Rossini, de antes da arte-mercado. O faz utilizando o combustível popular brasileiro, que é igual. Qual? A nossa necessidade de se deixar encantar por tudo o que é melódico (não somente rítmico) e carnal ao mesmo tempo. Finalmente algo que não é propaganda de cerveja o faz. Esta última é feita de simulacros, o espetáculo de ficção. Com todos os limites técnicos da coisa, com todos os problemas que um espetáculo tão complexamente realizável pode ser, ele desperta encantamento; não a mim, que não sou público normal, mas às pessoas comuns.

Porque os seus interpretes, da orquestra ao coro, também são pessoas comuns, e o resultado é uma festa de abraços ao final da apresentação. Atenção: estamos longe do amadorismo e do senso comum. Aliás, a maior parte do repertório era desconhecida daquele publico.
 

Nenhuma produção operística traz isso automaticamente, por cara que seja. Mérito do CEM (Centro Experimental de Música do SESC) e da direção, que o faz  com pouco dinheiro.

Não se pense que na terra de origem de Rossini, nas cidades maiores de cem mil habitantes, a coisa seja muito diferente. Lá, como aqui, vai-se mais a baladas que a óperas, que sobrevive somente pela maciça injeção de dinheiro público na manutenção da tradição. Mas nem isso adiantaria se não houvesse dedicação política consciente por uma cultura da opera, à qual o Brasil não está avesso (vide o investimento em Carlos Gomes, ainda  no século 19).

Se caminharmos pelos bairros de Milão, vamos perceber em muitos deles a presença de associações filo-líricas, como as escolas de samba daqui. Maria Callas deu muito dinheiro para a reforma e reconstrução de varias e imensas casas de opera (como a de Turim). Mas não se furtou a sustentar essas filo-líricas. Ia cantar nelas de graça, aliás.

Não se diga que não podemos fazer isso, e nem o queiramos. O público de Rossini Hits era popular, lotou a platéia e estava feliz, como em bem poucos espetáculos. Mas prefere-se uma política cultural que distribui incentivos fiscais – públicos – a cirques du soleil, a Broadways de araque, e a atores-produtores de técnica sub-reptícia, que ainda cobram ingressos no mínimo de 60 reais. Prefere-se não modernizar e atualizar essa anacrônica e mal formulada Lei Rouanet. Prefere-se queimar milhões de reais em coisas que deixam as pessoas longe dos teatros.

 

                                 ***

 

Em “Determinadas Pessoas – Weigel”, o diretor Ariel Borghi consegue extrair de sua atriz (e mãe real) uma Mãe Coragem que não vi no Berliner Ensemble: aquela pessoa que se deve odiar porque comercia seus filhos e os perde na guerra. Uma parábola sobre o que vivemos: este momento brasileiro onde a Mãe-utopia vende os seus sonhos em troca de poder por si só. Ou um ataque ao ideológico Brecht mainstream que se faz em qualquer lugar do mundo. Pobres filhos de Manfred Wekwerth...

 

 

 

 

 

 





 

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Maurício Paroni de Castro no Cronópios.