7/3/2008 17:51:00 Uma história de volta para o cego Lim... de Laudbaer
Por Carlos Emílio C. Lima
Você não me ouviu, a princípio, não compreendeu; seguiu pelo cais, à noite, a mão direita elevando a tocha. Mais do que você eu já sabia embora teimasse você em discutir comigo com uma aspereza que parecia a de uma escarpa diante do cego Lim. Você sabia que estava errada mas teimava em me compungir, admoestar-me até a vinda do crepúsculo, de saraivadas de crepúsculos superpostos. Você seguiu assim pelo cais.
O cais, a ponte, fora construída em 1874 por um grupo de cidadãos misteriosos. Em Laudbaer não aportavam navios de espécie alguma porque era uma cidade proibida às navegações. Todo o tráfego se fazia por intermédio de balões. Era a cidade de prata dos ladrões. A cidade reclusa, recusada, escondida por todos os livros de geografia da Europa. E nós, sem sabermos porque, ao dormirmos depois de um evidente cansaço-cansaço causado por uma discussão que dilatara a noite num diapasão azulíssimo nos vimos subitamente saltando da barquinha de vime de um balão alaranjado, esferóide, com arabescos verdes estampados conformando algas e trovões, nas dunas das praias branquíssimas que medeiam Laudbaer, esta cidade que passou a ser desde então o nosso lugar de discussões intermináveis. Por causa de certas palavras que depois relembrareii, eu e você nos vimos trancados aqui, sem podermos de fato sair a não ser que descobríssemos um modo muito novo nunca antes imaginado de escapular, saltescapar. Levados a esse exílio nós firmamos um pacto de não discutir (o qual, é natural, não obedecemos) enquanto estivéssemos em Laudbaer, a cidade costeira dos ladrões. A cidade de cúpulas e zimbórios de prata e ouro cobertos de gaivotas, pardais e holofotes.
Quando ainda sacudíamos a poeira dourada de nossas roupas, e você escondia em meus bolsos as suas jóias, a comissão de notáveis da cidade já se agrupava em torno de nós lendo a bula das nuvens e as instruções premeditadas das estrelas caóticas sobre nossos fatos e atos, cruzados destinos tresloucados, modelando com suas vozes silvestres nosso futuro assentamento. Fomos recebidos com uma deslumbrada e aprazível desconfiança.
- Sei, disse o segundo principal da comissão de recepção, cofiando seus desconfiáveis bigodes de nuvem, vocês pronunciaram as três palavras certas de transporte para cá. Foram confinados desde aí. Precisam, portanto, de agora e antes, se habituar ao nosso convívio e, principalmente, habitarem na casa do bairro mais estampido, de grandes mansões brilhantes, opulentas. Venham, venham, sigam-nos. Preferem a pé ou vir para a nova habitação de carruagem?
Você respondeu, como sempre muito contrariada, que gostaríamos de ir a pé, como de costume se antecipando à minha vontade, voz de pássaro enraivecido, cor de punhal e flores. Jogavam-nos serpentinas de todas as cores irritantes e ridículas sobre nós, em saudações, esses senhores sombras deambulantes, risadinhas e gorgolejos à volta. Rodopios. Em frente, em frente, vamos em frente, enfileirados, na pompa meio torta de trombones, bumbos, um anão vestido de verde e vermelho dando cabriolas. Pelas dunas, com os relógios nas horas inexatas.
Nos deram para morar a casa mais luxuosa, a casa dos hóspedes que a cidade abria e fornia a cada século. Abrigados no fausto simultâneo, temporariamente, nos resignamos. Era o rito. E você já entrava nos salões numa irrequieta e mal-humorada discussão com o primeiro-principal da grande chusma de ladrões da cidade anti-horária. Não gostara decididamente da casa. Uma casa de praia solitária seria muito melhor. Névoa de cobra, istmo. Dizia com empáfia e luminosidade vocal que não admitia conviver com aquele populacho de novos ricos da atmosfera, de servos rebeldes do cosmos. Naturalmente você não queria assim. Era uma cidade de casas imensas, fantásticas, de luxo e esplendor helicoidal. O calçamento das ruas era de duro ouro em som agudo, as paredes de metais preciosos velocíssimos, afinados. E tudo que existia nela fora roubado, raro. Você notou que inclusive os corpos exclusivos que aquelas sombras vestiam eram os mais belos e jovens corpos do universo, surrupiados nos relâmpagos. Você ficou escandalizada, protestou, relutou em admitir. Exigiu. Fincou o pé nos alicerces, nos degraus. Mas, pela primeira vez, convenci você a calar-se. Poderia ser perigoso tanta reclamação empedernida. De início, era melhor acostumar-se àquele gozo, conformar-se àquela distância. Os jornais das orquídeas brancas da manhã seguinte registravam nossa chegada com grande alarde. Senhor e Senhora Soares acabavam de chegar no transporte de vocábulos aéreos. Trazidos no vento de palavras proibidas e cinéticas, hóspedes no século de ouro e de esplendor da gloriosa Laudbauer, a cidade secreta dos ladrões, costeira e indevassável. Atrás das nuvens, das lentes, dos monóculos, construída definitivamente no início das invenções a motor. Nela instalados... atrás das florestas das brisas e das danças:
E ficamos alojados na casa do grande bairro dos pachás do ar. A casa automática da luz, de setenta e sete janelas ogivais e de torres com observatórios, telescópios e lunetas para avistar o mar, os jardins e os quintais. Cercada de altíssimos cata-ventos. Você se conformou mas desde o primeiro dia, desde então ficou imaginando um modo de escapar daquela cidade de riqueza indevida, triste e bela e muito antiga. Sim. A cidade totalmente inventada. Por antes, por detrás das exposições móveis interacionais universais de 1901? Perguntando?
Lembrem-se de como havia ventanias? De como as mulheres se movimentavam pelo ar, pelos fluxos, de terraço em terraço, a se visitarem? Entremescladamentegiratórias? De como havia sobre o centro prodigioso da cidade um templo de pára-quedas onde sacerdotes vestidos de borracha negra e reluzente, suspensos, revezavam-se na celebração dos furtos impossíveis no espaço? De como todas as noites, sumia sistematicamente um dos brancos volumes dos clássicos chineses? De como eles não paravam de rir e de jogar pitadas de sal na gente quando conosco conversavam? De como resolveram trazer as pirâmides de Gizé reduzidas ao tamanho de grãos de arroz para nos mostrar numa bandeja de platina na hora do chá e que aspiramos em canudinhos de prata colados às narinas. De como você alterou a voz quando descobriu que eles só falavam citações de livros desconhecidos impressos em letras negras nas velhas tipografias? De que nem seus pensamentos eram deles? De que como nós quase perdíamos a total compostura? Lembra-se? Por vôos? De como numa noite chuvosa, resolveram trazer Paris inteira em substituição para aqui? Aí, você montou num dos cavalos negros de Dumas e nua em pelo, aos gritos, fez toda Paris se evaporar, ir-se embora com as nuvens antes que eles percebessem que era você que não admitia tamanho furto, tamanha falta de comedimento dos ladrões irreversíveis. Você pôde fazer isso, você foi tremenda. Eu ri do alto dos telhados vermelhos, batia palmas ante tamanha exibição de poder enraivecido. Você voltou molhada de chuva e de alma, lavada, embriagada, você conseguira aquela noite vencer o poder dos ladrões habitantes de Laudbaer. Os tumbadores. A chuva, os caramujos. Você sabia. Mas eu também. Aquela mania que eles tinham de colecionar os caracóis, as escadas em espiral, as esculturas brancas dos dragões, os trens velozes das planícies, eu sabia. Os tambores da chuva. Eles gostavam daquelas velhas montanhas pontiagudas também. Um dia nós compreendemos que era melhor dormir algumas semanas já que desde que chegáramos àquela cidade de prodígios não havíamos ainda fechado os olhos com medo que eles nos roubassem de nós mesmos. Eles gostavam da neve sob o sol. Roubavam até as ilhas secretas do mar em momentos de indevassáveis alaridos.
Mas você nem chegou a dormir meia hora e já estava a postos para continuar a batalha silenciosa contra eles, com pausas e cristais. Você conhecia os registros que eles não desconfiavam sequer. Nos tais. Guardava as sonoras folhas úmidas da remotidão nas mãos em punho, corajosamente fechadas e impunes, tantas chuvas, nas noites, das chuvas cruzadas de espelhos compreendi com silêncio e um enorme espaço de aceitação dentro de mim. E te amei satisfeito com os giratórios cata-ventos, brancos, os pára-raios em forma de galos, ouvindo escorrer o crepitar.
Mas eis que, de manhã, eles, súbitos, se transformavam em cachoeiras. Em suas poltronas de veludo, sobre os tapetes persas e afegãos, pelas ruas, nos assentos dos tílburis, nas cadeiras góticas enfileiradas dos cinemas que captavam imagens hipnóticas dos icebergs do pólo Sul, em suas camas redondas e caleidoscópicas, no entrecruzar-se em movimentos pelas ruas cintilantes só se viam pequenas hilariantes brilhantes chalrantes cascatas atuantes! Eram eles, irônicos eletrônicos respondendo. Você recolheu-se ao croché, a esperar novas manifestações, sinceramente. Foi no inverno.
Até o dia em que não mais agüentou e resolveu abandonar aquela festa desenfreada e seguir pelo cais empunhando na mão direita o archote da indignação, o fogo do interior da cidade, o fogo central, o próprio coração sigiloso da cidade. Você resolveu furtá-lo e partir com ele pelo cais. Eles, por mais que tivessem tentado de todas as maneiras, não puderam descobrir as palavras que havíamos pronunciado na noite de nossa discussão desenfreada ao redor do sol. Eles não puderam. Estranhamente haviam se esquecido das caravelas. E você conseguiu juntamente comigo burlar todas aquelas sombras hilariantes através do auto-esquecimento conforme havíamos desmedidamente combinado. Penteara meus confusos cabelos encaracolados, beijara-me com alento, perguntara se queria também fugir. Tive um medo escuro. Fiquei úmido. Você não me ouviu, não ousou me compreender. Eu sabia. Você não. Você era resoluta e irremovível em suas opiniões. Você tinha uma doutrina que julgava inextinguível. Disse, não quer vir comigo, fugir daqui de uma vez? Muito zangada, então: deixe-me mesmo sozinha! E foi até o cais. Mas não havia outro modo de fugir da Laudbaer? Não havia? Teria que ser sempre pelo mar, além das cortinas-ondas dos limites? Então você ficou parada na ponta do cais, bem adentro do mar, escutando as ondas, esperando os balões alaranjados, ouvindo os tambores, reunindo as nuvens, os rumores. Esperando as palavras gigantes brilhantes virem soprando pelo céu? Crepúsculos superpostos? Não era assim. Era mais levemente, você sabia que era de outro modo, podia escutar as asas das ilhas... De fato, eles nunca nos ofenderam pois sempre nos trataram do modo mais gentil e hospitaleiro que poderia haver, aéreo e vertical modo, quase transparente. A nossa vida alí fora uma festa, de surpresas e celebrações entrelaçadas. Mas você sempre foi teimosa como um sino de metal. Resolveu. Seguiu assim pelo cais e pulou, num gesto de fúria, pulou. Tive que resgatá-la na praia, você toda molhada, ensopada, trazendo peixes agitados das galáxias em suas mangas. Reclamando, novamente reclamando. Não era definitivamente o modo brilhante de fugir. Branco. Teria que ser mais fácil. Como o sal.
Os roubos conquistados. Sempre chegando trazidos ao modo de condão, em grandes chuvas, ventanias, com as ondas. Eram elefantes azuis, tráfegos, escarpas, sonatas perdidas, pensamentos, caligrafias, papagaios, o último ornitorrinco, flâmulas, saudações, ouro, esmeraldas, dias, ouro, mentes, chamas, água pura, melodias, sequóias, horizontes. Inclusive tempos, estufas de tempos preciosos. Tempos, orquidários e tendas amarelas para a multiplicação de seres desconexos. Eles eram mesmo irrecuperáveis. Pelas ruas, em rotatórias paradas agitadas... em procissão, fervilhar. Içando as ilhas de cabelos de ouro despenteados.
Então resolvi acabar de uma vez com sua exasperação, com seu cubo, quadrado de furor. Bebemos vinho no terraço do observatório. A lua se aproximava gradativamente de Laudbaer porque desde o princípio da noite azulada eles haviam começado todos juntos a fazer uma grande indagação com os espelhos lá (dançavam arabescos de acordes com os cristais), da música, nas praças, de repente, e nos parques estonteantes de Laudbaer, as mulheres com seus longos rios e vastos vestidos brancos de neblina e os homens com suas vestes azuis de vibrações e cartolas de flautas. Ímã de satisfação, a cidade eletrizava. Bebíamos café com pistôns, sem saber como sair dali? Enquanto eles brincavam de aproximar a Lua. Não, eu já sabia, observando a festa centrífuga dos ladrões através da cidade com seus bosques de prata, papel e psiquê mais giratórios. Eles haviam nos esquecido, seus hóspedes de honra em seu século fantasmagoricamente XIX. Lá embaixo o simulacro dos incêndios invisíveis das abóbadas hiperbólicas.
Podíamos subir até o grupamento mais elevado de zimbórios. Pois não fora essa a palavra principal das três que havíamos pronunciado exaltados azuis raios aquela noite total em que havíamos sido transportados para Laudbaer? Não fora o instante circunflexo? Zimbórios?! Novamente! Para o alto dos zimbórios prateados refletindo o luar que é, instantaneamente, o sol. Você veio, você aceitou, pela primeira vez, minha exaltação. Subimos pelas escadas de música muito fina, pelos degraus de espelho muito alto, atravessamos a clarabóia, nos sentimos logo aqui sob a tenda das constelações, nos sentimos no topo do mais pontiagudo zimbório, ah, elevamos nossos cálices de cristal com o vinho cintilante mais altíssimo, dançando ao som da forma das palmeiras oscilantes, brindamos aquela fuga deliciosa no topo do mais alto zimbório sob as estrelas. Zimbórios! Gritamos juntos a palavra afilada, embriagados. Sim, você não sabia? Não tinha sabido que a única maneira de voltar, de fugir dali era essa, que o único modo de escapar de Laudbaer, velozes, a cidade secreta de prata alucinada dos ladrões, era no ápice, numa gargalhada nos zimbórios?
Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances A cachoeira das eras; Além, Jericoacoarae pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. Este conto faz parte de seu livro editado recentemente, O romance que explodiu. E-mail: carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br
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