Café Literário Cronópios

O adversário e o olho clínico
por Bráulio Tavares





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
16/03/2008 22:18:00 
Devedores de Pirandello


Por Maurício Paroni de Castro



Antes de tudo, o mais importante: graças ao prêmio Myriam Muniz, federal, e ao PAC, estadual, prossegue-se o trabalho que desenvolvemos há dois anos. As companhias Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita se encontram para saldar uma grande dívida com ele, Pirandello. Pode-se fazer muita experimentação quando os autores somos nós, ou com autores contemporâneos, vivos e presentes aos ensaios. Mas um autor como esse nos torna devedores da tradição com que foram colocados em cena, aí incluídos os seus fantasmas teatrais. No Brasil, afastados do engessamento pátrio italiano, sofremos do mal inverso; pagamos em moeda prática anticonvencional. É algo meio mágico. Quem quer que enfrente e interprete Pirandello acaba passando mais ou menos pelos mesmos problemas, idiossincrasias e clichês. A crise comparece na vida de seus realizadores a cada espetáculo, pontual e necessária. Isso acontece nos bastidores de qualquer montagem.  

As relações entre atores, personagens e a tessitura existencial realizada por Pirandello nesse contexto são o foco principal de nossa experiência. Cada um vê o outro de posições inconciliáveis, tudo vira analítico, perde-se aquela síntese de personagens que, até Tchecov, imperava na dramaturgia universal. Essa foi a base de todo - todo – o teatro moderno ocidental.

Nossas duas montagens, de duas fases distintas do autor, deitam luz a esse aspecto. No Brasil, por causa das poucas traduções das muitas obras dele, Pirandello também tem o seu clichê: A visão, parcial, de que ele inaugurou o teatro que cita a si próprio, Não que a Itália não o tenha, mas lá surgiu de décadas de montagens censuradas por seus herdeiros.

Mas ele foi muito, além disso. Ele desarmou o drama burguês a partir dele mesmo, do fato de que ninguém neste mundo pode dar uma identidade à própria personalidade, seja real, seja fictícia, porque depende do próximo para tal. Aliás, o fictício tem as suas vantagens, pode até ser reinventado. Porém, as conseqüências disso são trágicas: o esvaziamento das relações humanas. Não é isso o que vivemos exacerbadamente em nossos dias? Ou: O que pode ser mais eminentemente político que isso, hoje? 

Apesar da seriedade do tema, colocamos em cena duas comédias, como quis o autor. Ri-se de maneira diferente. Quem faz teatro, vai ri do teatro; mas quem não faz, ri do drama que intimamente patrocina. Deixemos a Pirandello o comentário: "Penso que a vida seja uma comédia muito triste, posto que trazemos em nós, sem meios de saber como, por que, ou de quem, a necessidade de enganar-nos continuamente com a espontânea criação de uma realidade (cada um a sua e jamais a mesma para todos), que aos poucos se revela vã e ilusória. Quem entendeu o jogo não consegue mais se enganar; entretanto, quem não consegue enganar a si mesmo não pode mais ter gosto nem prazer pela vida. Assim é. A minha arte é eivada de compaixão amarga por todos aqueles que se enganam; mas esta compaixão não pode não estar acompanhada de uma feroz irrisão do destino, que condena o homem ao engano. (...)".

Inexplicavelmente inédita nos palcos brasileiros, Cada Um a Seu Modo, com montagem mais "didática", sofreu mudanças drásticas de leitura, em ato de fidelidade ao espírito do autor. Parte da trilogia teatro no teatro, apresenta um corte longitudinal do fenômeno teatral, parece a encenação divertida de um tratado de semiótica. Não ficamos por aí: tudo é permeado, ainda, pela ausência de valor da sublimação artística conseguida pelo sacrifício material – fato relevado com clareza somente em suas últimas obras. A mensagem, amarga, do abaixamento da arte ao nível da exposição indecente de intimidades de famosos ou boçais e o conseqüente arrivismo social e decadência do gosto é de uma atualidade que só obras geniais atingem.

A contrariar o coro da arte pseudo-engajada, há muita sociologia nessa estética. Aparentemente naïf, a trama da peça interna a ser representada como teatro dentro do teatro trata de duelos entre ricos enfastiados. Estes fingem defesas "éticas" das próprias fofocas sobre um caso de amor entre famosos que terminou com o suicídio de uma das pessoas implicadas.  Pirandello derruba mais um ícone: a total inutilidade do conceito de ética encerra a discussão engendrada por Machiavelli, séculos atrás.

O texto original prevê a interação dos atores com o público; no tempo em que foi encenado por Pirandello, havia o que restava ainda da cultura da suspensão da descrença (fato a ser citado adiante). Como interpretar, hoje, o plano da realidade do público, se o púbico real, paradoxalmente, não mais consegue acreditar na "verdade" da atuação dos atores que interpretam o público? Por isso, situamos o plano da realidade numa ficção despudorada a ser representada no fundo do palco. O palco fica visto, pois, do avesso. Tudo desanda, na multiplicidade de realidades que se chocará com a realidade final: o espetáculo em questão (aliás, todos os espetáculos em questão) não poderá ser levado a uma síntese final, impossibilitando o término da representação. Situação mais patética que frustrante, leva a contradição do tema às últimas conseqüências: em nossa montagem, o teatro interativo vagará desesperado na ausência do seu final. Qualquer discussão, qualquer aplauso que seja, serão espetáculos... Ou não. 

Como Você Me Quer, de sua penúltima fase como escritor, que ele escreveu para a amante e chefe de sua companhia, Marta Abba (cheguei a vê-la representar na Itália, já bem avançada na idade: era uma instituição-atriz-ex-do-Pirandello), é uma peça de suspense emotivo, reflexão e humorismo refinado. Requer virtuosismo de todos os que a interpretam, sobretudo das atrizes. Isso não desmerece os atores, mas estes são biologicamente homens; em nosso espetáculo eles tentam interpretar a personagem denominada A Qualquer Uma, mas não conseguem exatamente por serem homens, enquanto atores. A operação se desfaz com o gesto de uma atriz inconformada com a usurpação de seu papel, Constrói-se diante do público o paradoxo do palco nu e significativo, como, de resto, sugeriu Pirandello em todas as suas peças. Nesta também, o texto adquiriu uma multiplicação de sentido difícil de ser arrestada. Profeta do nosso tempo, paradoxo para Freud, o autor evidencia a perda do sentido social, econômico e emocional da personalidade, conceito duramente assimilado pelas pessoas comuns a partir da difusão de idéias Renascimento e do Iluminismo. É incrível como A Qualquer Uma parece, em alguns de seus muitos aspectos, uma jovem alienada dos nossos dias.  
 

E aqui retomamos o problema de repropor Pirandello a um público de hoje. Coisas como metateatro, em seu tempo chocavam a platéia e promoviam, por parte desse mesmo público, uma leitura sob um choque estético hoje indisponível. Samuel Coleridge nos assinala como convencionalmente se enfrenta a ficção com a idéia de que se estabelece no público uma suspensão voluntária da descrença. Trata-se de um pacto entre autor da obra e público, para poder explorar a obra que lhe é apresentada, conviver com as suas personagens, passando de mero espectador ou leitor a participante silencioso. Essa condição romântica foi explodida por Pirandello (não somente ele). A capacidade de nos afastarmos da nossa "realidade", para vivermos outra realidade que alguém nos apresenta não é mais sonho: é um trágico pesadelo, onde não sabemos mais que papel representarmos. Participamos, sim, e visceralmente, mas através da impossibilidade de nos situarmos numa condição existencial ao menos aceitável.

Infelizmente a Senhora Marta Abba e demais herdeiros de Pirandello, enquanto detiveram os seus direitos autorais, "preservaram-no" de releituras e atualizações que levassem a este tipo de conclusão. Massimo Castri, excelente diretor italiano, dirigiu espetáculos maravilhosos a partir de seus textos mas foi pontualmente censurado. No Brasil muitas montagens criativas e diferentes têm vindo à tona. Pelo menos em relação a Pirandello, estamos livres do que chamo de "flanelinhas do autor".

As duas traduções são nossas, mas só ficaram mesmo "redondas" quando as submetemos ao trabalho dos atores. São, portanto, mais ligadas ao palco que `a literatura, mesmo respeitando e utilizando o fato que se trata, sim, de um homem de teatro que é também um Prêmio Nobel de Literatura. Isso foi prática quotidiana na companhia de Pirandello. A maioria das peças, grosso modo, são versões teatrais das centenas de novelas do autor, adaptadas às características pessoais e artísticas de cada ator de sua companhia. Naquela época, a revolução da direção ainda não se havia realizado na Itália, aliás, quase concomitante com a brasileira, e feita pelo mesmo tipo de diretor. Tudo foi inspirado pelo historiador e crítico Silvio D`Amico, cujos livros, de tanta importância também para o nosso teatro, infelizmente nunca foram traduzidos para o Português. Reduzir, fundir personagens, mudar "lazzi" e improvisações, ainda mais com a participação tão determinante dos atores como fizemos pode parecer vanguardismo, mas é o máximo da tradição.

Há um velho ditado entre os escritores na Itália, "tradurre bene è tradire molto" (traduzir bem é trair muito).  Foi exatamente isso o que fizemos, em nome de Pirandello. E tem mais: na Itália, jamais poderíamos ter feito o que fizemos. Nesse sentido, o teatro brasileiro faz a sua contribuição ao teatro italiano... Amor com amor se paga.

 

 

 

 

 

Aqui vai a ficha dos espetáculos

 

COMO VOCÊ ME QUER. Estréia dia 3 de abril, quinta, às 21h00 horas e CADA UM A SEU MODO - Estréia dia 17 de abril, quinta, às 21h00 horas. TEATRO SÉRGIO CARDOSO - Sala Paschoal Carlos Magno (144 lugares). Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista, Telefone - 3288-0136. Horário da bilheteria - de Quarta a Domingo, das 15 às 19h para venda antecipada e das 19 às 21h para o espetáculo do dia.

 

 

Informação importante: estou preparando uma subversão de Vestir Os Nus, com Sérgio Sant`Anna, também colaborador de Cronópios. Deve estrear em fins de maio ou junho, conforme a boa vontade de eventuais patrocinadores. A seu tempo, haverá um artigo sobre a coisa.

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

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