28/4/2008 16:54:00 Novidade que permanece novidade
Por Micheliny Verunschk
Parte 1
A Poesia de Exatidões de Leonel Delalana
Uma poesia precisa. É assim que melhor se define o trabalho poético do paulistano Leonel Delalana Júnior. Seu livro de estréia, ainda inédito, Anatomia (topográfica & cirúrgica), revela um olhar preciso e mão firme, de quem não tem medo do risco e do corte. São poemas que exigem do leitor a atenção desperta pois que trabalham com imagens numa rapidez de flash fotográfico que muito agrada aos entusiastas de Ítalo Calvino.
Nesse trabalho em que agrega rapidez e precisão, o poeta age como se roubasse do real pequenos objetos, fraturas de momentos, coisas que sobram do olhar panorâmico e que, embora pareçam mínimas à primeira vista, são em tudo potência, possibilidade de explosão.
falo pêlos cotovelos
& bocas
enquanto o sol
subjuga as palavras adormecidas
em algum canto escuro qualquer.
Soco. Granada. Máquina de comover. A poesia de Leonel Delalana é também supensão. Desejo interrompido, uma ausência que se alonga como um fio entre a vida e a morte, o gozo e o anti-gozo.
não tente escrever
em minha mente
não tente
folha
em branco
ou
origami
flor
cavalo
mesa
chega
não tente
não quero mais.
A primeira parte do livro, que se denomina topográfica, abre veredas para uma abordagem mais íntima, uma cartografia de desejos medidos, desbravados, conhecidos palmo a palmo. Humor, ironia e olhar sensual, quando não perverso, sobre objeto e palavra são instrumentos que orientam esse percurso. Mas não há excessos. Não há senão a limpidez da palavra domada. E não diria aqui domesticada, pois resta nela aquele tanto de ferocidade necessária à boa poesia.
tio zaqueu e o menino laiu
laiu menino malvado enfiou sem dó a chapeleta inchada uma naja vupt!
no fotoscópio de tio zaqueu
o olhinho de porco do tio zaqueu ficou em flor
mas pegou gosto
ô menino bruto esse laiu, que falta de respeito
indignou-se tio zaqueu com o olho em flor
já piscando em outras paragens
A segunda parte, apropriadamente chamada de Cirúrgica, lança um olhar sobre o mundo. Antes, disseca relações e situações do cotidiano, da política, aquela maior da qual não há como fugir. O poema de abertura adverte: alguma coisa fede na beleza plástica dos dentes brancos/ alguma coisa no farol sem circo para irem embora/ alguma coisa fede, sob. Sem panfletarismos, o poeta levanta os tecidos apodrecidos e revela os tumores:
vestem-se as mais belas roupas
em cima de cadáveres
comem-se os mais refinados pratos
em cima de cadáveres
fazem artes conceituais
em cima de cadáveres
legislam em cima de cadáveres
viajam ao redor do mundo
rodopiando em cima de cadáveres
& os cadáveres renascem cadáveres
como fênices macabras
dançando à luz do seu eterno retorno
da sua podre nudez invisível.
e ainda:
carrego o bronze
do meu
país
de norte a sul
leste
oeste
a proteção do
redentor
largas
apunhaladas
nestas costas de mula.
E assim, segue a Anatomia de Delalana, alma e vísceras expostas. Rigor em forma de poesia da melhor qualidade.
Micheliny Verunschk, poeta pernambucana radicada em São Paulo. LançouGeografia Íntima do Deserto, Landy, 2003. Mantém o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com/
Publicações de um autor no Cronópios
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