Nos breves cursos que tenho dado sobre poesia e tradução poética, alguns alunos me dão o prazer de sua presença continuada. Entre estes, há cerca de um ano estava Louraci Santana, ou Loracy, como ele preferia assinar. Ele, que trabalhara toda a vida como sociólogo, veio para aulas na biblioteca Alceu Amoroso Lima, em busca de conhecimento teórico sobre poesia e domínio técnico do verso. Praticante de cordel, dedicava-se sistematicamente à poesia, tendo predileção pelos poemas de metro uniforme.
Austero, um tanto tímido, com uma fala rouca que lembrava fumante de longa data (embora já não fumasse), Loracy demonstrava interesse crescente nas aulas e satisfação quando percebia evolução em seu próprio labor poético. Um dos poucos que sempre trazia textos para discussão, seu cuidado com o que fazia era evidente. Mandava-me habitualmente poemas por e-mail, pedindo humildemente que eu os lesse e comentasse. Sinto, hoje, falta de suas mensagens, a que já havia me acostumado.
Loracy, que há pouco completou 63 anos, era apaixonado por poesia. Vinha de região distante da Zona Leste, de transporte público, para as aulas. Era um dos primeiros a chegar, nos sábados pela manhã, na Casa das Rosas: mesmo quando eu chegava mais cedo, ele já estava lá. Creio que nunca havia tido uma oportunidade de estudo como essa, que ele agarrava com determinação e entusiasmo. A tal ponto que, motivado pelas esparsas referências que costumo fazer à poesia grega arcaica, ele decidiu aventurar-se no aprendizado de grego antigo, pedindo-me uma indicação de caminho. Falei com um amigo, o jovem professor Breno Sebastiani, da USP, que coincidentemente estaria encarregado de ministrar o “Grego I” na faculdade de Letras, pedindo-lhe que aceitasse o Loracy (e também outro aluno meu, Charles, afinado com o colega no interesse pela língua) como ouvinte. Breno, gentil-homem, de pronto acolheu meu pedido.
A dificuldade própria da língua grega não o fez desistir do curso, como acontece com muitos bem mais jovens e com mais facilidades na vida. Tomava várias conduções para fazer o longo trajeto até a USP, em duas noites por semana. Dizia-me, lamentando, que estava aprendendo pouco, mas iria em frente. Certo dia, na FFLCH, após uma mesa-redonda da qual participei (e à qual ele foi assistir), comentou que pela primeira vez faltaria à aula de grego, que aconteceria mais tarde, pois não se sentia bem.
Talvez fosse, já, um sinal de que sua saúde andava mal. Há cerca de duas semanas, teve de ser internado por não sentir – e não comandar – os pés. Após muitas tentativas mal-sucedidas de diagnóstico, a doença (provavelmente vasculite) evoluiu de modo tão rápido e agressivo que lhe tirou a vida na noite de ontem, dia 15 de julho.
Resolvi prestar-lhe esta modesta homenagem, evocando seu nome num meio a que tenho acesso. Era um poeta em formação, em busca de aprimoramento, que parecia estar descobrindo novos espaços de um mundo a ser explorado com suor e prazer. Nascido e criado no campo, Loracy sabia muito bem das necessidades da sobrevivência, que impõem um pragmatismo avesso à dedicação por coisas como a poesia, ou qualquer arte. Mas teimava em se dar o “luxo” de buscar o que para ele fazia muito sentido, ainda que a outros de seu convívio parecesse não fazer. Certa vez um professor me disse que aprendizados como o de uma língua antiga fazem bem ao espírito. Espero que, ao partir, o poeta tenha levado – além de sua visão da poesia – algo de sublime que possa ter vislumbrado em seu breve estudo do grego.
Deixo aqui, por fim, dois fragmentos de poemas que me enviou, ambos relacionados ao êxtase que parecia envolvê-lo quando se dedicava a seus versos:
(1)
No peito apertado as palavras queimam,
tementes teimam e querem voar;
no papel branco as pegadas marcadas
convidam o poeta a se embriagar:
sonhar acordado e não se deter.
(2)
Fruto maduro na vinha selvagem,
ramos ondulantes, glaucos, serenos;
embriagado o poeta sorri,
sentado à espera da noite que vem.
Loracy Santana
Marcelo Tápia (Tietê, SP, 1954) é poeta, tradutor e editor. Publicou, entre outros, os livros Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Livro aberto (1992), Pedra volátil (1996) e o volume de tradução A forja – alguma poesia irlandesa (2003). Dirige a Editora Olavobrás. Vive em São Paulo. E-mail: marcelotapia@superig.com.br