24/10/2008 21:28:00
Sobre a palavra
Por Amador Ribeiro Neto
Há um provérbio árabe que apregoa a amputação de uma mão de quem empresta um livro. E a amputação das duas mãos daquele que o devolve. Sarcasmos à parte, o fato é que uma aluna esteve em meu apartamento para tomar emprestado um livro e resolveu perguntar-me se eu lia todo livro até o final, mesmo não gostando da leitura.
Interessante: quantos se espantam quando alguém abandona um filme antes do fim? Por que pessoas e mais pessoas vangloriam-se de assistir a todos e quaisquer filmes, de qualidade A até Z, sem nenhum constrangimento, mas ficam cheias de dedos quando dizem que leram um livro do Paulo Coelho, do Jô Soares, do Klaled Hosseini? Está na hora de desmistificar este auê face à palavra, à literatura.
A velha resposta de que cinema é diversão e literatura é papo-cabeça não ta com nada. Ou então que se assiste a um filme em duas horas e um livro lê-se em cinco dias, também não justifica nada. O fato é que a cultura livresca (ainda) anda envolvida numa aura tola, bocal e babaca que a torna cada dia mais distante do leitor.
Em uma conversa entre professores universitários, espantei-me com colegas opondo o livro à Internet. Inicialmente quis mostrar o descabido do embate, mas silenciei ante a brutalidade de tal raciocínio. Lembrei-me de outro provérbio, este me passado por um grande amigo filósofo e judeu: se alguém lhe dá uma tapa você revida, mas se um cavalo lhe dá um coice, você ignora.
Literatura é arte e cinema é diversão. Literatura é alta cultura e cinema é cultura de entretenimento. Livro é depositário do saber e Internet é saber da superficialidade. Palavra é domínio de conhecimento e imagem é engabelação fácil do pensamento. Estas e outras besteiras sem fim, encaro-as como coice de cavalos.
É claro que posso abandonar o cinema, a sessão de teatro, a conferência, as páginas de um livro à hora que quiser, sem o menor grilo. Por que tenho de submeter-me à ditadura aristotélica da lógica do começo, meio e fim? O filme está chato? Pé na rua. O livro está uma porcaria? Abandone. A dança está carregada? Bye, bye teatro.
Arte é mercadoria. Não tem qualidade, devolvo. Na maior, sem falsos pudores. Vivemos pisando demais em ovos. Pra dizer que vimos um quadro do programa da Ana Maria Braga, elencamos zil desculpas: do jogo do Fla-Flu a um filme do Fellini. Pra comentar uma matéria da Caras alegamos o tempo de espera no consultório médico. Por aí afora.
Quantas vezes não nos damos o direito de espinafrar a cultura erudita ou a popular em nome dos valores solidamente aceitos e divulgados da arte? Nem entendemos o que dizemos, mas dizemos por que o dito já vem com o aval histórico de um reconhecimento acima de nossas humildes e humilhadas inteligência e sensibilidade.
Não gostamos mas nem nos damos tempo de discordar. A palavra de ordem é a do crítico ou dos críticos. Quem somos nós para adentrarmos neste templo de saberes para iniciados? E devotos?
Cultura popular e cultura erudita são, em si, rótulos calcados no preconceito. Isto é fato. O resto é lero-lero. O que conta em artes é a qualidade estética, não as avaliações moral, religiosa, social, filosófica, política e o escambau.
Mas as pessoas ainda continuam misturando os canais da arte e valorizando a palavra como expressão suprema do pensamento, do saber, da cultura. Quem fala e escreve bem, este sim, é um sábio. Quem pinta, fotografa, costura, esculpe, imprime, molda, filma bem é um “inspirado”. Enfim: cultura fina é a da palavra.
Já que desde a semana passada estou todo proverbial, mando ver mais um. Meu avô, um simpaticíssimo velho anarquista, tinha a mania de subir numa cadeira para dar corda num velho relógio de parede que ficava sobre uma estante de livros. Um belo dia desequilibrou-se e, involuntariamente, agarrou-se à estante, que, claro, tombou sobre ele. O susto foi enorme para todos nós que estávamos na casa. Mas, de repente, ao invés dos gritos de dor ou do sangue escorrendo, o que vimos foi meu avô dando uma gostosa gargalhada e se cobrindo ainda mais com os livros. Espantado, eu, ainda garoto, indaguei-lhe o que estava acontecendo. Respondeu-me debochado: agora sou um sábio; finalmente tornei-me um sábio. Sem compreender nada, engatilhei a segunda pergunta: por que sábio, vovô? Do que o senhor está falando? E o velho, rindo debochado arrematou: meu falecido pai dizia que um burro coberto de livros é um sábio!...
Amo a palavra. Elegi-a como fonte de meu sustento na vida. Vivo da palavra, literalmente falando. Passo a vida encantado pela magia, pela cientificidade e pela poesia da palavra. Mas nego-me a eleger a palavra como depositária das melhores (senão únicas) formas de saber, fazer e produzir artes e verdades. Palavra de colunista!
Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.), organizador e co-autor de "Literatura na Universidade" (ensaios - Idéia Edit.). E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br |