04/12/2008 16:48:00
A síndrome de bibliotecário
Por Marcelo Barbão
Talvez seja por causa de Borges, ou as minhas reminiscências de adolescente, ou simplesmente uma necessidade de acumular livros. Não sei. Mas as bibliotecas sempre me fascinaram. Entro em bibliotecas públicas só para passear. Elas sempre foram mais interessantes, para mim, do que livrarias. Talvez seja uma questão de pureza, de evitar a parte comercial da compra-venda. Não sei. Bibliotecas lembram minha adolescência porque havia uma logo na esquina de casa. Ainda está lá, pertinho de onde mora minha mãe.
E, claro, já pensei muito em ser bibliotecário. Ainda penso. Ainda tenho tempo até terminarem as inscrições para o curso de Bibliotecário aqui na Biblioteca Nacional de Buenos Aires.
Por isso, o personagem central do livro de Ariel Magnus, Muñecas, me chamou tanto a atenção. Um bibliotecário completamente solitário (as palavras até rimam) que, de repente, e sem saber muito bem o motivo, aceita um convite de uma freqüentadora de onde trabalha: um convite para uma festa de aniversário.
Ele se arruma, compra vários presentes (por não saber qual dar) e parte para a casa da mulher. Ao chegar, encontra uma festa que não existe, já que nenhum dos convidados – a não ser ele, um não-convidado – apareceu. Descobre que a pobre mulher consegue ser mais solitária do que ele. E uma solidão muito mais triste, muito mais patética: a solidão de quem não quer ser solitária.
Nesse ponto, a novela, que tinha sido narrada em primeira pessoa pelo bibliotecário, sofre um giro e a mulher, que se chama Selín (do bibliotecário ficamos sem saber o nome), assume a incumbência. Parece que há uma perda com essa mudança, mas ela se torna necessária, já que o centro da trama, que era a solidão da mulher, passa a ser a do bibliotecário. E Ariel escolheu mostrar essa solidão a partir de uma posição exterior.
Quando insiste em levá-lo para casa de carro, Selín não imagina que vai descobrir, ao entrar no apartamento do homem, seus delírios e perversões já que o pobre solitário coleciona... bonecas. Sim, as do título. Não, não são bonecas de brinquedo, são bonecas eróticas, essas mesmo.
É neste ponto, nessa pseudo-conversa que antecipa o sono causado pelo excesso de bebida (que os dois tomaram a noite toda), que se desenrola a discussão sobre o tema principal do livro: as bonecas e a solidão. Entre outras coisas, descobrimos que o bibliotecário é um estrangeiro vivendo na Alemanha, e escolheu aquele país exatamente pela dificuldade de fazer amigos e pela personalidade fechada das pessoas.
Uma novela fluída, com cenas tragicômicas e uma instigante construção de personagens é o que nos apresenta Ariel Magnus em seu terceiro livro.
 Muñecas Autor: Ariel Magnus Editora: Emecé Cruz del Sur (consulte usando a ferramenta de busca de livros da parceria Martins Fontes - Cronópios)
Marcelo Barbão (ou Barbon na Argentina) é escritor, tradutor e jornalista entre outras atividades (fotógrafo e músico). Publicou o romance Acaricia meu sonho, Amauta, 2007. Foi co-fundador do projeto Amauta Editorial. Agora vive em Buenos Aires. E-mail: marcelobarbao@gmail.com |