Café Literário Cronópios

Cem nos Cinquenta
por Jorge Sanglard





 
Coluna:
O MENTIROSO
Maurício Paroni de Castro


Renato Borghi e Nelson Rodrigues, o casamento eternamente feliz
por Maurício Paroni de Castro




Tio Vanja brasileiro
por Maurício Paroni de Castro




Grand Guignol, o gênero degenerado
por Maurício Paroni de Castro




Influenza solitária de palco
por Maurício Paroni de Castro




Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo
por Maurício Paroni de Castro




O corte da tarja preta
por Maurício Paroni de Castro




O desenho angustioso do limite
por Maurício Paroni de Castro




O velório indecente
por Maurício Paroni de Castro




Satyros, Sons, Furyas
por Maurício Paroni de Castro




Devedores de Pirandello
por Maurício Paroni de Castro




O Aleph, uma vela e um olho
por Maurício Paroni de Castro




A mão do gato
por Maurício Paroni de Castro




Do Filme A Via Láctea -
por Maurício Paroni de Castro




O Mentiroso Mergulha em Shakespeare de Verdade
por Maurício Paroni de Castro




Mini-artigo sobre a malvadeza (complementar a “Quando a vida se liberta da obra”)
por Maurício Paroni de Castro







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
01/02/2009 17:04:00 
O velório indecente


Por Maurício Paroni de Castro




    Janine Corrêa - foto: Bruno Zorzal

A dramaturgia
do próximo espetáculo do Atelier de Manufactura Suspeita, “Auto da Defunta Nua”, parte do Pirandello de "Vestir os Nus", da metafísica do Jean Cocteau do "Monólogo da Mentira", passa pelo "Rascunho para um bilhete de suicida" e termina na "Oração a uma jovem defunta nua"; estes textos são de Sérgio Sant´Anna, escritos após a leitura do autor siciliano e figuram integralmente neste espetáculo.

No palco, o drama das justaposições de papéis sociais  geradas quando se enxerga a própria identidade através de referenciais ideológicos e conseqüentes moralizações.

Veículo privilegiado da encenação: O velório despudorado da protagonista de "Vestir os nus", Ersilia Drei, encenado por uma volúpia literária radicalmente criadora que age em sentido contrário à decomposição da vida que aparentemente a morte traz consigo. A possibilidade de unir os textos através do corpo e da mente da atriz nos fez acreditar na ousadia de enfrentar a nudez formal dentro de um velório.



           Janine Corrêa - foto: Bruno Zorzal

Prefigura-se uma pornografia da morte, um strip tease denunciador degradação da personalidade, originada pelo desprezo de qualquer linguagem capaz de comunicar os próprios sofrimentos.
É uma demolição sarcástica de uma personagem desgraçada diante de seu criador, até a sua entrada, nua, numa urna, onde quer se inspirar para redigir um bilhete de adeus “literário”. Ali ela morre. A oração fúnebre, texto subseqüente,  é introduzida pelo próprio Sérgio Sant´Anna, em vídeo projetado sobre a mulher morta; paira no palco a impressão de onipotência divina do escritor. Uma espécie de Cristo Pantocrator, que tudo domina, paradoxalmente cômico e cruel. A luz do projetor de vídeo ilumina as cenas. Há também lâmpadas-simulacro de velas de defuntos.


    foto: Bruno Zorzal

Tende-se a pensar a iluminação de um espetáculo como coisa de televisão, de cinema ou de literatura, na melhor das hipóteses. Geralmente, o teatro não é lembrado. O esquecimento não é somente estético: é essencialmente político. A censura da ditadura militar e a depauperação de nosso sistema educacional destruíram a história e a tradição teatral brasileira. A fruição de nossa arte funciona plenamente quando a platéia tem aguda percepção verbal. Isso não é necessariamente dependente da literatura ou de qualquer codificação superficialmente intelectualistica. Textos de Pirandello – para não mencionar os de Sérgio Sant´Anna – não permitem  tal acinte.



           foto: Bruno Zorzal

A iluminação no teatro serve para iluminar um ambiente e não apenas a cenografia. Isso nos aproxima aos cânones do surrealismo, onde não se dá por garantida a convenção teatral, mesmo que a peça seja representada num palco. Paradoxalmente, o teatro (pelo menos o teatro do Manufactura) é antes um lugar mental que um edifício onde de  representam peças. Estas acontecem na mente do espectador, são sugerida pelo palco. A coisa é mais trabalhosa e precisa do que parece. O cineasta Buñuel nos dá uma mãozinha  neste sentido, desde o copo de leite com que Ersilia se envenena até a ironia de que ela usa ao entrar em sua urna. No final, a personagem se livra de todas as suas roupas e angústias, mas é a atriz que sai nua pela porta dos fundos do teatro, feliz pela liberdade de expressão alcançada e pela música de cena que se ouve.

Há muita diferença entre simplicidade e precariedade – a nossa companhia geralmente usa lâmpadas comuns, ajudadas por pouquíssimos refletores, o que propicia o mesmo clima entre platéia e cena, como sempre foi uso do teatro até o século XVIII. Cultivamos, por metodologia, um hábito arcaico para pensar espetáculos: servimo-nos da mentalidade criativa da sociedade pré-industrial; até quando empregamos o projetor de vídeo, tecnologia impensável naquele estágio da arte teatral. O teatro e suas tradições desenvolveram-se muito tempo antes da Civilização Industrial. Surgiu bem antes da invenção da direção moderna, fruto da própria idéia de indústria. A linfa quintessencial do palco é composta somente do trabalho de tipo artesanal. Uma forte marca de direção paralela à manutenção desse tipo de artesanato é a maneira que o nosso Atelier de Manufactura Suspeita encontra para conviver com as vertigens da literatura de Sérgio Sant’Anna.


   Janine Corrêa - foto: Bruno Zorzal



Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com

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Publicações de um autor no Cronópios
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