Café Literário Cronópios











Leite derramado
por Fernando Marques





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[18] Verso livre obrigatório versus forma fixa voluntária
por Glauco Mattoso




[17] Desalongando o pappo e desmedindo forças
por Glauco Mattoso




[16] Bacchanal buccoanal ou suruba cubuccal?
por Glauco Mattoso




[15] Enquadrado na quadrilha dos quadrinhistas
por Glauco Mattoso




[14] Macacos soltos no laboratório
por Glauco Mattoso




[13] De volta para o presente
por Glauco Mattoso




[12] Graecum est, non legitur
por Glauco Mattoso




[11] Nem tanto ao mar, nem tanto a marte
por Glauco Mattoso




[10] Atropelos nos Anthroponymos
por Glauco Mattoso




[9] Topicos Tupynicos e Toponymicos
por Glauco Mattoso




[8] Idiosyncrasias idiomaticas
por Glauco Mattoso




[7] Quando o vice-versa é versão do vicio
por Glauco Mattoso




[6] Das escrituras demolidoras às releituras edificantes
por Glauco Mattoso




[5] Lettra que te quero lettra
por Glauco Mattoso




[4] Você sabe com quem está escrevendo? Com seu computador fallante!
por Glauco Mattoso







 


Micheliny Verunschk


Sebastião Nunes


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Márcia Denser


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


José Inácio Vieira de Melo


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


João Filho


Eduardo Milán


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Márcio Souza


Leda Tenório da Motta


Laure Limongi


Frederico Füllgraf


Lau Siqueira


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Cláudio Soares


Alfredo Suppia


Artur Matuck
    
7/2/2009 17:17:00 
Portuguez fallado ou escripto?[2]


Por Glauco Mattoso



Conversava eu com dois amigos, quando um delles, desattento, commentou que minha opção pela velha orthographia seria imitação do inglez ou do francez. Logo esclareci que, até pelo contrario, foi o inglez que seguiu a graphia latina e "imitou" a nossa matriz. Na verdade, entre as novilatinas, a coisa ficou equilibrada até os annos 1940, quando o francez e o portuguez eram etymologicos, emquanto o italiano e o hespanhol eram phoneticos. Quanto ao inglez, o etymologismo nem é tão rigoroso quanto no francez: elles escrevem "literature", os francezes escrevem "littérature", por exemplo. E são varias as differenças em relação ao systema que adoptavamos no Brasil: elles escrevem "fantasy", "hallucination", "author", emquanto nós escreviamos "phantasia", "allucinação" e "auctor", mais correctamente, aliaz.

 

Fallando em correcção, reconheço que, entre nós, as próprias auctoridades intellectuaes escorregavam de vez em quando, como o grammatico Eduardo Carlos Pereira, o lexicographo Aurelio Buarque de Hollanda e o poeta Olavo Bilac. Pereira, auctor das consultadissimas "Grammatica expositiva" e "Grammatica historica" (que foi para a epocha tão referencial quanto, mais tarde, um Napoleão Mendes de Almeida com sua "Grammatica methodica", ou quanto um Evanildo Bechara, até mesmo um Pasquale, actualmente), vivia alertando para não confundirmos o correcto "auctor" com o erroneo "author", mas escrevia erradamente "eccletico" em vez do correcto "eclectico". Aurelio, cujo "Pequeno diccionario brasileiro da lingua portugueza" precedeu o actual e registrava entre parenthesis a forma antiga dos vocabulos verbetados, consignou "phimose" com "Y", confundindo a palavra com os cognatos de "physica". Bilac, em seu "Tractado de versificação", escreveu "satira" com "Y", sendo que apenas "satyro" se escreve assim. Eu mesmo, que me gabo das obsessões, cochilei e escrevi "Delphino" com "F". Coisas que acontecem nas melhores familias typographicas...

 

Nesse ponto do papo, o outro amigo, ja enthusiasmado com o assumpto, suggeriu que se creasse uma communidade no Orkut para os adeptos da velha orthographia, typo "Eu prefiro o PH" ou "Eu adopto o systema archaico". Deixei por conta delle.

 

Não sei si terei seguidores, mas hoje sou caso isolado de resistencia a qualquer orthographia reformada. Comtudo, na decada de 1940, quando a reforma foi mais ampla, a resistencia era geral. A começar pelos nomes proprios, cujos proprietarios se sentiam litteralmente desapropriados. Ruy Barboza e Raymundo Correa ja não podiam protestar contra a alteração para "Rui Barbosa" e "Raimundo Correia", pois estavam mortos, mas Alceu Amoroso Lima fez questão de manter seu pseudonymo como Tristão de Athayde, em vez de actualizal-o para "Ataíde". Os bahianos se recusaram a mudar o nome do estado para "Baía" e conseguiram mantel-o como Bahia. Ja os piauhyenses não tiveram tanta influencia politica e não puderam evitar que o Piauhy virasse "Piauí". Os habitantes de Mogy Guassu obtiveram uma victoria parcial, ja que evitaram a forma "Moji" mas não impediram que Guassu virasse "Guaçu". Si eu fosse acreano, jamais acceitaria graphar "acriano", da mesma forma como um alagoano não ia gostar de escrever "alaguano". O proprio Antonio Houaiss, mentor da actual reforma, seria pivô e victima das contradicções philologicas si parasse para pensar.

 

Afinal, para que reformar? Na epocha da maior reforma se allegou que era para facilitar a alphabetização e para seguir o exemplo de outras linguas novilatinas, como o italiano e o hespanhol, que phonetizaram a escripta. Allegações furadas, claro: os inglezes e francezes não são menos alphabetizados porque conservam o "PH" em "philosophy" e "philosophie", nem os italianos são mais cultos porque escrevem "omossessuale" em vez de "homosexuale". Ademais, si quizessemos realmente phonetizar nossa orthographia, teriamos que fazer como os italianos, e não adoptar uma reforma meia-bocca que escreve "homossexual" com dois "SS" mas mantendo o "H" mudo. Si fosse para reformar, que fizessemos uma reforma coherente, escrevendo "ciência" e "conciência" em vez de "sciencia" e "consciencia", por exemplo, ou "umano" e "desumano" em vez de "humano" e "deshumano", ou "ábil" e "inábil" em vez de "habil" e "inhabil".

 

Houaiss, nesta ultima reforma, allegou que o motivo seria melhorar a communicação entre paizes lusophonos, especialmente nos tractados internacionaes. Ora, temos mais o que fazer! Por acaso inglezes e americanos deixam de se entender só porque um escreve "humour" e "theatre" e o outro escreve "humor" e "theater"? O peor é que nenhuma reforma melhora o entendimento ou a pronuncia do proprio nome do Houaiss, que em Portugal continua sendo António e no Brasil scismaram de escrever com circumflexo, "Antônio". Na antiga orthographia Antonio não levava accento, de modo que cada povo pronunciaria o nome conforme sua cultura, o que é mais logico.

 

Portanto, o que define o nivel cultural dum paiz ou fixa sua linguagem escripta não é uma norma artificialmente architectada por academicos, e sim o uso, o costume, regulado unicamente pela tradição, como no inglez, no francez ou no portuguez anterior a 1943. Lingua fallada nada tem a ver, nem precisa ter, com a lingua escripta, mesmo porque nenhuma phonetização consegue retractar fielmente as differenças dialectaes ou siquer o sotaque mais commum. Pura perda de tempo querer abolir os "PH", "TH", "LL" e "TT" de "phosphoro", "mathematica", "Mello" ou "Mattoso", pois mais se perde em reimpressões, revisões, correcções e actualizações didacticas que o que se gastaria em ensinar e apprender as regras tradicionaes.

 

Bem lembrava Pereira que a orthographia phonetica ja tinha sido practicada na phase mais embryonaria do nosso idioma, mas fora abolida pelos latinistas do seculo XV justamente porque não reflectia, no espaço e no tempo, as variações prosodicas da lingua fallada. Portanto, si já se restaurou a etymologia tempos atraz, nada impediria que abolissemos a phonetica novamente, passando a escrever-se "chrysanthemo", "myosotis", "cyclame", "amaryllis", "orchidea" ou "dahlia", como Machado escreveria o nome dessas flores... Pode ser idealismo, mas os poetas são teimosos mesmo, como os hespanhoes que, após a dictadura franquista, tiveram coragem de restaurar a monarchia. "¿Hay gobierno? ¡Soy contra!", dizia o anarchista naufrago ao chegar àquella ilha semideserta. Eu ja diria: "Há desaccordo nos accordos orthographicos? Sou contra qualquer accordo!" E passo ao largo, com ou sem communidade no Orkut.

 

No proximo capitulo começo a detalhar as taes regras tradicionaes (e as modificações do mais recente "accordo"), para vermos como nenhuma reforma lhes melhorou a applicabilidade.

 

 

///

 

 

Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br 


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