29/07/2005 21:26:00
A democratização da arte e os anéis da serpente
Por Eliana Pougy
Desde meados do século XX a democratização da arte vem sendo avidamente buscada pelos artistas, pelos intelectuais, pelos estudantes. O ideal de “arte para todos” norteia quase toda a produção cultural moderna e contemporânea, e já teve seus momentos mais radicais. Artistas de vários movimentos da Arte Moderna, desde os dadaístas do começo do século XX até os artistas da Arte Pública dos nossos dias buscam a participação do espectador nas obras de arte e o acesso irrestrito à fruição da arte.
Um dos fatores que mais une arte e democratização é a tecnologia. Desde o advento da imprensa, e mais ainda com o surgimento das redações de jornal, a máquina está a serviço da democratização da arte, antes um privilégio das elites. Walter Benjamin, filósofo da Escola de Frankfurt, foi um dos primeiros a perceber o quanto o cinema era a arte das massas, para as massas, pelas massas. Ele defendeu com unhas e dentes o lado positivo das tecnologias ligadas à arte como forma de levar a arte para o povo. Os escritores marginais dos anos 70 e 80 utilizavam mimeógrafos e máquinas de xerox para reproduzir seus textos e vemos essa intenção potencializada a mil aqui na Internet. É a realização física do hipertexto, teorizado por Roland Barthes. Isso sem falar dos músicos, dos videoartistas, dos pós-modernos sem definição, que utilizam a tecnologia como uma extensão de seus corpos.
A questão que se coloca agora é de que forma essa busca pela democratização já foi engolfada pelo mercado e que vantagens as empresas e o governo, os poderosos de plantão que são sempre os mesmos, levam nessa democratização.
Não é preciso forçar muito a memória para que nos lembremos das primeiras edições brasileiras de livros de bolso de ficção, feitas pela Ediouro, com preços populares e muitas vezes compilando as obras originais. Que problema poderia existir em se “resumir” obras clássicas, se o objetivo de permitir maior acesso do povo à cultura estava sendo atingido? E que problema pode haver em se fazer livros para crianças e jovens que recontam as historias originais de grandes nomes da literatura mundial a preços módicos? E por falar nisso, que quer dizer isso de LPB, meu santo deus?
Não é preciso forçar a memória para nos lembrarmos das primeiras bienais de arte democráticas. Filas e mais filas de crianças e pessoas do povo, andando em volta, em cima, embaixo, entre, obras das mais diversas partes do mundo, olhando com espanto para aquilo tudo e com muita vergonha de esboçar qualquer comentário. Quem foi à ultima bienal viu as portas abertas à entrada de qualquer pessoa ao prédio do Ibirapuera entretanto, o acesso às explicações das obras era cobrado! De que vale a visita à bienal sem que se tenha nenhuma idéia de que raio é um fusca pendurado por cabos de aço? O ensino de arte nem é levado em conta pelo MEC. O PNDL, plano nacional de livro didático, não compra livros de arte para as bibliotecas das escolas públicas. Inacreditável.
O governo festeja a cada dia o avanço da Internet brasileira. Infelizmente, o acesso aos computadores ainda é incipiente no Brasil. Dos 180 milhões de brasileiros, apenas 6 ou 7 milhões têm acesso à Internet. E mesmo quem tem computador e Internet vem sendo tolhido cada vez mais de seu privilégio de acesso a produtos culturais gratuitos, haja visto o ataque das gravadoras de música e das distribuidoras de filmes aos sites que faziam isso. Só o que não se regula é o conteúdo ilegal da net, incentivando-se, assim, o mito de que a Internet faz mal para crianças.
O acesso ao teatro gratuito, ao cinema gratuito, aos espetáculos de dança e de música gratuitos, só ocorre nos grandes centros e em geral no eixo Rio-São Paulo. Como ficam as outras capitais, o interior dos Estados, o centro, o nordeste, o norte? Que peça de teatro vai se apresentar dentro das favelas? Quem garante o transporte e a segurança dos artistas? Quem constrói teatros decentes no interior? Quem faz cinema ao ar livre na floresta, no sertão, na praia?
O que realmente sobra para o povo é a mídia. O único bem cultural a que o povo tem acesso é, sem sombra de dúvida, os programas de televisão e de rádio, esses veículos que ainda transmitem informação via satélite e que são totalmente patrocinados pelas empresas e pelo governo. Isso é arte para o povo: as músicas populares, a estética do consumo, a literatura folhetinesca das tele e rádio-novelas, a alucinação dos videoclipes. E só.
A democratização da arte no Brasil é um engodo. É uma jogada de marketing. É uma democratização de fachada. É como o ensino público no Brasil. Como dizia Deleuze, vivemos numa sociedade de controle em comparação com a sociedade disciplinar de outrora, onde os papéis de dominador e dominado eram claros. Ele criou uma metáfora em que os poderosos de hoje são comparados às serpentes sinuosas e traiçoeiras, em contrapartida às toupeiras do poder de antes. Sem dúvida, “os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira”*. Por isso, acordemos.
* DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
Eliana Pougy é mulher feita, mãe em andamento, artista em construção e professora em experiência. Já publicou em papel e em pixels, no Brasil e em Portugal. Recebe essa piada que são os direitos autorais brasileiros. É mestranda na FE-USP e professora universitária, além de capacitar professores em arte. Agora está aqui.
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