Café Literário Cronópios

O lance de dados
por Edvaldo Santana





 
Coluna:
A DIFERENÇA É O QUE HÁ
Eliana Pougy


Coisas óbvias e lugares comuns - final
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns X
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IX
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VIII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns V
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IV
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - III
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - II
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns
por Eliana Pougy




O menino do meio
por Eliana Pougy




Catadores de dignidade
por Eliana Pougy







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
29/07/2005 21:26:00 
A democratização da arte e os anéis da serpente


Por Eliana Pougy




Desde meados do século XX a democratização da arte vem sendo avidamente buscada pelos artistas, pelos intelectuais, pelos estudantes. O ideal de “arte para todos” norteia quase toda a produção cultural moderna e contemporânea, e já teve seus momentos mais radicais. Artistas de vários movimentos da Arte Moderna, desde os dadaístas do começo do século XX até os artistas da Arte Pública dos nossos dias buscam a participação do espectador nas obras de arte e o acesso irrestrito à fruição da arte.

 

Um dos fatores que mais une arte e democratização é a tecnologia. Desde o advento da imprensa, e mais ainda com o surgimento das redações de jornal, a máquina está a serviço da democratização da arte, antes um privilégio das elites. Walter Benjamin, filósofo da Escola de Frankfurt, foi um dos primeiros a perceber o quanto o cinema era a arte das massas, para as massas, pelas massas. Ele defendeu com unhas e dentes o lado positivo das tecnologias ligadas à arte como forma de levar a arte para o povo. Os escritores marginais dos anos 70 e 80 utilizavam mimeógrafos e máquinas de xerox para reproduzir seus textos e vemos essa intenção potencializada a mil aqui na Internet. É a realização física do hipertexto, teorizado por Roland Barthes. Isso sem falar dos músicos, dos videoartistas, dos pós-modernos sem definição, que utilizam a tecnologia como uma extensão de seus corpos.

 

A questão que se coloca agora é de que forma essa busca pela democratização já foi engolfada pelo mercado e que vantagens as empresas e o governo, os poderosos de plantão que são sempre os mesmos, levam nessa democratização.

 

Não é preciso forçar muito a memória para que nos lembremos das primeiras edições brasileiras de livros de bolso de ficção, feitas pela Ediouro, com preços populares e muitas vezes compilando as obras originais. Que problema poderia existir em se “resumir” obras clássicas, se o objetivo de permitir maior acesso do povo à cultura estava sendo atingido? E que problema pode haver em se fazer livros para crianças e jovens que recontam as historias originais de grandes nomes da literatura mundial a preços módicos? E por falar nisso, que quer dizer isso de LPB, meu santo deus?

 

Não é preciso forçar a memória para nos lembrarmos das primeiras bienais de arte democráticas. Filas e mais filas de crianças e pessoas do povo, andando em volta, em cima, embaixo, entre, obras das mais diversas partes do mundo, olhando com espanto para aquilo tudo e com muita vergonha de esboçar qualquer comentário. Quem foi à ultima bienal viu as portas abertas à entrada de qualquer pessoa ao prédio do Ibirapuera entretanto, o acesso às explicações das obras era cobrado! De que vale a visita à bienal sem que se tenha nenhuma idéia de que raio é um fusca pendurado por cabos de aço? O ensino de arte nem é levado em conta pelo MEC. O PNDL, plano nacional de livro didático, não compra livros de arte para as bibliotecas das escolas públicas. Inacreditável.

 

O governo festeja a cada dia o avanço da Internet brasileira. Infelizmente, o acesso aos computadores ainda é incipiente no Brasil. Dos 180 milhões de brasileiros, apenas 6 ou 7 milhões têm acesso à Internet. E mesmo quem tem computador e Internet vem sendo tolhido cada vez mais de seu privilégio de acesso a produtos culturais gratuitos, haja visto o ataque das gravadoras de música e das distribuidoras de filmes aos sites que faziam isso. Só o que não se regula é o conteúdo ilegal da net, incentivando-se, assim, o mito de que a Internet faz mal para crianças.

 

O acesso ao teatro gratuito, ao cinema gratuito, aos espetáculos de dança e de música gratuitos, só ocorre nos grandes centros e em geral no eixo Rio-São Paulo. Como ficam as outras capitais, o interior dos Estados, o centro, o nordeste, o norte? Que peça de teatro vai se apresentar dentro das favelas? Quem garante o transporte e a segurança dos artistas? Quem constrói teatros decentes no interior? Quem faz cinema ao ar livre na floresta, no sertão, na praia?

 

O que realmente sobra para o povo é a mídia. O único bem cultural a que o povo tem acesso é, sem sombra de dúvida, os programas de televisão e de rádio, esses veículos que ainda transmitem informação via satélite e que são totalmente patrocinados pelas empresas e pelo governo. Isso é arte para o povo: as músicas populares, a estética do consumo, a literatura folhetinesca das tele e rádio-novelas, a alucinação dos videoclipes. E só.

 

A democratização da arte no Brasil é um engodo. É uma jogada de marketing. É uma democratização de fachada. É como o ensino público no Brasil. Como dizia Deleuze, vivemos numa sociedade de controle em comparação com a sociedade disciplinar de outrora, onde os papéis de dominador e dominado eram claros. Ele criou uma metáfora em que os poderosos de hoje são comparados às serpentes sinuosas e traiçoeiras, em contrapartida às toupeiras do poder de antes.  Sem dúvida, “os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira”*. Por isso, acordemos.




 

 

* DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

 

 




 

Eliana Pougy é mulher feita, mãe em andamento, artista em construção e professora em experiência. Já publicou em papel e em pixels, no Brasil e em Portugal. Recebe essa piada que são os direitos autorais brasileiros. É mestranda na FE-USP e professora universitária, além de capacitar professores em arte. Agora está aqui.

E-mail: pougy@uol.com.br

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