Café Literário Cronópios











Dando férias ao ego
por Mathilda Kóvak





 
Coluna:
CONSTELAÇÃO DE SALIVA
Carlos Emílio C. Lima


Os cadernos das devorações felinas
por Carlos Emílio C. Lima




Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim
por Carlos Emílio C. Lima




No Antigo Egito
por Carlos Emílio C. Lima




Cabeças decapitadas
por Carlos Emílio C. Lima




Róia!
por Carlos Emílio C. Lima




Orbitação
por Carlos Emílio C. Lima




Jagarananda
por Carlos Emílio C. Lima




O que aconteceu antes
por Carlos Emílio C. Lima




Sempre ao redor de Wuêé
por Carlos Emílio C. Lima




Uma história de volta para o cego Lim... de Laudbaer
por Carlos Emílio C. Lima




Aproximação
por Carlos Emílio C. Lima




A pedra Knalp
por Carlos Emílio C. Lima




Luvibórix
por Carlos Emílio C. Lima




Chovendo
por Carlos Emílio C. Lima




Barilaê a chegar
por Carlos Emílio C. Lima







 


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Carlos Emílio C. Lima


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15/4/2009 17:49:00 
Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim


Por Carlos Emílio C. Lima



         Vicente Franz Cecim, neste seu livro de textos narrativos em cânticos em círculos, não faz romance, contos, o poema só. Quer aprofundar sua lâmina com luzes de vozes na ponta, arranhar, rasura de cascas, força e seiva, o grito das metamorfoses na noite, apontando para, escândalo dos escândalos, o sofrimento humano, um uivo descritivo até às estrelas máximas. Atenção: isso é literatura. Com sua massa escrita de nuvens é um livro de um humano para humanos. Canto da coluna vertebral erguida aos rumos. Este volume de reunião de sucessivos livros (que o autor denomina de “Viagem a Andara” e que se acopla, inevitável, ao imediatamente anterior, “O livro invisível”, Iluminuras, 1988) ouroboros, livro com asas, de repente pode ser o mais religioso dos livros, com as palavras mais próximas ao religar.

         Fazer silêncio e ler um texto que não esconde números, magnetismos e ligações com tradições anti-humanas, um texto-textos, nascido de jorros puros, lancinantes, e que, rítmico, é também contente - o desespero tem seus segredos, seus atalhos diretos até à salvação. Dessa obra não há frio falar, seria ridículo. Como o resumo do sumo desses mitos, oscilantes nervuras narrativas? Textos para leitura de vôo, sobrevôo atento sobre os meandros da trama. É literatura de rios e pássaros. Mensagens enviadas da floresta, relatos de emergência.

         Cecim, paraense de Belém, escreveu “histórias” “para nada e ninguém”, com sabor de instrumentos de sopro, melodias de árvore crescendo, histórias mais que narrativas, que ultrapassam o contar, histórias-correnteza, num avolumar-se veloz além de si mesmas. Da literatura de Vicente Cecim quase que somente se pode falar à base de metáforas. É provável que seja a melhor literatura fluindo no Brasil. O autor já foi comparado aos grandes que escrevem ou escreveram na língua portuguesa. Para mesmo além da escuta (sua escrita é auditiva), sua literatura é de vozes, vozes aladas. Sua linguagem é de ave, linguagem-em-queda, língua-vertigem. Seus livros simultâneos são espantosamente novos, são a ferida aberta, solar da literatura brasileira. Eles aparecem quando a humanidade atinge a sua maior crise. Falta companhia, diálogo, amor, a fome é quase total, tudo falta, a solidão estrelada, imensa, vasta-disseminada, enorme cheia de cidades, em círculos, a grande pedra desabou lá de cima. Ouviu-se o estrondo-silêncio, esférico, seus círculos, a solidão e seus círculos cada vez maiores de expansão. Cecim escuta esses círculos, acompanha a queda dessa pedra cósmica (toda pedra é cósmica), a queda de um homem do alto, a estranha queda em grito inaudível de um homem do céu. Então as narrativas do desespero das vozes em vôo entrelaçam-se. Os mitos desfibram-se, disparos das vozes-luzes-aladas da selva amazônica: desabam seus tecidos. O grito poético de um dos mais importantes, imaginativos e emocionados escritores do mundo. Nenhum exagero. Este “Silencioso como um Paraíso” é um escândalo porque é uma espécie de novo evangelho, evangelho flutuante da selva. Instruído por tons básicos, relumes, seu autor deixou-se levar pelo agrupar-se das palavras de fundamento, densificando-as da matéria ao ser, que praticamente se constelam sozinhas, míticas, imantadas desfiadas em cantos, boiando, em surdina mineral. Ou um fio de água brilhante quase mínimo, um lacrimejar, um sopro minimalista de segredos, um escutar dos ritmos porosos dúcteis fluindo nas artérias, esse emaranhado que se move, sangue, linfa, condução do profundo, arquétipo quântico da linguagem em arquipélago, essa desenhada caligráfica escuta das vozes naturais, oriundas da floresta.

         Extraiu-se, enfim, dos subterrâneos do Ocidente, ou melhor, de seu reduto cósmico (a Amazônia), da polpa de sua floresta, da libertária tradição do intuído, com oscilações de mito vegetal, uma poética narracional não-racional, um grito de floração, o cântico, o clamor, desde o fundo do infinito, do ser mais real e mais antigo. Desde o teclado da coluna vertebral, um diálogo de tremores com as estrelas. Este tremor que abala. A poesia liga, outra vez, a terra ao céu.

        O surrealismo novo, curvo, da floresta das chuvas com seu tecido de notações seminais, a visão estroboscópica da floresta. O cinema literário em espiral de toda a floresta com seus clarões nos pontos mais espessos. Aqui os textos-aldeias-ideias, as histórias se formam, orgânicas, no momento mesmo em que são geradas ressoando seus recurvos ecos, o soprar sem fim das árvores e dos bichos e das águas e das nuvens e dos insetos e dos pássaros ressoando em abóbadas de ouro, pós-bíblicas, reinvenção do Gênesis a cada frase. Amazônico e genesíaco. A incisão líbertária na tradição “religiosa”... Histórias que nascem de si mesmas... de um narrador dissolvido em meio aos rumores e desmoronamentos. A geração espontânea da linguagem, com seus seres próprios, dobráveis. São Jogos lúdicos do desespero. Aquilo que surge do desconhecido, da sombra interna do homem, do seu lado esquerdo, sem psicanálise, liberto, sábio, solto. Teatro de incêndios dos clamores da carne. A narração escorre em poema. A narração escorre em frases sem ponto final. O começo pode não ser na origem. Pássaros (sempre as aves, a pré-figuração dos anjos) se transformam em areia. E voam de volta. Tudo tem voz, as águas, as pedras, as árvores. Tudo flui. Emana. Heráclito navega aceso nos rios da linguagem da floresta, no texto mil vezes simultâneo a si mesmo. Tudo é oscilação, miragem e vibração, nada é rígido, tudo escapa do terror da completa solidez...

         Becket, Kafka reconduzido à luz da floresta, o inseto Gregor Samsa multiplicado em vários verdes pirilampos, jogo do dizer pela floresta, texto de miríades sobre tudo.

        Recados mânticos ao leitor mântrico. Vicente Cecim escreve contra a trama de arames farpados que, às vezes, ameaça envolver a linguagem. Atua à distância dos mapas narrativos, das receitas temáticas, das preparagens literárias da moda com seu texto eternamente vagante. É no poema, é ali que começa a história.

        Histórias-ondulações-na-água-nunca-imóvel. Narrativas de um filósofo dos rios e dos ventos. A floresta em Cecim é como o sertão em Guimarães Rosa. Só que, nele, a travessia é paisagem de seres a nos atravessar. O autor escreve sobre aquilo que esqueceu. Parábolas. A mobilidade dos mitos trazidos assim é a mais livre do que as modulações do caleidoscópio. O sopro, o sonho, o dia, a noite: com isto se tecem as lendas que vêem sempre do horizonte... São outras frequências, cantigas de longe que chegam. Migrações da linguagem, fios onduláveis de palavras altas como pássaros se conduzindo em direção. O leitor é o livro.

         “Silencioso como o Paraíso” é escrito nos gerúndios da leveza. A gente lê esse livro debaixo de dólmens úmidos bem pouco pesados. Ler é um glissando com vogais sobrevoando atentas o texto. Esses textos são escritos em passagem, atravessando invisíveis uma época repugnante. Protegidos por parêntesis de luz doce. As palavras que caíram do céu? “Às vezes passa um vento e dá à carne flutuações perdidas”, às vezes são lentos rituais dos símbolos, vezes outras estranhíssimos êxtases de ritos de levitações verbais. Curiosas e ideográficas histórias. Estribilhos em folhagens, lendas lentas em farfalhar de restos de versos sem fim. Escher e minimalismo, hipnotismo fonético, narrações pendulares, o ir e vir sem tic-tac. Escrita com lápis de fino traço de névoa, grafite carbônico ancestral da espécie. Vicente sabe que todo leitor é um espaço imenso, um templo para congregação de ecoamentos dispersos. Que nele tudo continua. Os textos hoje da nova literatura são telepáticos, mentes-regiões, campos cultivados de frases sem fim, campos mântricos das palavras abertas, mares vastíssimos de miltiplicados brilhos de todos os sentidos. Esses textos embebem.  Vicente Franz Cecim escreve histórias em litoral de pergunta. Alternâncias, textos que se enviam de outros textos ainda não escritos.

         O livro começa ao mesmo tempo pelos seus dois lados, como a mente. Um lado mais úmido, outro mais lento. E assim o livro voa. Pois ele trata da

Queda do homem, de sua expulsão do Paraíso. Ele narra coisas e polpas e luzes de seres que são anjos, deuses, homens, bichos, plantas, ventos, fantasmas, climas, fala de homens que caem dos céus. Em “O Diálogo dos Comediantes“, nas páginas de ligação entre os dois hemisférios desse livro-mente, bem centrais, Cecim finca o mastro com ponta de luz na linguagem como nunca antes na língua-nau portuguesa, desde os ossos. Porque deles, dali, em seu ranger narrativo, em seus óleos, os ossos pensam e falam uma mitologia da solidariedade e da luz. Vicente Cecim entrega-se por completo à imaginação em oração narrativa...   

 

 

 

[Este texto crítico nunca foi publicado na íntegra até este momento editorial. Sua primeira versão saiu no suplemento Idéias-Livros do Jornal do Brasil, em 1993, mas de tal forma antiesteticamente modificada pelo copyesk pouco refinado do jornal que natural se faz sua republicação aqui neste campo livre de idéias que é o portal literário Cronópios]

 

 

 

Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Publicou os romances
A cachoeira das eras - A Coluna de Clara Sarabanda (Ed. Moderna, 1979, cujo trecho acima foi extraído); Além, Jericoacoara e pedaços da história mais longe e o livro de contos Ofos. Seu livro mais recente é O romance que explodiu, publicado em capítulos no Cronópios e lançado pela editora da Universidade do Ceará. E-mail:
carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br 

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