Por Claudio Soares

Ao decidir levar meu romance Santos-Dumont Número 8: O Livro das Superstições para o Twitter [é o primeiro romance brasileiro publicado naquela rede], a minha proposta fundamental era [e continua sendo] analisar as redes sociais como um novo espaço para a criação de narrativas [ficcionais ou não].
Entretanto há ainda um outro objetivo, talvez mais ambicioso: repensar o conceito de livro. É um questionamento que me acompanha há tempos. Um questionamento tão enganosamente simples [enigmático por essência], quanto fundamental [cada vez mais fundamental]: Afinal de contas, o que é um livro?
Falo aqui do dispositivo de armazenamento da informação, mas sabemos, desde Marshall McLuhan, que o meio influencia a mensagem. Se o livro [como o jornal] é o software, o formato tranquilizador dos e-books [que, apesar de digitais, ainda seguem o mesmo modelo "empacotado" do livro de sempre] não responde satisfatoriamente à pergunta se considerarmos as redes sociais como plataforma de publicação.
Sem pretender ser radical como o visionárioTed Nelson, o criador do termo “hipertexto”, que acredita que o modelo de simular “páginas de papel” limita a web [Today`s popular software simulates paper. The World Wide Web (another imitation of paper)], penso que o futuro dos “livros” [não sei se assim os chamaremos] é transformarem-se em web services, dinâmicos, configuráveis, personalizáveis e distribuídos:
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Livro = processador de vários componentes midiáticos configuráveis.
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Autor = sugere artefatos [inclusive uma configuração default] que o leitor poderá ou não alterar e personalizar segundo sua própria necessidade, objetivo e/ou vontade.
Esse é um aspecto. Um dos lados da mesma moeda. O outro está relacionado ao processo de criação de narrativas [não necessariamente lineares] que nesses ambientes transformam-se em verdadeiras “experiências”.
Por exemplo, a prática de anotações [esse conceito achamos em Roland Barthes], que em muito se assemelha aos status updates do Twitter e outras redes sociais, pode, se bem usado, ajudar no processo de criação de narrativas multiníveis [ficcionais ou não].
Aqui, os agregadores de feeds como o FriendFeed, antecipam o conceito dos fluxos de histórias múltiplos e, claro, distribuídos [em um tweet recente, referindo-me a romances, arrisquei o termo "preemptive multitasking based novels"].
O projeto @sd8 segue buscando essas respostas. Os conceitos básicos são:
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O livro é orgânico, escritor e leitores interagem entre si através e com o livro das redes sociais. Escritor escreve ao vivo. Leitor lê ao vivo:http://twitter.com/sd8e os diversos outros perfis associados à trama [no total de 8 perfis]
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O romance é uma experiência distribuída, descentralizada, em redes sociais:http://sd8thenovel.storytlr.com/.
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A linearidade da história é montada por autor [configuração default] ou personalizada por leitores que assim podem “montar” o “livro” que desejam ler:http://sd8thenovel.storytlr.com/story/2154-santos-dumont-nymero-8.html [este exemplo é limitado à configuração do autor].
Se por um lado é o autor que tece a narrativa [e é isso que o faz autor], por outro, ela só se realiza no leitor. Antes do leitor, ela [a narrativa] é apenas uma possibilidade.
E nesse aspecto específico, nada muda: a literatura está salva [ao contrário do que muitos acham] pois continuará a mesma instigante, estimulante e desafiadora experiência.
Continuemos a conversa nos próximos artigos.
[Publicado originalmente no portal de tecnologia iMasters/UOL]
Cláudio Soares é escritor, analista de TI e editor do Pontolit [http://www.pontolit.com.br/blog]. E-mail:souza.soares@gmail.com. É autor do romance Santos Dumont Número 8: O livro das Superstições [http://twitter.com/sd8], o primeiro romance brasileiro publicado em uma rede social on-line.