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Poesia argentina actual
por Gustavo Lopez





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[18] Verso livre obrigatório versus forma fixa voluntária
por Glauco Mattoso




[17] Desalongando o pappo e desmedindo forças
por Glauco Mattoso




[16] Bacchanal buccoanal ou suruba cubuccal?
por Glauco Mattoso




[15] Enquadrado na quadrilha dos quadrinhistas
por Glauco Mattoso




[14] Macacos soltos no laboratório
por Glauco Mattoso




[13] De volta para o presente
por Glauco Mattoso




[12] Graecum est, non legitur
por Glauco Mattoso




[11] Nem tanto ao mar, nem tanto a marte
por Glauco Mattoso




[10] Atropelos nos Anthroponymos
por Glauco Mattoso




[9] Topicos Tupynicos e Toponymicos
por Glauco Mattoso




[8] Idiosyncrasias idiomaticas
por Glauco Mattoso




[7] Quando o vice-versa é versão do vicio
por Glauco Mattoso




[6] Das escrituras demolidoras às releituras edificantes
por Glauco Mattoso




[5] Lettra que te quero lettra
por Glauco Mattoso




[4] Você sabe com quem está escrevendo? Com seu computador fallante!
por Glauco Mattoso







 


Micheliny Verunschk


Sebastião Nunes


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Bráulio Tavares


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Jussara Salazar


Glauco Mattoso


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José Inácio Vieira de Melo


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Maria José Silveira


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Jair Cortés


Guido Bilharinho


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Lau Siqueira


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Cláudio Soares


Alfredo Suppia


Artur Matuck
    
19/9/2009 22:59:00 
[9] Topicos Tupynicos e Toponymicos


Por Glauco Mattoso
 

Outro dia, a proposito dos toponymos brasileiros, fallava eu das variantes orthographicas do nome da cidade de Nictheroy, mais propriamente Niteroy. Acho que seria opportuno recapitular as olvidadas regras que disciplinariam as denominações geographicas autochthones. A questão dos anthroponymos fica para outra occasião.

Me lembro bem de quando fiz lettras vernaculas na USP e, entre as materias optativas, a gente podia programmar tupy ou toponymia, o que practicamente dava na mesma, uma vez que a maioria dos nossos toponymos são tupinismos.

Aqui ja começa a confusão, pois poucos entenderiam que graphassemos "tupy" com "Y" e "tupinismo" com "I", ao mesmo tempo que graphavamos "dandy" e "dandysmo", por exemplo. Afinal, pelo systema etymologico a escripta ficava engessada pelos radicaes em todos os cognatos e derivados, como em "psycho", que dava "psychanalyse", "psyche", "psychico", "psychismo", "psychotico", "antipsychiatria" ou "parapsychologia". Por que, então, não "tupynizar", "tupynificar" e "tupygraphar" systematicamente? Como diria Oswald, "tupy or not tupy, that`s the question"...

O facto é que, tanto nos tupinismos, em particular, quanto, por extensão, nos indigenismos em geral, os grammaticos e lexicographos nunca se entenderam, fosse pelo criterio etymologico, fosse pelo phonetico. Aurelio, por exemplo, registrava "paraty" com "Y" ao lado de "tupi" com "I", emquanto Aulete ignorava solennemente os brasileirismos.

Vae dahi que, junctando suggestões de varias fontes e auctoridades, cheguei à minha propria regulamentação. Na verdade, as regras anteriores à reforma quarentista ja synthetizavam dialecticamente a tradição escripta de tendencia etymologista e a coherencia logica das systematizações phoneticistas. O que fiz foi uniformizar as differentes posições a fim de estabelecer um parametro seguro.

Na practica, tudo gyra em torno dos phonemas consonantaes em "Ç/SS" e "G/J", alem do vocalico "I/Y". Sabendo-se que os indios não tinham uma linguagem escripta, alphabeticamente codificada como a dos idiomas europeus, temos que partir do principio de que qualquer representação orthographica será necessariamente arbitraria, mas, como parto do principio de que o systema etymologico preserva ao maximo as formas fixadas ha mais tempo, obrigo-me a optar pelo que se poderia chamar de "phoneticismo etymologizante". Assim, teriamos a seguinte padronização:

No caso das palavras que phoneticamente levam "J" antes das vogaes "E" ou "I", como "Moji", "Potenji", "Seriji", "Tibaji", "jibóia", "jirau", "pajé", "Bajé" e derivados typo "bajeense" e "pajelança", prefiro invariavelmente o "G", graphando "Mogy", "Potengy", "Serigy", "Tibagy", "giboya", "giráo", "pagé", "Bagé", "bageense" e "pagelança".

No caso das palavras que phoneticamente levam "Ç" antes de "A", "O" ou "U", como "açaí", "Paiçandu", "Moçoró", "paçoca", "Paraguaçu" ou "Piraçununga", prefiro invariavelmente o duplo "SS", graphando "assahy", "Payssandu", "Mossoró", "passoca", "Paraguassu" e "Pirassununga".

No caso de "I" ou "Y" a questão é ligeiramente mais complexa, como nos exemplos citados "Tibagy", "giboya", "assahy" e "Payssandu", mas tudo se resume em reservar o "Y" para as syllabas tonicas e para os diphthongos, precedido de "H" no caso das tonicas que implicam hiatos. Assim, as palavras "Curityba", "Itamaraty", "jurity", "piriry", "Biriguy", "Piauhy", "Carapicuhyba", "Atibaya" ou "Itatiaya" levam apenas um "Y", da mesma forma que essa lettra occorre tonicamente em "Pery", "Cauby", "Moacyr", "Jandyra", "curupyra", "sucupyra", "Sepetyba", "Parahyba", "tupy", "poty" ou "Jaguary" (e diphthongalmente em "Araguaya", "cayapó", "Cuyabá", "Tamoyo", "Tapuya", "Bocayuva", "aymoré", "Cayru", "guaycuru" ou "Uruguay"), sem que se reflicta nos compostos quando haja deslocamento da tonica, como em "tupinambá", "potiguar" ou "Jaguariahyva", ainda que se mantenha em derivados como "curitybano" ou "piauhyense".

Explica-se, portanto, que o "Y" appareça em "Juquityba" mas não em "jequitibá", bem como haver "H" na tonica "Sapucahy" e não na diphthongal "Sapucaya", ou ainda a occorrencia de dois "Y" em "Tuyuty".

Sempre occorrerão excepções, naturalmente, como em "Ypiranga", que na verdade se compõe de "Y+Piranga", ou em "Ivahyporan", composto de "Ivahy+Poran", ou como nos diphthongos decrescentes em "caissara" e "caipyra", que eu preferiria graphar "cayssara" e "caypyra". Tambem excepcional é o caso em que, mesmo tonico, o "Y" não apparece porque se nasaliza com "M" ou "N", como em "mirim", "curumim", "tupiniquim" ou "Tocantins". No caso de "Nictheroy" em vez de "Niteroy", a excepção se justifica, como ja mencionei, pela tradição toponymica e litteraria.

E por fallar em litteratura, alguns exemplos na direcção do equivoco ou do acerto: em Gonçalves Dias, o poetico "Y-Juca Pirama" exhibe, correctamente hyphenada, sua origem composta, emquanto "Os Timbyras" às vezes apparece erroneamente graphado como "Os Tymbiras", inclusive no tractado de Bilac. Em Alencar, é correcta a ausencia do "Y" em "Iracema" e a presença em "O Guarany". Ja o romance de Mario de Andrade devia ser
graphado "Macunahyma" e não, na forma ethnographica, "Makunaima".

Paro por aqui, quando me occorre este soneto para illustrar a materia:



SONETO PARA UMA TATUAGEM ATTRAHENTE [2092]

"Tatuapé", tupy de origem, é
"tatu que inda não pode andar de carro",
si formos num moleque botar fé
quando elle, em meio à turma, tira sarro...

Disposto a fazer graça, digo até
que a ver com tatuagem tem... Me agarro
à hypothese: si alguem tatua pé,
tatua mão e braço... E ja me amarro!

Que typo de "tattoo" num pé se faz?
Si for marcar a lancha dum rapaz,
prefere-se uma bocca de mulher...

No pé duma menina, é tentador
um olho que nos olha, cuja cor
reflecte quem os olhos lhe puzer...



 

Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br 


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